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A escolha chinesa

Luiz Augusto de Castro Neves Publicado em 08.04.2013

A China deve liderar o diálogo com a Coreia do Norte? Sim.

O recente agravamento das tensões na península coreana é um problema recorrente, que se tem acentuado ao longo dos últimos anos.

Não se pode avaliar o comportamento da República Democrática e Popular da Coreia, nome oficial da Coreia do Norte, sem ter em mente a própria divisão da península em dois países em decorrência do armistício de 1953. Os enfrentamentos da Guerra Fria levaram à divisão de vários países onde foi impossível acordar um modus vivendi entre entre o Ocidente e o mundo socialista.

Assim, tivemos a criação de duas Alemanhas, de dois Vietnãs e de duas Coreias. O fim da Guerra Fria permitiu a absorção da República Democrática Alemã, socialista, pela República Federal da Alemanha, vinculada ao Ocidente; o Vietnã foi reunificado sob a égide do Vietnã do Norte, após uma longa e sangrenta guerra que levou à retirada dos Estados Unidos do Vietnã do Sul.

Na península coreana, o movimento foi ao contrário: foi uma guerra, igualmente sangrenta, primeiro enfrentamento armado da Guerra Fria, que levou à divisão da península em duas Coreias. No mundo de hoje, regimes como o da Coreia do Norte são produtos de uma época superada e o seu isolamento reflete essa realidade.

O caso da Coreia do Norte tem complexidades adicionais porque o armistício de 1953 foi apenas um cessar-fogo, uma suspensão das hostilidades, e até hoje não foi possível celebrar um tratado de paz entre as duas Coreias. A Coreia do Norte ainda está tecnicamente em guerra com o seu vizinho do sul e seus aliados, entre os quais os EUA.

Existe, ademais, uma percepção crescente de que a própria sobrevivência do regime de Kim Jong-un depende de uma radicalização crescente, que inclui a obtenção de armas de destruição em massa, como a bomba atômica. Essa percepção pode explicar a agressividade de Kim Jong-un, particularmente após a última rodada de sanções adotadas pela ONU em decorrência do teste nuclear norte-coreano em 12 de fevereiro último.

O jovem Kim também aparenta utilizar a sua belicosidade em relação aos EUA e à Coreia do Sul como uma forma de se afirmar perante a idosa cúpula militar norte-coreana.

As bravatas da Coreia do Norte sempre partiram da premissa de que uma eventual retaliação por parte da Coreia do Sul e dos EUA contaria com a mais decidida oposição da China, aliado essencial para a sua própria sobrevivência.

Na última rodada de sanções da ONU, contudo, a China juntou-se à ampla maioria condenatória, o que deverá ter aumentado a sensação de isolamento por parte da liderança norte-coreana.

Outra diferença na crise atual é a atitude mais afirmativa por parte da Coreia do Sul. No episódio do afundamento do navio sul-coreano Yeonpyeong, o então presidente Lee Myung-bak não reagiu à altura e passou uma imagem de fraqueza perante a Coreia do Norte. A atual presidente, Park Geun-hye, já anunciou desafiadoramente que em caso de uma confrontação, "o norte sofrerá muito mais do que o sul".

Além disso, setores conservadores sul-coreanos já estão defendendo publicamente que a Coreia do Sul adquira armas nucleares para enfrentar as ameaças da Coreia do Norte.

A crise, portanto, adquire contornos mais graves, pelo menos no plano retórico. A liderança da Coreia do Norte, cada vez mais isolada na comunidade internacional, busca na radicalização o caminho de sua própria sobrevivência e de seu regime. O risco é que essa linguagem belicosa possa provocar algum incidente que leve a enfrentamentos armados de consequências imprevisíveis.

O único ator que tem condições para persuadir os norte-coreanos a baixar o tom e voltar à mesa de negociações é a China. Resta saber o que os chineses preferem: o caos decorrente do colapso do regime de Kim Jong-un ou uma península coreana nuclearmente armada.

LUIZ AUGUSTO DE CASTRO NEVES é presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais e ex-embaixador do Brasil na China, no Japão e na Coreia do Norte

Publicado em TENDÊNCIAS/DEBATES da Folha de S. Paulo, de 6/4/2013.