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Por que o Vaticano é notícia... e a República Popular da China não é?!

Gamal Nkrumah Publicado em 01.04.2013

A indicação de Xi Jinping foi recebida com eloquente silêncio pela imprensa-empresa árabe ou africana, apesar de a China ser o mais importante parceiro comercial de todo o continente africano. A ascensão de Yu Zhengsheng na hierarquia do Partido Comunista Chinês foi o último passo de uma transição política que só acontece uma vez em cada década.

Ambas as instituições, a Igreja Católica Romana e a República Popular da China lutam para encontrar novo espaço para elas no mundo contemporâneo. Pois o mais estranho é que, enquanto a seleção do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como novo Líder Supremo da Igreja Católica, que tem 1,2 bilhões de crentes em todo o mundo, manteve hipnotizada a imprensa-empresa internacional, a eleição do novo governo chinês não recebeu senão escassa cobertura.

Apesar dos escândalos financeiros e sexuais, vista do ponto de vista africano ou árabe, a Igreja Católica Romana é tema muito mais atraente que o Partido Comunista da China. Jihad Al-Khazen no diário panárabe, que tem sede em Londres, Al-Hayat, deu bom uso à obsessão dos jornais árabes com a seleção papal e a considerável influência no papa, numa região do mundo onde tem poucos seguidores:

“O cardeal argentino conservador adotou o nome de Papa Francisco e será o 266º líder supremo da Igreja de São Pedro. Sugiro que Al-Azhar Al-Sharif e seu líder, o Dr Ahmed Al-Tayeb, iniciem diálogo com o novo papa, para fazer avançar a cooperação contra o governo de Israel e suas políticas colonialistas racistas” – disse Al-Khazen. – “Espero ter sido bem claro: não me interessa qualquer tipo de aliança declarada ou secreta; quero saber de cooperação; e não contra os judeus, nem contra Israel, mas contra um governo de assassinos criminosos de guerra que deixaram Israel em posição de perigoso isolamento no mundo, como até o AIPAC, o lobby pró-Israel, disse há poucos dias em Washington, DC” – concluiu Jihad Al-Khazen.

A questão é por que os jornais árabes estão preocupados com o papa e não estão preocupados com os chineses comunistas? Alguém ouviu falar do Fórum de Cooperação Sino-Árabe? Quantos leitores árabes sabem que o califa otomano Ibn Affan enviou um embaixador à corte de Tang, em Chang’an?

Talvez não seja justo comparar o Vaticano e Pequim. A China e a Igreja Católica têm ‘populações’ comparáveis: 1,4 bilhão e 1,2 bilhão, respectivamente. A Igreja Católica é instituição religiosa influente, a China é a maior potência econômica global.

Não é critério para comparação, mas a questão permanece: por que o papa Francisco, não a nova recém eleita alta hierarquia do Partido Comunista Chinês, é o iluminado pelos holofotes da  imprensa-empresa internacional? Quantos leitores árabes conhecem o nome do novo presidente da China? Ou do novo secretário-geral do Partido Comunista Chinês?

Mais um enigma: por que todos os papas que apareceram no púlpito máximo da Igreja Romana foram ou magnificados ou demonizados a ponto de se tornarem irreconhecíveis, senão pela máscara que lhe tenha sido pespegada? O Vaticano, afinal, é estado microscópico, absolutamente sem qualquer importância econômica para os mundos africano ou árabe. Sua única significação é, talvez, a autoridade religiosa e moral.

O que talvez haja de comum em Pequim e no Vaticano é que, nos dois casos, a importância global advém do exemplo que são. Mas são exemplo do quê? O Partido Comunista Chinês, apesar do autoritarismo totalitário, arrancou o povo chinês da pobreza abjeta em que vivia, do atraso que castigava os mais pobres.

Aí está um sucesso digno de nota. Assim sendo, por que o exemplo que vem do Vaticano assumiria tal significação e seria tão influente, sem qualquer relação e fora de qualquer proporção com suas proezas econômicas?

