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As manifestações do Brasil pelo mundo afora

Flávio Aguiar Publicado em 19.06.2013

De Berlim, Flávio Aguiar ressalta que, após as manifestações nas ruas brasileiras, muitas autoridades já estão dispostas a rever as tarifas. Enquanto isso, na Europa, apesar dos protestos locais, predomina a lógica da “Austerität über alles und alle”, ou seja, a austeridade acima de tudo e por cima de todos. Onde há mais democracia?

As manifestações de São Paulo e de outras cidades brasileiras repercutiram pelo mundo afora. Houve manifestações de solidariedade (aos manifestantes) e de repúdio à violência da polícia em várias cidades europeias, inclusive em Berlim, de onde escrevo.

É claro que nestas manifestações surgiram comentários do tipo “nada mudou no Brasil”. “O PT é igual ao PSDB”. Ou ainda: “O PT repete a ditadura”. É previsível.

Também é claro que voltam as perguntas – na mídia – ecoando as esperanças da direita brasileira, sobre “se o Brasil terá capacidade para organizar eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas”. Estas perguntas vêm com o apoio das reivindicações (para mim equivocadas) de que o dinheiro investido na Copa poderia ser usado em escolas, educação, saúde, etc.

Sim, o Brasil deveria investir mais nestas áreas. Mas uma coisa não se opõe a outra. O que prejudica o investimento social é o pagamento dos juros da dívida pública. A visibilidade da Copa, das Olimpíadas, etc., vai ajudar este investimento, não prejudicar. Além de que os investimentos nestes eventos esportivos estão beneficiando investimentos de infraestrutura e micro e média-empresas que vão repercutir na demanda por aqueles quesitos maiores da sociedade brasileira. Mas, enfim, isto é uma discussão a ser feita em profundidade. Fica para outra oportunidade. De momento, quem quiser algo a respeito pode dar uma olhada na edição da Carta Capital desta semana.

Repercutiu bem a atitude da presidenta Dilma reconhecendo a legitimidade democrática das manifestações (pacíficas). Foi comparada positivamente à atitude do primeiro-ministro Tayyip Erdogan, da Turquia, afirmando (este) que os manifestantes das praças Gezi e Taksim eram apenas “vândalos”(também os há no Brasil), “terroristas” e outros termos desqualificadores.

Neste campo houve uma lacuna importante na mídia internacional. Não basta comparar a atitude da nossa presidenta à do primeiro-ministro de Ankara. É necessário compará-la, acompanhada do anúncio de muitas outras autoridades brasileiras de que estarão dispostas a rever a questão das tarifas, às atitudes dominantes na Europa toda – em Berlim, Bruxelas, Frankfurt, Atenas, Madri, Lisboa, Dublin, etc. etc.

Nestes governos predomina a lógica – contra os milhares de manifestantes em todo continente – da “Austerität über alles und alle” – a austeridade acima de tudo e por cima de todos. Ou seja, se há um déficit de democracia em toda parte, de momento ele é maior por aqui do que por aí, no Brasil.
Apesar das balas de borracha da Polícia Militar de São Paulo. Mas o gás pimenta daqui é tão ruim quanto o daí.

Em tempo: assim como não dá para atribuir a torrente de manifestantes a conspirações, coincidentes, embora não conjuntas, de PSTUs, PCOs, PSOLs, PSDBs e DEMs (estes partidos não dispõem de tal poder de fogo junto à população em geral nem à população jovem), também não dá para atribuir a ocorrência dos vandalismos a infiltrações policiais ou outras.

Este é um fenômeno de escala mundial.

Neste ponto, o Brasil deve se curvar ante à Europa, onde o vandalismo em algumas manifestações é permanente e tornou-se organizado, com o concurso de movimentos como os “Chaoten” ou “Autonomen”. Quando eles vão intervir, parece até haver uma combinação com a polícia sobre hora, trajeto e lugar para o lançamento de coquetéis e bombas de gás lacrimogênio, depredação de vitrines, agências bancárias, etc. Contra as estações de metrô ninguém investe – elas ajudam, não prejudicam a fuga.
Nada como uma organização de primeiro mundo.

Publicado na Carta Maior.