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Egito: notas sobre a arte da revolução

Rasha Sadek Publicado em 04.03.2013

Os protestos continuaram em momentos isolados, ao longo dos dois anos, desde a Revolução de 25 de janeiro, o que sugere que, no Egito, as mudanças ainda não são suficientes

Traduzido por Coletivo de tradutores Vila Vudu

TAHRIR

A praça Tahrir, no Cairo, foi o lar icônico da Revolução desde que irrompeu, dia 25/1/2011. Durante os 18 dias de revolta, antes da deposição do ex-presidente Hosni Mubarak, Tahrir deu voz às demandas de todos os grupos da opinião pública revolucionária, que pediam pão, liberdade, justiça social e o fim de um regime que se arrastava por 30 anos, já decadente. Gente de todo o espectro social, político e econômico acorreu ao epicentro da cidade do Cairo, às vezes, aos milhões. Estavam decididos. Eram unidos.

Durante os últimos dois anos, Tahrir viveu dias de celebração e dias de luto. Muitos foram mortos ali pelas forças de segurança de Mubarak. Montaram-se hospitais de campanha na praça e em torno da praça para tratar manifestantes contra os quais se lançavam bombas lacrimogêneas, canhões de água e tiros de munição real, ou feridos pela polícia ou por soldados do exército. Os funerais dos mártires da Revolução – os mortos nos sangrentos eventos da Batalha do Camelo, nos confrontos na rua Mohamed Mahmoud e diante do prédio do Gabinete – também várias vezes cruzaram a praça. Tahrir foi o centro de uma nação tomada de euforia quando Mubarak foi afinal expulso da presidência, dia 11/2/2011.

Durante 18 dias, até que Mubarak afinal partisse, Tahrir mostrou uma face do Egito que o mundo jamais vira. Durante o dia, a multidão enfrentava os ataques das forças de segurança; à noite, as pessoas sentavam-se em círculos, discutindo o futuro e as mudanças que a revolução teria de trazer. Cozinhavam, lavavam as panelas e tomavam banho na praça. Cantavam, às vezes a capella, às vezes acompanhando um violão, ou assistiam a concertos improvisados de Rami Essam, que ficou conhecido como “o cantor da Revolução”. Recitavam poemas em que denunciavam a injustiça e a corrupção do governo Mubarak, o assassinato de companheiros, ou que pintavam um futuro risonho, otimista, do amanhã, já sem Mubarak.

A Praça Tahrir realmente conquistou a imaginação do mundo, ainda mais depois que os revolucionários, em gesto civilizado, limparam e repintaram a praça antes de, afinal, partirem, dia 12/2/ 2011. Contudo, poucos meses depois, já surgiam fissuras entre os revolucionários. Começaram as divisões políticas, e Tahrir nunca mais ecoou demandas unificadas. Passou a manifestar, isso sim, o grito de uma nação dividida entre, de um lado, um governo de religiosos, da Fraternidade Muçulmana, dos salafistas e de outras forças islamistas e de militares do Conselho Supremo das Forças Armadas [orig. Supreme Council of the Armed Forces (SCAF), que estava encarregado da fase de transição, mas que, de fato, era a continuação de 60 anos de governo militar; e, de outro lado, um governo civil. E todos, sempre, sob ameaças de que o país despencava num abismo econômico. Cada um desses dois grandes blocos organizou seus comícios e “marchas de milhões” na Praça Tahrir Square, os dois lados decididos a mostrar que era o mais forte.

A “Sexta-feira da Reunião”, dia 29/7/2011 foi organizada para unir todas as forças, sob plataforma única de demandas. Mas, naquele dia, desde cedo, centenas de milhares de afiliados das forças islamistas tomaram a praça, cercando-a e impedindo a entrada dos demais grupos. Ergueram bandeiras negras e chamaram de ateus os que falavam de democracia e os liberais em geral. O dia terminou com a mídia falando de uma “Sexta-feira de Kandahar” – cidade afegã governadas por islamistas conservadores, e para onde convergiam, atraídos como por um imã, organizações como a Al-Qaeda e os Talibã. Dia 2/11/2011, aconteceu o segundo ato organizado pelos islamistas, sob o mote de “6ª-feira de aplicar a Xaria”, que outros chamaram de “Kandahar II”.