Exposição “A Estrada da China Rumo à Renovação”

A história do partido governante na China e seu principal corpo político nacional consultivo, a Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, CPCPC [orig. Chinese People’s Political Consultative Conference (CPPCC)] é notável precisamente porque é caso exemplar das barreiras e antagonismo que dificultam a marcha do estado totalitário mais poderoso do mundo e segunda maior economia, depois dos EUA.

A CPCPC tem sido, ao longo de sua tumultuada história, vítima da própria ambiguidade ideológica e das preconcepções subconscientes de outros, inclusive das potências estrangeiras, quase sempre adversárias; de dissidentes chineses locais e de comunidades chinesas em outros países, quase sempre críticas, as quais, nas últimas décadas já têm papel cada vez mais proeminente nas questões chinesas domésticas, além de influenciar também na arena econômica.

A democracia multipartidária à ocidental e o regime de partido único na China são dois sistemas de governo incompatíveis e em perene disputa. Muitos países em desenvolvimento na África e no mundo árabe optaram por seguir os passos de seus velhos senhores coloniais, todos eles potências ocidentais. Isso posto, é interessante perceber que as preconcepções erradas sobre o sistema comunista chinês de governo vão  muito mais fundo que as caricaturas contemporâneas que se fazem do stalinismo soviético.

Seria erro pressupor que a CPCPC, fora de moda como talvez pareça, num mundo de democracias à moda ocidental, seria manifestação de algum monopólio sobre o estado do partido único em todas as esferas da vida da nação mais populosa do planeta. E os principais conselheiros políticos do governo chinês, que representam amplo espectro de figuras destacadas nos negócios, na academia, nas finanças e noutras esferas, encerraram seu encontro anual, dia 12 de março, jurando lealdade ao Partido Comunista Chinês; e declararam que rejeitam a democracia multipartidária à ocidental.

Esse corpo de conselheiros do Estado representa, por definição, a democracia chinesa em ação. O novo presidente da CPCPC, recentemente eleito e empossado, Yu Zhengsheng, disse, no encerramento da reunião de 2013 da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, que aquele corpo de conselheiros cerrava fileiras em torno dos novos líderes do Partido Comunista, tendo ao timão o novo timoneiro, Xi Jinping. Exatamente como, em contexto completamente diferente, os católicos reúnem-se em torno (e abaixo) do novo papa.

Na China comunista, a luta contra a miséria, o subdesenvolvimento, a fome e o analfabetismo é crucialmente importante. Mesmo assim, o fosso que separa os mais ricos e os mais pobres está aumentando na China contemporânea. Os líderes do Partido estão agudamente conscientes e bem pouco confortáveis ante o risco de deixarem essa desgraçada herança para seus filhos e netos. Além do mais, o partido que governa é o principal poder político e os postos do governo são entregues a membros do partido, selecionados a dedo.

“Temos de seguir mais estritamente a via socialista do desenvolvimento político com características chinesas, não imitar, em nenhum caso, os sistemas políticos ocidentais” – disse Yu à assembleia de mais de 2.000 conselheiros do Parlamento chinês e membros da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, CPCPC – que são vistos no ocidente como pseudo parlamento, que só oficializaria decisões tomadas no comando central do partido, sem qualquer influência ou poder político reais.

Yu, conhecido pelo pedigree comunista, foi indicado para presidir a Conferência Política Consultiva do Povo Chinês no dia 11 de março. A CPCPC, embora se suponha que não tenha poder algum, tornou-se hoje uma espécie de fórum popular no qual se apresentam e defendem-se questões populares candentes, como segurança alimentar, poluição e ocupações de terra.

