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O jogo do galinha

Paul Krugman Publicado em 10.02.2015

Esperemos que o BCE defenda as democracias e não seja o cobrador da Alemanha.

Marcha em solidariedade ao governo grego em Atenas. / YANNIS KOLESIDIS (EFE)

O Banco Central Europeu anunciou na quarta-feira passada que não vai continuar aceitando a dívida pública grega como garantia para os empréstimos. Ocorre que essa medida é mais simbólica que significativa. Mesmo assim, está claro que se aproxima a hora da verdade. E é a hora da verdade não só para a Grécia, como também para toda a Europa (e, em particular, para o Banco Central Europeu, que talvez tenha de decidir em breve para quem, na verdade, trabalha).

Em essência, a situação atual poderia ser resumida com o diálogo seguinte:

A Alemanha diz à Grécia: Bonito sistema bancário. Seria uma lástima se lhe ocorresse algo.

A Grécia diz à Alemanha: Ah, sim? Pois não gostaríamos nem um pouco que sua resplandecente e bonita União Europeia fosse feita em pedaços.

Ou, se preferirem a versão mais formal, a Alemanha exige que a Grécia continue se esforçando para devolver tudo o que deve impondo umas medidas de austeridade extremamente duras. A ameaça implícita, se a Grécia se negar, é que o Banco Central cancelará a ajuda que presta aos bancos gregos – que é o que parecia ser a medida tomada na quarta-feira, embora não fosse. E isso causaria estragos em uma economia grega já muito maltratada.

Entretanto, fechar a torneira para a Grécia implicaria um risco enorme, não só para a economia da Europa, como também para todo o projeto europeu, 60 anos de esforços para consolidar a paz e a democracia mediante a prosperidade compartilhada. É provável que a quebra dos bancos gregos provocasse a saída da Grécia do euro e a volta à sua própria moeda; e se um país deixasse o euro, os investidores já saberiam que o grandioso desenho da moeda europeia é reversível e estariam prevenidos.

Além disso, o caos da Grécia poderia alimentar forças políticas sinistras, cuja influência cresce à medida que a Segunda Grande Depressão europeia avança. Depois de uma tensa reunião com seu colega alemão, o novo ministro da Economia grego não duvidou em jogar o trunfo da década de 1930. “A cabeça feia do nazismo”, declarava, “está assomando na Grécia” (uma referência ao Amanhecer Dourado, o partido (não totalmente neo) nazista que é agora o terceiro mais votado no Parlamento grego).

O que temos aqui é, sem dúvida, um enfrentamento muito perigoso. Isto não é a diplomacia que conhecemos; isto é o “jogo do galinha”, com dois caminhões carregados de dinamite indo um de encontro ao outro a toda velocidade, por uma estreita estrada montanhosa, sem que nenhum esteja disposto a desviar. E tudo isto está acontecendo dentro da União Europeia, que supostamente é – e de fato foi até agora – uma instituição que fomenta a cooperação produtiva.

Como a Europa chegou a isto? E como vai terminar este jogo?

Como muitíssimas crises, a nova crise grega tem sua origem, em última instância, na complacência política. É o tipo de coisas que ocorrem quando os políticos dizem aos eleitores o que estes querem ouvir, fazem promessas que não podem cumprir e depois não são capazes de enfrentar a realidade e tomar as decisões difíceis que estiveram fingindo que poderiam ser evitadas. Refiro-me, é óbvio, a Angela Merkel, a chanceler alemã, e a seus aliados.

É verdade que a Grécia se meteu sozinha em uma confusão ao se endividar de forma irresponsável (embora esse endividamento irresponsável não tivesse sido possível sem alguns empréstimos irresponsáveis). E a Grécia pagou um preço terrível por essa irresponsabilidade. Mas, se olharmos para o futuro, quanto a Grécia pode continuar aguentando? Está claro que não pode devolver tudo o que deve – isso é evidente para qualquer um que faça as contas.

Infelizmente, os políticos alemães nunca explicaram essas contas a seus eleitores. Em vez disso, optaram pelo caminho cômodo: dar lições de moral sobre a irresponsabilidade dos devedores, afirmar que as dívidas devem ser e serão pagas até o último centavo, alimentar os estereótipos sobre os preguiçosos europeus do sul. E, agora que o eleitorado grego finalmente disse que já não pode aguentar, os funcionários alemães se limitam a repetir as mesmas frases de sempre.

Talvez os alemães achem que podem se repetir os acontecimentos de 2010, quando o banco central coagiu a Irlanda para que aceitasse um programa de austeridade, ameaçando fechar a torneira para seu sistema bancário. Mas é pouco provável que isso funcione contra um Governo que viu os danos causados pela austeridade e foi eleito porque prometeu reparar esses danos.

Além disso, continuam existindo motivos para acreditar que o Banco Central Europeu se negará a cooperar.

Na quarta-feira, o BCE fez uma declaração que soava como um severo castigo à Grécia, mas não era, porque deixava aberto o canal de ajuda aos bancos gregos que realmente importa: a ajuda de emergência no caso de uma crise de liquidez (ELA, pela sigla em inglês). Assim, foi mais uma advertência do que outra coisa, e se poderia dizer que foi dirigida tanto à Alemanha como à Grécia.

E o que acontecerá se os alemães a ignorarem? Nesse caso, podemos esperar que o banco central adote uma posição firme e declare que sua verdadeira função consiste em fazer tudo que for possível para proteger a economia da Europa e as instituições democráticas (e não atuar como o cobrador de dívidas da Alemanha). Como eu disse, estamos nos aproximando rapidamente da hora da verdade.

Paul Krugman é professor de Economia da Universidade de Princeton e Nobel de Economia de 2008