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Fórum Social Mundial quer resgatar solidariedade contra austeridade

Cezar Xavier Publicado em 28.03.2013

Na melhor tradição internacionaiista de esquerda, europeus em crise, árabes em processo de abertura política e emergentes no avanço de suas politicas sociais, se encontram no Fórum Social Mundial para viver a emoção da solidariedade entre povos.

Na bela Túnis, cidade turística no norte da África, onde a Primavera Árabe começou, cerca de 40 mil manifestantes de todo o mundo voltaram às ruas. Passando pelos mesmos locais onde o exército tunisiano tentou reprimir a avalanche de indignação contra a ditadura do corrupto Zine el-Abidine Ben Ali, a tradicional marcha de abertura do Fórum Social Mundial aproximou, definitivamente, os países árabes do resto do mundo. Uma festa de confraternização que sempre tem muito significado para os locais.
As impressões dos recentes movimentos sociais locais foram de espanto com o evento. O Fórum Social Mundial injeta novo ânimo naqueles que enfrentaram o mundo secreto e hermético dos milionários árabes que comandam com mão de ferro os países do norte da África. Ali naquela marcha e durante todo o Fórum, se encontrarão representantes do Magreb/Mashrek. Desde setores políticos antagónicos locais até forças opositoras do Egito com abundante participação de diversas organizações palestinas. Aliás, a Palestina é o tema simbólico desta edição do Fórum e constituirá o eixo da convocação da marcha de encerramento do FSM no próximo sábado, 30 de março.
Além desses povos parentes, foi possível ver as bandeiras de Marcha Mundial de Mulheres, Via Campesina, diferentes redes mundiais e regionais, Anistia Internacional, ATTAC, o Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, os movimentos negros do Brasil. Uma visibilidade que enche os olhos dos tunisianos, tão pouco familiarizados com mobilizações sociais. Mesmo os militantes locais não imaginavam que certas lutas existiam no mundo ocidental.
A presença da Associação dos Tunisinos Vítimas da Migração, encabeçada por várias mulheres vestidas de luto – mães dos emigrantes desaparecidos especialmente na Itália – contribuiu com uma nota de particular emoção ao cortejo. São mais de 800 os jovens tunisinos mortos ou desaparecidos na tentativa de emigrar clandestinamente do país nos últimos dois anos. Tunísia é separada da Itália apenas pelo mar Mediterrâneo, mantendo uma identidade com essa parte da Europa. Mais arejado politicamente em relação a outros países árabes, a antiga colônia do Império Romano, com suas belas ruínas de Cartago, tinha tudo para ser o primeiro país da Primavera Árabe.
Ainda assim, durante a marcha foi possível observar tensão latente entre manifestantes da oposição local de esquerda e um grupo minoritário ligado a Ennahda – Partido do Renascimento – no Governo da Tunísia. É tudo muito recente... mas irreversível. É difícil experimentar ares de Fórum Social Mundial e retroceder. Nada está fechado para a Tunísia! O Fórum Social Mundial ocorrendo ali é um recado de solidariedade e vigor aos movimentos de resistência dos demais países da Privamera Árabe.
O Fórum Social Mundial abriu as suas atividades autogeridas na quarta-feira (27) na Universidade Manar. Houve a preocupação de estimular a presença massiva de tunisianos nas atividades, principalmente com a realização das atividades em locais públicos favoritos daquele povo. Até o dia da abertura haviam-se inscrito 30 mil participantes vindos de mais de 120 países. A diferença de outras convocatórias anteriores, a credencial concedida pelo FSM não será uma condição para entrar nas atividades previstas no centro universitário da capital”.
Para além do contexto local de abertura política, dúvidas sobre os rumos do país e esperança, o Fórum também dialoga com os povos mergulhados na crise econômica mundial. A confraternização, os encontros, o debate e a festa que permeia o Fórum trazem um clima de otimismo e solidariedade com os movimentos em luta, principalmente nos países da Europa. Muitas lideranças sociais que poderiam estar em Túnis estão engajados na luta social de seus países, que encontram-se no olho de um furação de crise capitalista. Chipre e sua derrocada bancária fica bem ao lado da Tunísia, no meio do mar, entre a África e a Europa. Todos falam disso e observam atentos que consequências terão as medidas tomadas pela Europa naquele pequeno país. Dali pode sair um modelo de reação à crise.
Poucos entendem que, para além dos chamados resultados concretos, como agendas de mobilizações, o Fórum Social Mundial é um encontro emotivo. Reunir num único lugar gente que jamais se encontraria em circunstâncias corriqueiras para descobrirem que têm muito mais em comum, do que a mídia corporativa quer que percebam. Esse encontro carregado de emoção que faz a força e a singularidade do Fórum Social Mundial. Por isso, os valores que mais têm significado para seus participantes são a solidariedade, alegria, comoção, reconhecimento, compreensão, combatividade. É disso que é feito do FSM.
É possível respirar o sentimento de solidariedade entre os povos e movimentos sociais gerada pela atual crise na Europa. Fala-se muito da ideia generalizada de que a austeridade pregada pela Troika, os ditadores europeus que comandam o capital financeiro, está fragilizando a solidariedade social na Europa. Há muitas problemáticas atravessando a Universidade Manar nos próximos dias. Países de maioria muçulmana que decidem seus rumos em direção a algum tipo de democracia. Países europeus que decidem que estratégia adotar para que seus governantes efetivamente regulem o sistema bancário e o capital financeiro europeu. Países emergentes do Sul que levam sua experiência de solidariedade com os excluídos como principal ferramenta de enfrentamento às crises capitalistas. Experiências a compartilhar que podem ser fortes geradoras de mobilizações e de solidariedades internacionais.