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Livros e resenhas

"Histórias de Rebeldia" reúne memórias de Neco Panzera

Angelina Anjos Publicado em 22.04.2016

No dia 7 de abril, no prédio centenário que abriga a Casa da Linguagem, ocorreu o lançamento do livro do velho comunista Marcos Casteli Panzera - Histórias de Rebeldia – editora Paka-Tatu – a obra foi prefaciada por Paulo Fonteles Filho.

Neco Panzera durante o lançamento de suas memórias em Belém

Os comunistas no Pará tem um grande legado de ancestralidade que de certa forma  influencia em ser os vibrantes lutadores e lutadoras do povo que são, e as escolhas que fazem; condutas que utilizam e que norteia toda ação política – assim, no dia 7 de abril, no prédio centenário que abriga a Casa da Linguagem, ocorreu o lançamento do livro do velho comunista Marcos Casteli Panzera -  Histórias de Rebeldia – editora Paka-Tatu – a obra foi prefaciada por Paulo Fonteles Filho.

O livro é um recorte instigante de 50 anos de vida e de luta de Neco Panzera e do PCdoB – meio século de militância, destes 35 anos só no Pará, o famoso Neco, o nosso Neco é um dos mais respeitados dirigentes comunistas com atuação num estado marcado pela força da violência do latifúndio e pela penetração econômica do grande capital, nacional e estrangeiro.

A noite de lançamento do livro foi marcada pela presença de intelectuais, estudantes, trabalhadores rurais, dirigentes de diversos partidos, familiares, amigos entre outras personalidades da capital e interior paraense – a obra é um presente qualificado na atuação dos bravos comunistas, completamente em cores, contém um acervo riquíssimo, com imagens, possibilitado por Eneida Guimarães, que colocou à disposição seu arquivo pessoal, além de fornecer dados sobre a sua experiência na direção na FEMECAM e do partido no movimento comunitário.

Diante de seus 70 anos – o sanfoneiro da resistência – continua a inspirar as novas gerações, contribuir na direção estadual do PCdoB e sabe como poucos o valor da democracia, das liberdades públicas e da necessidade da militância com a perspectiva da primavera dos povos.

É um livro de memórias subversivas, um legado, um guia e valioso ensinamento para as futuras gerações. 

LEIA RELATO DO PREFACIADOR, PAULO FONTELES FILHO, SOBRE O SANFONEIRO, PUBLICADO NO PORTAL VERMELHO:

Neco Panzera: O Sanfoneiro da Resistência! 

Na primavera da manhã de 1º de junho de 1943, na cidade do Rio de Janeiro, em meio aos estertores da Grande Guerra e a ofensiva geral para derrotar as forças de Hitler, vinha ao mundo o descendente de imigrantes italianos, Marcos Casteli Panzera.

Só quando se conhece pessoas assim – de carne, osso, ternura e convicções - é que é possível desvendar o papel histórico dos "imprescindíveis". 

No país tupiniquim daqueles dias, de Getúlio Vargas, navios brasileiros eram torpedeados por submarinos alemães nos litorais do Sergipe, da Bahia, do Ceará, Alagoas e São Paulo e o Brasil assistia, em 1° de maio, ao apoteótico ato de Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) no Estádio de São Januário, do Vasco da Gama.

Na Mantiqueira (RJ), nas duras condições da clandestinidade, o Partido Comunista do Brasil (PCB) estabelecia, enquanto linha política, a necessidade de ampla união contra o fascismo, uma vigorosa campanha de solidariedade à URSS – que suportava em seus ombros os esforços da luta contra os nazistas – e a imediata participação direta do Brasil na guerra, através de Força Expedicionária. Prestes, o Cavaleiro da Esperança, preso nas masmorras do Estado Novo só conheceria a liberdade em 1945, depois de ruidosa campanha internacional de solidariedade aos presos políticos do Levante de 1935, dirigida por sua genitora Leocádia Prestes.

Assim são os nascimentos, em meio ao turbilhão das mortes e das esperanças, do aço e do fogo, dos dias onde repousam as tênues digitais da humanidade enfrentando e vergando os tiranos que, com suas hordas, quiseram afogar a civilização em tempos tão escuros quanto o medo.

Mas, ali, tranquilos e profundos olhos verdes se veem abertos para a claridade das ideias, dos dias e da música.

O sul de Minas, São Lourenço, conhecida estação hidromineral, encravada na parte mineira da Mantiqueira, vai registrar a infância e parte da juventude de Panzera. Os pais, Hildebrando e Ismênia, ele comerciante e membro da Sociedade Teosófica Brasileira e ela, eximia pianista e mulher moderna, vão construir um lar para os três filhos onde os estudos da música, através do piano e do acordeom, vão dar a tônica na sensibilidade artística do velho comunista. Alias, poderia ser diferente quando se têm uma Academia dentro de casa?

