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EUA: os antolhos

Kishore Mahbubani Publicado em 10.06.2013

A transformação social e intelectual profunda pela qual passa a Ásia certamente a empurrará, da liderança econômica, à liderança política global. Com a classe média asiática preparada para saltar dos 500 milhões de pessoas hoje, para 1,75 bilhão de seres humanos em 2020, já é impossível para os EUA continuar a negar por muito mais tempo, obstinadamente, as novas realidades da economia global.

Cingapura – É hora de começar a pensar o impensável: é bem possível que a era da dominação norte-americana em todos os negócios internacionais esteja chegando ao fim. O momento se aproxima, e é interessante saber como os EUA preparam-se para essa experiência difícil.

Ao longo das últimas décadas, a Ásia cresce e aparece, uma história bem mais complexa que algum simples rápido crescimento econômico. O que ali se vê é uma região que passa por um renascimento, onde as cabeças se vão reabrindo e geram-se novos modos de ver o mundo.

O movimento da Ásia na direção de reassumir o papel central na economia global vem com tal ímpeto que é virtualmente impossível contê-lo. Embora a transformação nem sempre se possa fazer sem tropeços e dificuldades, já não é possível não ver que estamos à entrada de um século da Ásia, e que a química mundial terá de mudar muito.

Políticos e intelectuais globais têm a responsabilidade de preparar as sociedades para as mudanças globais que se aproximam. Nos EUA, a grande maioria dos políticos e intelectuais só faz fugir, o mais rapidamente que possam, dessa responsabilidade.

Ano passado, no Fórum Econômico Mundial em Davos, dois senadores dos EUA, um deputado da Câmara de Deputados dos EUA e um vice-conselheiro de segurança nacional participaram de uma mesa de discussão (que ficou sob minha coordenação) sobre o futuro do poder dos EUA. Perguntados sobre que futuro anteviam para o poder dos EUA, todos, previsivelmente, responderam que os EUA continuariam como “a mais poderosa potência mundial”. E perguntados sobre se os EUA estariam preparados para a eventualidade de se tornarem a segunda economia do mundo, responderam com evasivas.

É reação compreensível: qualquer indício que aceite a simples possibilidade de os EUA se tornarem “número 2” equivale a suicídio político nos EUA. Políticos eleitos são obrigados, em diferentes graus, a corresponder aos sonhos dos que os elegem.

Os intelectuais, por sua vez, têm uma obrigação especial de pensar o que ninguém pensa e de dizer o que ninguém diz. No mínimo, devem considerar objetivamente todas as possibilidades, agradem ou não agradem, para preparar os cidadãos para o que inevitavelmente virá. A possibilidade de discutir ideias impopulares é traço chave de sociedades realmente democráticas.

Nos EUA, infelizmente, a maioria dos intelectuais esqueceu essa obrigação. Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores, sugeriu recentemente que “os EUA estariam entrando na segunda década de mais um século norte-americano.” E Clyde Prestowitz, presidente do Economic Strategy Institute, também ainda repete que “esse século ainda acabará por ser mais um século norte-americano.”

De fato, se essas previsões se confirmarem, será bom para todo o mundo. Uma economia norte-americana revigorada rejuvenesceria toda a economia global. Mas esse seria um desenvolvimento para o qual ninguém precisaria preparar-se.

Contudo, se o centro de gravidade do mundo deslocar-se para a Ásia, os norte-americanos se descobrirão terrivelmente mal preparados para a nova situação. A maioria dos norte-americanos dá sinais alarmantes de não saber, de fato, o quanto o resto do mundo, especialmente a Ásia, progrediu nas últimas décadas.

É preciso começar a informar os norte-americanos sobre uma verdade elementar, matemática: com 3% da população mundial, os EUA já não podem dominar o resto do mundo, pela suficiente razão de que os asiáticos, que são 60% da população mundial arrancaram-se da miséria em que viviam.

Mas a crença fundamentalista de que os EUA seriam o único país virtuoso, o único farol de luz em mundo escuro e instável, ainda modela o pensamento e a visão de mundo de muitos norte-americanos. O fracasso dos intelectuais norte-americanos, que não conseguiram abalar essa fé nacionalista fundamentalista – e não conseguiram modificar a atitude frequente entre os cidadãos norte-americanos, de arrogância baseada na ignorância – perpetua ali uma cultura de subserviência e de bajulação da chamada ‘opinião pública’.

Interessante é que, por mais que os norte-americanos só se interessem por notícias boas, o crescimento da Ásia não é, de modo algum, uma má notícia. Para entender, basta ver que os países asiáticos absolutamente não visam a dominar o ocidente; querem é copiar o ocidente. Querem construir suas próprias classes médias fortes e dinâmicas, para alcançar o longo período de paz, estabilidade e prosperidade que foi apanágio do ocidente, por tanto tempo.

A transformação social e intelectual profunda pela qual passa a Ásia certamente a empurrará, da liderança econômica, à liderança política global. A China, que em vários sentidos ainda é sociedade fechada, preservou a abertura no plano das ideias. Mas os EUA, que em vários sentidos são sociedade aberta, acabaram por converter-se em sociedade de pensamento conservador, fechado, de autorreferência. Com a classe média asiática preparada para saltar dos 500 milhões de pessoas hoje, para 1,75 bilhão de seres humanos em 2020, já é impossível para os EUA continuar a negar por muito mais tempo, obstinadamente, as novas realidades da economia global.

O mundo está posicionado para iniciar uma das mais dramáticas trocas de poder que jamais se viu na história da humanidade. Para se preparar para a transformação, os norte-americanos têm de abandonar as ideias já desgastadas e liberar o que até hoje foi considerado impensável. Esse é o grande desafio que os intelectuais públicos terão de enfrentar, mais dia menos dia, nos EUA.

Publicado em 24/5/2013, Kishore Mahbubani, Project Syndicate
http://www.project-syndicate.org/print/the-denial-of-american-decline-by-kishore-mahbubani

Traduzido pelo coletivo Vila Vudu