A indicação de Yu foi recebida com eloquente silêncio pela imprensa-empresa árabe ou africana, apesar de a China ser o mais importante parceiro comercial de todo o continente africano. A ascensão de Yu na hierarquia do Partido Comunista Chinês foi o último passo de uma transição política que só acontece uma vez em cada década. E num sistema que, sim, gerou impressionantes resultados econômicos, mas que nem assim atrai a atenção de países árabes e africanos.

A ascensão de Yu foi o início de uma semana de alterações sistemáticas no governo chinês, já fortemente encaminhada desde as promoções no Congresso do Partido Comunista Chinês, em novembro passado. Yu era um dos sete líderes que ascenderam então ao círculo superior do comando do PCC, na mesma ocasião em que Xi foi nomeado secretário-geral. Yu, é o 4º na hierarquia do Partido, já posicionado para desempenhar papel ainda mais importante no futuro político do país.

Na China contemporânea, a economia vai-se tornando tão significativa quanto as questões políticas e militares. O presidente do Banco do Povo da China, Zhou Xiaochuan, foi nomeado para uma das vice-presidências da CPCPC. Essa semana, com muita pompa e cerimônia, o Congresso Nacional do Povo concluiu a transição nas principais posições políticas e aprovou os nomes indicados para os principais postos de governo: Xi Jinping sucede Hu Jintao como presidente da China; e Li Keqiang, o 2º na hierarquia do Partido, foi nomeado primeiro-ministro, e comandará o gabinete chinês.

A evidência de que o Papa Francisco foi objeto de atenção mundial e de que a nova liderança chinesa permanece praticamente desconhecida no ocidente não se explica apenas por alguma oposição de uma imprensa-empresa ocidental hostil. Na verdade, é como se nada tivesse mudado; a China continua a ser objeto de interesse: sempre a degradação do meio ambiente, de água, terra e ar chineses, resultado de décadas de crescimento econômico muito rápido.

Mas há também mudanças sociais e políticas sutis a serem observadas. A crescente classe média chinesa, empoderada pelas tecnologias das redes sociais, fala cada vez mais sobre as próprias demandas, quer mudanças e quer organizar manifestações. Não há qualquer ‘primavera árabe’ à vista na China, mas o novo presidente Xi encara uma nova China em gestação e sabe bem disso.

Em novembro do ano passado, inaugurou a exposição “Estrada da China Rumo à Renovação”[1] em Pequim, prometendo prosseguir rumo à meta de fazer “a grande renovação da nação chinesa”. (...)

Durante a visita que fez àquela exposição, Xi observou como o ocidente ocupara territórios da China, estabelecera concessões e demarcara esferas de influência, num passado não muito distante. Parou à frente da primeira versão chinesa do Manifesto Comunista, de documentos e fotos da fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921; da autobiografia de um dos fundadores do PCC, Li Dazhao; da primeira bandeira nacional da República Popular da China; e de fotografias da 3ª Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China, ocasião em que o legendário Deng Xiaoping lançou o movimento de modernização, que mudaria a história da China contemporânea (e do mundo).

Em importante discurso naquela ocasião, Xi citou um dos poemas de Mao Tse Tung, que lembra as dificuldades históricas que a China enfrentou em seus dias. “Mas o povo chinês jamais se rendeu, lutou sem parar e, afinal, assumiu o controle do próprio destino e iniciou o grande processo de construir nossa nação” – disse ele. – “A China mostrou, plenamente, o nosso grande espírito nacional.”

Mas, mesmo ali, Xi anotou as complexas pressões que desafiam a China contemporânea. “Essa é a estrada do socialismo com características chinesas”, concluiu, em frase que correu o mundo.

A perspectiva chinesa

Yu Zhengsheng disse coisa semelhante num simpósio do qual participaram os presidentes dos oito partidos não comunistas chineses[2] e da Federação de Indústria e Comércio de Toda a China, além de personalidades sem filiação partidária. Yu também destacou sua convicção de que o trabalho da China contemporânea é promover e construir um socialismo específico, com características chinesas. A questão realmente interessante é por que, num determinado momento, todos esses altos dirigentes comunistas puseram-se a falar tanto dessas “características chinesas”.