Foi pela década de 1950 que desenvolveu uma das características mais marcantes de sua personalidade: a organização. O trato assertivo com a vida se deu quando, estimulado pelos pais, passou a colecionar e conservar coisas. De interesses amplos, fez coleções inteiras de moedas, selos, caixinhas de fósforo, marcas de cigarros, lápis, de pedras, figurinhas, orquídeas e insetos.

Pelos invertebrados embrenhava-se nas matas do Corcovado e do Pão de Açúcar, em expedições montanhistas na cidade do Rio de Janeiro e chegou a se corresponder e trocar espécies com pesquisadores estrangeiros. Depois de anos doou toda a coleção, de importante valor científico, para um museu público.

Mas foi em São João Del Rei, também nas Minas Gerais, que decidiu por estudar Agronomia. Talvez o fato de ter morado ao pé da Serra de São José, em Tiradentes, numa casa avarandada e debruçada sobre as jabuticabeiras tenha lhe conferido a síntese de que o conhecimento está também na reunião das especialidades aplicadas a produção rural. Tais ensinamentos foram-lhe bastante úteis nos longos anos de vida clandestina e militante, como camponês, formando a família no interior sertanejo de um Brasil profundo e desigual.

Na antiga Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, em Viçosa, além de passar muito frio, fazer serenatas e tocar profissionalmente o acordeom num conjunto musical, sempre aos finais de semana, conheceu os sertões baianos através de um vapor viajando entre Pirapora (MG) até Juazeiro (BA), divisando Pernambuco. A visão de Recife e João Pessoa, das levas nordestinas, dos plantios irrigados, das criações de vacas holandesas no sertão alagoano – cuja base alimentar era a palma forrageira, um cacto da região – cuja produção de leite chegava a 25 mil litros diários conferiu-lhe a visão da dura realidade em que vive o nosso povo, assim como das grandezas e potencialidades do país.

Naquele início dos anos de 1960, em contato com a Juventude Universitária Católica (JUC), movimento cuja orientação se baseava nas teses da Teologia da Libertação, ou seja, na igreja mais politizada e voltada aos problemas sociais, vai participar da famosa ‘Greve do um Terço’, deflagrada em junho de 1962, pela União Nacional dos Estudantes (UNE) na gestão do goiano Aldo Arantes. Momento glorioso do movimento estudantil brasileiro a greve era uma das estratégias na luta pela Reforma Universitária, parte indivisível nas Reformas de Base, programa de transformações estruturais da sociedade brasileira defendidas pelo então presidente João Goulart.

A ebulição política daqueles dias encontrava caminhos nas contendas pela democratização da sociedade brasileira no sentido de superar as estruturas autoritárias e elitistas. Havia a pujança do futebol, a vitória nos campos da Suécia em 1958 com Pelé e Garrincha fez com que a alma tupiniquim rompesse com a síndrome de vira-latas, como ensinava Nelson Rodrigues.

Na música, a Bossa-Nova de João Gilberto, Carlinhos Lira e Tom Jobim assombravam o mundo e o Cinema Novo experimentava um país que se reconhece na sua ancestralidade e no povo, através dos gênios de Glauber Rocha, Eduardo Coutinho e Joaquim Pedro de Andrade.

Em 1965, no nascedouro da Ditadura Militar, já incorporado à Ação Popular (AP) e formado agrônomo parte junto a outros recém-formados para Goiás, contratado pelo Ministério da Agricultura. A ideia, preliminar, era de desenvolver atividade econômica com base na agropecuária capaz de render recursos para a atividade política.

A experiência prática de Panzera revelou-lhe quão dura era a realidade dos pequenos produtores agrícolas e de que as teorias aprendidas nos bancos universitários careciam da vida sob o sol, escaldante, e a compreensão da força nefasta que o latifúndio exerce, historicamente, no panorama agrário brasileiro.

O trabalho no Ministério da Agricultura facilitava o contato com os lavradores e a tarefa de dirigente camponês da AP era exercida com muita convicção, apesar da clandestinidade. A necessidade de criar núcleos camponeses e incentiva-los a atuação sindical contra o patronato rural goiano, tradicionalmente conservador, eram tarefas que lhe exigiam longas jornadas por dentro das fazendas, em reuniões realizadas noite afora, sempre sob a luz de candeeiros e cursos de formação baseados nos métodos de Paulo Freire.