No primeiro aniversário da Revolução, a Praça Tahrir viu chegar mais marchas organizadas por forças revolucionárias. Repetiram os cantos da Revolução, a qual ainda não atendera nenhuma das demandas revolucionárias. Do outro lado da praça, forças islamistas celebravam uma recente vitória no número de eleitos para o Parlamento. E, organizados pelos militares do SCAF, outros manifestantes exigiam, também na Praça Tahrir, a antecipação das eleições presidenciais, com muitos ainda sem terem definido o que queriam que viesse antes, as eleições, ou a redação de uma nova Constituição.

Quando o candidato da Fraternidade Muçulmana, Mohamed Morsi, foi anunciado presidente, dia 24/6/2012, com pequena margem de 49% dos votos, os islamistas acorreram à Praça Tahrir para celebrar. O próprio Morsi lá esteve, foi empossado à vista do povo e anunciou que “os objetivos da Revolução foram, afinal, conquistados.” As forças revolucionárias, liberais em geral e outras, deixaram-se ficar à margem da cena, chorando o que chamavam de “a morte da Revolução”.

Dia 22/11/2012, a Praça Tahrir voltou a brilhar. As pessoas outra vez convergiram para o ponto onde a Revolução nascera, para rejeitar furiosamente a declaração constitucional, assinada por Morsi, que lhe dava poderes ditatoriais e o punha acima da lei. A declaração também blindava a Assembleia Constituinte, super recheada de islamistas, encarregada de redigir a nova Constituição, e o Conselho da Shura, contra qualquer processo judicial que contestasse sua legitimidade; e expulsava ilegalmente o Procurador-geral do país, Abdel-Meguid Mahmoud; para seu lugar foi nomeado Tallat Abdallah, da Fraternidade Muçulmana.

Organizou-se imediatamente um sit-in, ou acampamento: montaram-se cerca de 250 tendas, na praça e em torno da praça. Mais de 30 partidos políticos, além de grupos civis e movimentos revolucionários e sindicatos de todo os governorados egípcios integraram-se à manifestação. Havia ali até indivíduos e grupos sem qualquer filiação política. Eram pelo menos 1.500 manifestantes acampados na Praça Tahrir; o número dobrou depois que se intensificaram os ataques das forças de segurança; e ultrapassou 1 milhão de manifestantes em ocasiões especiais, como, dia 30/11, na “Sexta-feira do Sonho do Mártir.”

Os protestos cresceram quando Morsi deu à Assembleia Constituinte – da qual já se haviam retirado representantes da sociedade civil e da mesquita de Al-Azhar, em sinal de protesto contra a dominação pelos islamistas – prazo de dois meses para acabar de redigir a nova Constituição, para dar tempo de os partidos renitentes reconsiderarem e voltarem à Assembleia. Mas passadas apenas 48 horas, a Assembleia Constituinte deu por concluídos os seus trabalhos e exibiu projeto de Constituição, de 236 artigos, pondo fim a qualquer esperança de outras forças, além dos islamistas, participassem do trabalho de redigir a nova Constituição do Egito. Morsi, imediatamente, convocou um referendo, para dia 15/12, ignorando todas as demandas de grupos não islâmicos, que contavam com adiar o referendo até que fosse possível construir algum consenso popular.

Esse clima político foi o combustível que voltou a energizar os protestos em Tahrir. Dessa vez, havia unidade nas demandas: ou Morsi revogava a declaração constitucional e adiava o referendo, ou “Fora Morsi”. Mas nada aconteceu. O referendo foi realizado na data prevista, e a Constituição foi aprovada com 63,8% de votos a favor.

Hoje, os manifestantes continuam na Praça. E Morsi continua de costas viradas para eles.

O PALÁCIO PRESIDENCIAL AL-ITTIHADIYA

Localizado na rua Al-Mirghani, no elegante bairro de Heliópolis, o palácio presidencial Al-Ittihadiya não havia sido local de protestos até recentemente (na noite em que Mubarak foi deposto, houve celebrações frente ao palácio), quando já haviam fracassado todas as demais tentativas de chamar a atenção do presidente.

A controversa declaração constitucional que Morsi assinou dia 22/11 incomodou muita gente, fora dos círculos islamistas. Houve uma primeira manifestação, exigindo que Morsi anulasse o decreto. Duas semanas depois, nada mudara. Estava acabando o tempo, sobretudo depois que Morsi marcou para 15/12 o referendo para aprovar a nova Constituição.

