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Pedro Onça, vida e morte no Araguaia

Zezinho do Araguaia Publicado em 31.03.2015

Zezinho do Araguaia faz sua homenagem ao camponês Pedro Sandes, conhecido como Pedro Onça, falecido no dia 26 de março, aos 79 anos, tendo sofrido a prisão e a tortura por ocasião dos combates da Guerrilha, tornando-se presidente do PCdoB de Piçarra (PA).

Zezinho no documentário Camponeses do Araguaia

Pedro Onça era um camponês do Pará, analfabeto, que assinava seu nome com digitais. Conhecia e  entendia a natureza como poucos, e por isso preservava e respeitava. Muito jovem, foi chamado por um homem muito conhecido no meio político, à época do interventor do Pará, o general Magalhães Barata. O senhor Cariolano. Conhecido por “ matador de índios”, Cariolano era um servidor dos políticos da época.

Maranhense, o Pedro Onça tinha como função orientar onde existia, nas matas do Pará e Maranhão, castanha, seringais, ferro, manganês e minérios; ou seja, qualquer tipo de metal. Na década de 1960, já com sua companheira Chica, descobriu um pequeno castanhal e ali se instalou, criou os filhos.

Pedro Onça gostava de ouvir Cariolano e suas histórias. De 1965 para 1966, conheceu o garimpeiro Osvaldo –um garimpeiro diferente –, amigo e companheiro. Na nossa conversa, perguntei porque Osvaldo era diferente. Ele era amigo de dois rapazes que Cariolano admirava muito. Indaguei quem eram estes dois? João Amazonas e Pedro Pomar! “Eu estou conhecendo um amigo dos dois”, ele dizia sobre Osvaldão.

Cariolano morreu sem conhecê-los. Não falou nada para o Osvaldo. Este relato me foi passado só quando chamei ele e a Chica, companheira de mais de 50 anos, para pedir os documentos dele e fazer o pedido de anistia de quatro camponeses. Duas mulheres e dois homens, que são Dircy, viúva do Zé Ribeiro, da República Camponesa de Goiás; Neusa Rodrigues Lins, de São Geraldo (Pará); e Pedro Onça, da Sobra de Terra, como era conhecido município, hoje, chamado de Piçarra. Outro é Otacílio Alves de Miranda, o Baiano, da Dona Felicidade, em Marabá.

Eu, também camponês, consegui ser anistiado junto aos meus companheiros de luta libertária. Conseguimos anistiá-los, em 2006, quando a Comissão não fazia isso, por entender que camponês não tinha conotação política. Esta façanha só aconteceu com o segundo presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, o jurista Marcello Lavenére Machado.

Pedro Onça, este camponês, foi nosso companheiro e amigo fiel. Foi preso, torturado, levado para a mata para servir de guia, e nunca nos traiu. Pedro Onça é um herói camponês na Guerrilha do Araguaia.

Faleceu no dia 26 de março de 2015, na Piçarra. No sepultamento, dia 27, estavam prefeitos e vereadores do Maranhão, Pará e Tocantins. Entre eles, estava o prefeito de Araguaná, Alan Brasil, muito amigo do PCdoB. Foi vereador pelo PT na Piçarra, graças ao presidente do PCdoB naquele município, o Pedro Onça.

Este é um breve relato, despedindo-me do herói camponês, presidente do PCdoB na área da luta libertária, na Piçarra, onde permaneceu por toda a vida; sepultado ali, depois de 51 anos.

Micheas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia, é sobrevivente da Guerrilha ocorrida entre 1972 e 1975.