Diante do cerco repressivo, as leituras de livros onde revolucionários projetaram na história um comportamento exemplar, como o do comunista tcheco Julius Fucik que escreveu o clássico “O Testamento sobre a Forca”, eram parte da estratégia de sobrevivência daqueles que se situavam no enfrentamento político radical ao regime tirânico.

A vida como servidor público do Ministério da Agricultura fez com que conhecesse uma das muitas funcionárias do órgão, a estudante de Belas Artes da Universidade Católica de Goiás, Eneida Cañedo Guimarães. Só quando a paquera se transformou em namoro sério é que soube que Eneida não era apenas uma moça de família – tida como rebelde - com posses e ligações com a terra, de fazendeiros, mas que também tinha relações com o movimento estudantil e a AP.

Talvez só o coração apaixonado possa explicar certas atitudes mesmo. Quando faltavam poucos dias para o casamento e já financiando a casa própria veio, enfim, a experiência da prisão e, com ela, a ousadia de protagonizar uma inacreditável fuga, nas barbas dos lobos, uma proeza que a memória da resistência exige celebração.

Preso numa barreira policial indo à casa da noiva e levado a uma unidade militar, onde vários camponeses de sua área de atuação já se encontravam presos, logo é reconhecido como dirigente da AP.

Transferido para as dependências do Serviço Nacional de Informações (SNI), num edifício no centro de Goiânia, atravessa sessões de interrogatórios e por diversas ameaças. Num certo momento da madrugada, durante a ausência do inquisidor, enche-se dessa estranha coragem que só o instinto de sobrevivência enseja: saiu andando pela porta aberta que dava para o corredor onde a burocracia estatal, em várias salas, tramava contra as liberdades dos brasileiros. Do corredor, a escada e a rua em disparada!

Mas, aonde ir senão à casa dos pais de Eneida? Apesar de a noiva ter uma família conservadora e de ter ficado aturdida com a revelação da militância de ambos e da fuga do moço, apesar da necessidade de ‘desarrumar’ o casório, foi a solidariedade dos Cañedo Guimarães que fizeram, enfim, que Panzera se livrasse do pau-de-arara e da tortura.

Num périplo por Belo Horizonte - onde reencontrou os pais e contou-lhes tudo, recebendo pronto apoio – e São Paulo onde tentaria contato com a direção da AP num local pré-determinado, o Viaduto do Chá, sempre às quartas, nove da manhã, e assim foi por algumas semanas e nada. Após um mês em compasso de espera, sempre cobrindo o ponto combinado, vivendo clandestino na casa de um tio no bairro da Penha, é abordado pela organização política, restabelecendo os vínculos com a AP.

Escondido na Praia Grande, litoral paulista, acompanha a transição da AP ao pensamento marxista. A formação da Ação Popular Marxista-Leninista (APML) foi, também, fruto de um movimento intelectual em direção ao estudo das obras de Marx, Engels, Lênin, Stalin, Mao Tse Tung e Ho Chi Minh. Apesar das tensões, foi um período de muito estudo e de amplo desenvolvimento ideológico cuja tática exigia que a luta por democracia e liberdade tivessem centralidade.

Foi Helenira Rezende de Souza, que, como ‘Fátima’ irá tombar anos depois heroicamente – com armas nas mãos – na guerrilha do Araguaia que fez com que Panzera se reencontre com Eneida, num cinema da Paulista, numa sessão perdida de fins de 1967. Por uma noite, antes de voltar à Goiânia é que participa ao noivo que havia sido presa com um conjunto de militantes da AP e que o agente Xavier, do SNI, na qual a responsabilidade pela fuga fora-lhe imputada pelos colegas e superiores, jurava-o de morte.

Deslocado para Salvador (BA) vai contar com a solidariedade e ombrear com as militâncias de Joviniano Neto, Haroldo Lima, Péricles de Souza e Jorge Leal Gonçalves Pereira, assassinado nos porões da repressão política. Nas duras condições da clandestinidade vai ter ouro nome, o do lavrador baiano nascido em Ibicaraí - na zona cacaueira – Nelson Silveira Xavier, cujos pais fictícios se chamavam Mário Xavier e Alice dos Santos Xavier. Agora Eneida é Isabel.

O drama do clandestino não pode ser contado apenas pela ótica de quem é asilado, caçado e difamado em seu próprio país, mas, sobretudo, com a necessidade de rompimento com o passado, formação profissional, amigos e parentes. Na vida clandestina é que Panzera, ou melhor, Nelson, vai ganhar o apelido de ‘Neco’.

Diante da necessidade de integrarem-se à produção num processo de ‘proletarização’ vão viver como camponeses no interior da Bahia. Ele roçando capoeira a facão e ela levando a penosa vida das mulheres do sertão, apanhando água na cabeça, em potes, para os afazeres domésticos.

