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Patriota buscou continuar diplomacia lulista, mas Brasil terminou afônico

Vitor Sion Publicado em 30.08.2013

Excessivamente ponderado e pouco incisivo, ex-chanceler caiu por dificuldades para administrar crises sul-americanas.

Ao transmitir o cargo para o novo ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo Machado, o ex-chanceler Antonio Patriota reiterou hoje (28) a necessidade de se respeitar a hierarquia e as cadeias de comando. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Depois de quase 32 meses de governo Dilma Rousseff, caiu nesta segunda-feira (26/08) o titular da pasta de Relações Exteriores, Antonio Patriota. Diferentemente do antecessor, Celso Amorim, Patriota entrará para a história por declarações pouco incisivas e pela dificuldade nas negociações com os parceiros sul-americanos.

Não à toa, as duas maiores crises de sua gestão no Itamaraty aconteceram com países do continente: Paraguai, em que uma viagem de última hora com outros chanceleres para Assunção não evitou o golpe contra o presidente Fernando Lugo em 2012, e Bolívia, caso em que não conseguiu encontrar uma solução para o asilo ao senador Roger Pinto Molina, que acabou sendo transferido ao Brasil em uma operação organizada por diplomatas, aparentemente sem a sua aprovação.

O desconhecimento do plano para trazer Pinto Molina, que responde por mais de 20 processos em seu país, ao Brasil, foi o motivo da demissão. Mas outros episódios, como a demora em se posicionar sobre o sequestro do avião do presidente Evo Morales, impedido de pousar em quatro países europeus, também minaram a confiança de Dilma em seu trabalho.

Como ponto final da administração de Patriota à frente do Ministério de Relações Exteriores, vale refletir sobre o seu legado. Sempre ponderado, o agora ex-chanceler tentou dar continuidade à política externa de Amorim e Lula, na qual o Brasil buscava maior protagonismo internacional. Talvez pelas críticas de setores mais conservadores da sociedade brasileira, Dilma e Patriota buscaram menos holofotes e maior atuação nos bastidores.

Prova disso é a mudança da estratégia brasileira para conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Conforme noticiou Opera Mundi em julho, a recomendação do atual governo era falar menos sobre o tema, bem ao estilo Patriota. Até mesmo graúdos diplomatas, no entanto, não entenderam a instrução e argumentavam que o tema estava “à margem”.

A impressão que fica, dessa maneira, é que a mudança de comportamento diplomático do Brasil não foi bem sucedida. Se internamente a presidente Dilma consegue dar a impressão de continuidade e aprofundamento das reformas empreendidas por Lula, externamente o país ficou afônico. O tratamento para a recuperação de nossas cordas vocais será responsabilidade de Luiz Alberto Figueiredo Machado. Remédios, ou melhor, temas em que o Brasil pode retomar a sua importância no cenário internacional, é o que não faltam.