Dia 4/11, várias marchas, de vários pontos do Cairo, dirigiram-se para o palácio presidencial. Esperavam-se poucas centenas de manifestantes. Mas às 20h, quando todas as marchas já haviam chegado, a cena era impressionante. Operadores de celulares informaram que registraram mais de 700 mil chamadas da região próxima ao palácio. Homens, mulheres, jovens e velhos, ricos, pobres, maltrapilhos, de todo o espectro social e econômica estavam à frente de Al-Ittihadiya. Já não cantavam nem exigiam a revogação da declaração constitucional: pediam o fim do governo Morsi e da Fraternidade Muçulmana.

As forças de segurança, a polícia antitumultos, a Guarda Presidencial e funcionários do Ministério do Interior estavam no palácio. O palácio estava muito fortemente protegido, com rolos de arame farpado que mantinham os manifestantes à distância. Correndo grave risco, jovens manifestantes puseram-se a empurrar os rolos de arame farpado; as forças de segurança responderam com bombas de gás lacrimogêneo. Por um momento, o país prendeu a respiração, vendo delinear-se ali um cenário dos mais desastrosos. A multidão recuou, procurando abrigo nas ruelas estreitas em volta de Al-Mirghani. Na cabeça de todos havia medo e morte.

Aos poucos, com a fumaça das bombas já dispersa no ar, ouviram-se gritos de que já era possível voltar à frente do palácio. Para surpresa geral, as forças de segurança haviam sumido, deixando o palácio presidencial sem qualquer proteção. A multidão festejou, aos gritos, a notícia de que Morsi, aparentemente, escapulira pela porta dos fundos, realmente assustado ante a ameaça daquela enorme multidão. Em minutos, os manifestantes formaram uma corrente humana em torno do palácio Al-Ittihadiya. Quisessem, poderiam ter invadido e ocupado o palácio, mas decidiram não fazê-lo. Em vez disso, grafitaram as paredes externas com imagens dos mártires e slogans contra Morsi e seu grupo.

Enquanto parte dos manifestantes anunciavam que permaneceriam acampados em frente ao palácio até que Morsi respondesse suas exigências, a Frente de Salvação Nacional, de oposição, deu um ultimato ao presidente: 48 horas para anular a declaração constitucional.

No dia seguinte, às 3h da tarde, com dezenas manifestantes pacificamente acampados à frente do palácio, as milícias islamistas atacaram. Rasgaram as tendas e espancaram os manifestantes, inclusive mulheres. No início da noite, o número de islamista aumentara; e também aumentara o número de manifestantes. As milícias portavam facas, porretes, pistolas e munição real e gás lacrimogêneo. Os manifestantes portavam pedras. As Forças da Segurança Central foram chamadas, mas não intervieram. Lá ficaram, assistindo a uma batalha sangrenta entre os dois grupos, que continuou até as primeiras horas do dia seguinte. Houve oito mortos e mais de 750 feridos.

Dia 7/12, os manifestantes voltaram, dessa vez em maior número. Outra vez, grafitaram as paredes externas do palácio – que haviam sido pintadas pelos islamistas, não por funcionários municipais –, com slogans contra Morsi. E outra vez acamparam frente ao palácio, erguendo cartazes que diziam “fora a Fraternidade Muçulmana” e “fora o supremo líder”. Esse acampamento lá está, frente ao palácio presidencial, até hoje.

O JUDICIÁRIO

O prédio da Suprema Corte Constitucional [orig. Supreme Constitutional Court (SCC)] dá frente para a Corniche Maadi. Como a mais alta autoridade judicial no Egito, a SCC é respeitada em todo o mundo, mas é vista pelos islamistas egípcios como instituição que se mantém fiel a Mubarak. A SCC deu posse a Morsi na presidência dia 30/6/2012, mas, para grande desgosto dos islamistas, logo no mês seguinte ordenou que o Parlamento, no qual os islamistas são maioria, fosse desconstituído. Desde então, os islamistas vivem às turras com o SCC. Começou na noite de 1º/12, quando Morsi marcou o referendo da nova Constituição.

Durante a manifestação que os islamistas chamam de “protesto de um milhão” na praça  Al-Nahda em Gizé – espaço onde não cabem nem 50 mil pessoas, segundo o governador de Gizé – e que não passou de manifestação de força, sob o pretexto de apoio ao presidente e às suas decisões, líderes islamistas convocaram seus seguidores para uma manifestação em frente ao prédio da SCC, dia seguinte, antes de a Corte dar seu veredicto em dois processos muito discutidos: um contestava a constitucionalidade da lei sobre eleições para o Conselho da Shura – dominado pelos islamistas; o outro contestava a  legitimidade da Assembleia Constituinte que, dia 29/11, havia atropeladamente aprovado o projeto de nova Constituição (depois que forças civis, cristãs e da mesquita Al-Azhar desligaram-se da Assembleia , em protesto contra a dominação pelos islamistas.