A CPCPC inclui representações de compatriotas de Hong Kong, Macao e Taiwan, de chineses retornados e também alguns convidados internacionais. Yu (...) mencionou a “cooperação multiparditária”. Manifestou esperança de que os partidos não comunistas conseguissem aprimorar seus sistemas ideológicos e organizacionais e o estilo de trabalho, para que também ali se produzissem profundas mudanças, quando da eleição de novos dirigentes em seus respectivos congressos nacionais, para gerar efetiva cooperação multipartidária. Presumia, provavelmente, que todos acompanharão as mudanças que se veem entre os comunistas chineses. À primeira vista, talvez pareça que os atuais membros da CPCPC teriam invertido os mandamentos do maoismo. A CPCPC, tecnicamente ou teoricamente, é constituída de representantes do PCC e dos partidos não comunistas, de pessoas sem filiação partidária e de representantes da sociedade civil e das chamadas organizações populares, das minorias étnicas e de vários estratos sociais.

O discurso sobre o tema “Manter-se firme e desenvolver o socialismo com características chinesas, e estudar, promover e implementar o espírito do 18º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês” foi feito por Xi, numa reunião de trabalho da qual participaram todos os membros da Comissão Política do Comitê Central do PCC.

Seria erro supor que a atitude dos mais altos dirigentes no 18º Congresso Nacional do PCC não seria influenciada por princípios longamente elaborados. Embora se pressinta uma crescente crise ambiental, um terço dos delegados rejeitaram uma importante medida antipoluição. Os analistas chineses antecipam agora grandes reformas econômicas, a partir do novo governo em Pequim, depois que o premiê Li Keqiang declarou que mais setores da economia terão de ser entregues a empresas privadas. “A China é uma grande nação, plena de criatividade” – disse Xi Jingping. – “Criamos essa cultura chinesa e saberemos ampliar nossa rota rumo ao desenvolvimento chinês.”

Uma nova geração de dirigentes chineses parecem comprometidos com o capitalismo, mesmo sem esquecer o comunismo. O mundo terá de prestar máxima atenção, agora que os novos dirigentes põem a China numa trilha chamada “o sonho chinês”.

Devem-se perdoar os que estudam mitos históricos, se lhes ocorre a ideia de que a China veio ao mundo exclusivamente para demonstrar que Mao tinha razão e que o ocidente sempre esteve errado. Com mitos ou sem, é difícil escapar à conclusão de que, no que tenha a ver com os que governam na África e no mundo árabe, não é porque a China não dê grande atenção às liberdades civis, que Francisco I atrai todas as atenções da imprensa-empresa. Se a Igreja Católica, não a China, atrai hoje todos os holofotes midiáticos, a causa está em outro lugar; o motivo é outro.

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[1] Sobre essa exposição – de quadros históricos, mapas, objetos e vídeos da história da China desde meados do séc.19, inaugurada dia 29/11/2012 no Museu Nacional da China, em Pequim –, ver 3/12/2012, “Celebrating China's Road Toward Renewal” [Comemorando a Estrada da China Rumo à Renovação], Beijing Review, com foto:  Xi Jinping (centro), secretário-geral do PCC; Li Keqiang (3º dir.), Zhang Dejiang (3º esq.), Yu Zhengsheng (2º dir.), Liu Yunshan (2º esq.), Wang Qishan (1º dir.) e Zhang Gaoli (1º esq.) [NTs].

[2] Sobre os partidos não comunistas chineses, ver 16/3/2012, “Partidos não comunistas na China: há OITO!”, em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/03/partidos-nao-comunistas-na-china-ha-oito.html [NTs].

Publicado em 20/3/2013, Al-Ahram Weekly, Cairo

http://weekly.ahram.org.eg/News/1954/20/Pope-and-People%E2%80%99s-Republic.aspx

Tradução do coletivo Vila Vudu