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Dilma x Aécio: a maturidade do voto

Rodrigo Vianna Publicado em 05.10.2014

Dilma vai enfrentar Aécio Neves no segundo turno. É o tradicional confronto PT x PSDB que se repete. Isso significa que a “velha” política ganhou da “nova”?

Não. Significa que a Democracia brasileira mostrou maturidade. Marina tem uma biografia respeitável, mas tentou ganhar a eleição tratando o eleitor feito criança. “Eu sou o novo” (sei…), “vou governar com os “bons” de cada partido” (só faltava escolher os maus), “quero menos Estado e mais política social” (mágica?), “no meu governo não haverá toma lá dá cá no Congresso, contaremos com a pressão das ruas” (seria um governo bolchevique, com o Congresso cercado pelas massas, enquanto o Gianeti e a Neca acertam o resto com os bancos?).

A “Nova” Política era uma miragem. E Junho de 2013? Onde foi parar? Nos 1,5% de Luciana Genro?

Marina se desmanchou. Nunca numa eleição presidencial se viu nada parecido. O Brasil não engoliu a Marina. E Marina foi engolida pela realidade. Em 2014, sai da eleição menor do que em 2010. Apesar de ter conquistado cerca de dois pontos percentuais a mais do que na ultima eleição. Mas queimou patrimônio político.

Aécio sai do primeiro turno com 33% (exatamente o mesmo percentual de Serra em 2010). Dilma sai com 42% (5 pontos abaixo de 2010; fruto das dificuldades concretas do governo, da economia que cresce menos do que em 2010). Isso aponta para um segundo turno mais difícil do que em 2010.

Mas voltemos a Marina. No fim de agosto, a candidata chegou a aparecer 10 pontos à frente de Dilma em simulações de segundo turno. Aécio era dado como morto. Mas a política se impôs. Não a nova, nem a velha. Mas a política.

Dilma partiu para o combate aberto, fez o contraponto, mostrou as incongruências de Marina. Desmontou a tese do BC “independente”, do desprezo pelo pré-sal. Não foi uma “campanha de mentiras”. Foi o confronto político. Marina mostrou a consistência de um sorvete derretido.

Aécio fez o mesmo: mostrou o “risco” Marina, e retomou espaço, apesar da derrota acachapante em Minas do candidato tucano a governador.

Isso tudo mostra – sim - a maturidade da Democracia brasileira.

E o segundo turno? Será duríssimo. Virão as denúncias da “Veja”, as matérias de Ali Kamel no Jornal Nacional. Tudo contra Dilma. Nada de novo.

Mas Dilma é favorita. Jamais um candidato que venceu o primeiro turno sofreu virada em eleições presidenciais no segundo turno. Fora isso, Aécio não terá a máquina tucana nos três colégios eleitorais onde o tucanato é mais forte: Minas (PSDB sai humilhado), São Paulo e Paraná (onde Alckmin e Richa colheram vitórias já no primeiro turno, e a máquina partidária tende a funcionar de forma mais preguiçosa no segundo turno).

O PT deve vencer – mas com uma margem mais estreita do que nas eleições passadas. O clima de ódio é maior, as dificuldades na economia são reais.

O que joga a favor de Dilma? Os programas sociais, o desemprego baixo e a imagem pessoal de retidão.

Aécio vai contar com a máquina midiática, e com o ódio militante da classe média. Mas parece que isso não tem sido suficiente para ganhar eleição no Brasil – desde 2006.

A oposição precisava de um projeto novo. Alguns setores tentaram inventar o “projeto” Marina. Fracassou. Agora, volta-se ao velho leito liberal.

Aécio é FHC. Se a imagem do ex-presidente pode ter ajudado o tucano mineiro a chegar no segundo turno, agora vai virar uma bola de ferro – que o senador mineiro terá que arrastar pelas ruas, Brasil afora.

Lula x FHC. Dois projetos. O Brasil vai decidir de novo o que prefere.

Publicado em Revista Forum.