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A crise é mundial

Eugenio Miguel Mancini Scheleder * Publicado em 29.02.2016

Pela primeira vez em quase 30 anos, a classificação de crédito da Chevron foi rebaixada pela agência de risco Standard & Poor's. É a maior empresa de petróleo dos EUA rebaixada, até agora, em meio à crise atual.

Pela primeira vez em quase 30 anos, a classificação de crédito da Chevron foi rebaixada pela agência de risco Standard & Poor's. É a maior empresa de petróleo dos EUA rebaixada, até agora, em meio à crise atual. A agência informou que alterou o rating de 20 empresas de E&P com grau de investimento nos EUA, após concluir a avaliação que se seguiu à recente revisão dos seus pressupostos de preço dos hidrocarbonetos.

Em seu comunicado, a S&P declarou que “enquanto os preços do petróleo se deterioravam ao longo dos últimos 15 meses, as empresas com grau de investimento sediadas nos EUA permaneciam, em grande parte, imunes a rebaixamentos. No entanto, dada a magnitude das recentes reduções do patamar de preços, a maioria das empresas com grau de investimento foi afetada durante essa última avaliação. Esperamos que muitas dessas empresas continuem a reduzir as suas despesas de capital e a focar em maiores eficiências, no entanto, essas ações, em sua maior parte, serão insuficientes para conter a deterioração significativa de crédito esperada ao longo dos próximos anos”.

A S&P rebaixou várias das maiores empresas de exploração e produção dos EUA. Entre elas estão incluídas a Chevron (de AA para AA-), a Continental Resources (reduzida a “junk status”) e a Bakken-Hess Corp (de BBB para BBB-). Outras empresas rebaixadas foram Murphy Oil Corp, Apache Corp, Marathon Oil Corp, EOG Resources e Devon Energy. A Southwestern Energy Company também foi reduzida a “junk status”.

A agência informou, ainda, que a maior empresa norte-americana, a ExxonMobil, foi colocada em “observação, com implicações negativas”. A Exxon é uma das três empresas norte-americanas que mantêm a classificação de AAA, a mais alta conferida pela S&P. A agência declarou que as dificuldades de crédito da Exxon podem se estender até 2018 e que vai decidir sobre o rebaixamento ou não da empresa dentro dos próximos 90 dias.

Segue abaixo a nota completa da S & P sobre o rebaixamento da Chevron:

“O rebaixamento reflete nossa expectativa de que, no contexto de valores mais baixos para os preços de petróleo e gás e para as margens de refino, as dificuldades de crédito manterão a situação da empresa abaixo de nossas expectativas para o rating 'AA' ao longo dos próximos dois anos. Prevemos que a Chevron vai gastar grande parte do caixa gerado internamente para financiar despesas de capital e pagar dividendos este ano, restando pouco caixa disponível para a redução da dívida ao longo dos dois anos seguintes. Notamos que a empresa tem significativamente mais dívida do que na última revisão, enquanto a produção de petróleo e gás está em nível semelhante. A perspectiva estável reflete nossa expectativa de que as condições de crédito poderão melhorar ao longo dos próximos três anos, desde que ocorram menores gastos de capital e os preços das commodities se situem em patamares mais elevados.”

Como se vê, o calvário da nossa Petrobras vem sendo escalado, também, por suas congêneres no mundo, todas elas atingidas pela rápida deterioração dos preços do petróleo e pelas dívidas acumuladas na viabilização de projetos de E&P de mais longa maturação. Do ponto de vista da agência de risco, há que priorizar os compromissos com a dívida, em detrimento das despesas de capital e do pagamento de dividendos.

 

* Engenheiro aposentado da Petrobras, exerceu, de 1991 a 2005, os cargos de secretário nacional adjunto de Energia, presidente da Comissão Nacional de Gás Natural, diretor de Gestão e diretor de Investimentos Estratégicos do Ministério do Planejamento.