Nesse contexto de clandestinidade é que nascem os filhos: Mauro, Jorge e Maurício. A educação dos filhos fora baseada em duas ideias bem básicas: o combate ao medo e a visão científica do mundo que nos cerca.

Na caatinga, entre enxadas e o trabalho de vendedor ambulante vai assegurar a ação militante junto aos camponeses baianos, sergipanos e alagoanos. A vida era pesada para Isabel que, além de cuidar dos filhos, era professora, curava ferimentos, dava injeções, além de ser parteira.

Um dos aspectos que facilitaram a integração da família no contexto do campesinato pobre do nordeste foi o fato de que o ‘Neco’ era acordeonista e com o tempo tornou-se um sanfoneiro relativamente conhecido na região da Chapada Diamantina (BA). A vida de músico de festas rústicas, de terra batida, iluminadas por lampiões de querosene tornou-se outra forma de sustentação da família. Por esta mesma época o também clandestino dirigente de AP, Ronald Freitas, fazia as vezes de fotógrafo.

Em 1972 ingressam no Partido Comunista do Brasil e três anos depois, 1975, tiveram de sair da região por conta do cerco que a Ditadura Militar fazia aos comunistas que haviam protagonizado a luta armada no Araguaia.

Deslocados para São Paulo e morando em Ilha Bela com Euler e Isaura Ivo, o ‘Neco’ reuniu-se com a direção do Partido – dentre eles João Amazonas e Ângelo Arroyo – na mesma casa onde o II Exército protagonizou, em 1976, a tristemente famosa ‘Chacina da Lapa’ que vitimou, além de Arroyo, as figuras de Pedro Pomar e João Batista Drummond. A reunião girou em torno de sua dedicação ao Partido e a necessidade de uma nova implantação do trabalho de enfrentamento ao regime no Maranhão e na Amazônia Legal. Antes da liquidação de parte da direção comunista ele já estava no norte do Brasil.

No Maranhão vão viver em Cândido Mendes onde prosperam, constituem novas amizades, montam um comércio e organizam uma associação comunitária. Mas, diante da nova realidade que a luta pela Anistia ensejou, de redemocratização, em 1979 desloca-se ao Pará para trabalhar como agrônomo da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), ligada à Teologia da Libertação da Igreja Católica.

Depois de doze anos de vida clandestina, com mulher e três filhos é que retorna a vida legal, transição que contou com a solidariedade da coordenação da Fase que teve conhecimento de sua condição de perseguido políticos e mesmo assim contratou-o com o nome clandestino. Quando a redemocratização se consolidou com a Lei de Anistia, de 1979, o Nelson Xavier foi demitido e o Marcos Casteli Panzera contratado.

No Pará vai montar, ao lado de Paulo Fonteles, Socorro Gomes, Eneida Guimarães, José Marcos de Lima Araújo, Sebastião Santos, Romualdo, ‘Pororoca’, Anita Fonteles, Neuton Miranda e Leila Mourão o núcleo dirigente do então clandestino Partido Comunista do Brasil. E entre Santo Antônio do Tauá, Castanhal, Vizeu e Belém empreendeu todos os esforços, a bordo do fusquinha ‘melancia’ – verde por fora e vermelho por dentro – na construção coletiva do pensamento social avançado e do Partido da Classe Operária, o PCdoB.

Em 50 anos de militância política, destes 35 anos no Pará, vai ser um dos mais respeitados dos dirigentes comunistas com atuação num estado marcado pela força da violência do latifúndio e pela penetração econômica do grande capital, nacional e estrangeiro. Tal ação dos donos das terras, em aliança com antigos agentes da repressão política, assassinaram as figuras de João Canuto, Paulo Fonteles e Expedito Ribeiro de Souza, também rubros dirigentes ligados à luta pela Reforma Agrária na Amazônia e no Brasil.

Na atualidade, o ‘Neco’ - com mais de setenta anos – continua a desempenhar suas tarefas políticas na direção estadual do Partido no Pará, vive o segundo casamento com Luzia, é pai e avô presente, refez muitas das relações perdidas pelos anos-de-chumbo, toca piano e sanfona, constituiu outras grandes amizades e sabe, como poucos, o valor da democracia, das liberdades públicas e da necessidade da militância com a perspectiva da primavera dos povos.

Só quando se conhece pessoas assim – de carne, osso, ternura e convicções - é que é possível desvendar o alemão Brecht, também comunista, quando ensina o papel histórico dos "imprescindíveis".

Esse livro, de memórias subversivas, é um legado, um guia e valioso ensinamento para as futuras gerações de revolucionários brasileiros. 

* Pesquisador da Guerrilha do Araguaia