Dezenas de islamistas partiram imediatamente para o prédio da SCC; mas, na manhã seguinte, na manhã de 2/12, já eram milhares. Apesar da presença de forças policiais, os juízes da SCC nem conseguiram entrar no prédio, cujas entradas foram bloqueadas pelos islamistas, alguns dos quais escalaram as cercas externas e pularam para dentro do pátio de entrada. A SCC descreveu aquele domingo como “o pior dia de toda a história do judiciário”. Pela primeira vez na história, a Corte Suprema egípcia decidiu suspender seus trabalhos por tempo indefinido; disseram que “não voltaremos a trabalhar até que os juízes possam julgar sem pressões psicológicas ou materiais”.

Na calçada, em frente ao prédio, os islamistas celebraram sua “vitória”, com cantos e slogans em que atacavam os juízes e as forças de oposição. Um desses cantos dizia “Morsi nos deu a pista. Vamos levar p’rá vocês, num caixão”. Exibindo fotos do presidente, descreviam-se como “os verdadeiros revolucionários” e Morsi, seu legítimo representante. Para os islamistas, a Corte Suprema deveria ter encerrado os dois processos imediatamente depois de Morsi assinar o decreto constitucional que tornava imunes a qualquer contestação judicial o Conselho da Shura e a Assembleia Constituinte.

Os juízes entraram em greve, seguindo o exemplo de outros juízes e procuradores que pararam de trabalhar em protesto contra o decreto de Morsi que, para eles, “mina a autoridade judicial”. O Clube dos Juízes, sindicato com 9.500 membros, solidarizou-se com os demais juízes e anunciou que não supervisionaria o referendo constitucional. Os círculos judiciais já enfrentavam forte turbulência nesse front, sobretudo depois que forças islamistas organizaram manifestações em frente Supremo Tribunal Judicial, exigindo a demissão do Procurador-geral Abdel-Meguid Mahmoud, indicado por Mubarak, o qual, afinal, foi demitido pela declaração de 22/11. Comentando as manifestações contra a Corte Suprema, o pesquisador político Amr Hamzawy disse que “o presidente e seu grupo estão arrastando o Egito para um período par excellence de obscurantismo (...) Tomou uma decisão ditatorial de fazer um referendo para legalizar um projeto ilegal de constituição que divide a sociedade. E, agora, pôs o Judiciário sob sítio, para aterrorizá-lo.”

Apesar de os islamistas terem, em boa parte, conseguido o que queriam, nem por isso desocuparam a área que cerca o prédio da Corte Suprema. Havia barracas em torno do cordão de segurança instalado pela Polícia, e algumas centenas de islamistas permaneceram lá, para garantir que a Corte Suprema não voltasse a reunir-se. Depois de 24 dias de manifestações, o resultado do referendo sobre a Constituição foi afinal anunciado: 63,8% dos votantes votaram “sim”. Só depois disso, e depois de terem comemorado o resultado in situ, os islamistas afinal levantaram acampamento.

A última vez que os juízes egípcios declararam-se em greve geral foi durante a Revolução de 1919, quando se uniram ao levante popular contra o governo colonial britânico.

A MÍDIA

Dia 6/12/2012, centenas de islamistas fizeram uma manifestação na Media Production City [aprox. “Cidade de Produção”], localizada nos arredores da cidade do Cairo. Foram 17 grupos fundamentalistas comandados pelo movimento Hazemoun, de seguidores do salafista Hazem Salah Abu Ismail, derrotado nas eleições presidenciais de março. Os islamistas declararam que a manifestação era “protesto contra a corrupção da mídia atéia”, e exigiram “o expurgo dos veículos hostis, sem razão compreensível, aos islamistas”, nas palavras do próprio Abu Ismail. Os manifestantes anunciaram que não deixariam o local até que a nova Constituição estivesse confirmada pelo referendo.

As manhãs dos islamistas ali reunidos começavam com rezas e citações do Corão; e as tardes eram dedicadas a cantos contra a mídia, não raras vezes insultantes. Figuras de destaque a imprensa egípcia como Ibrahim Eissa, Lamis Al-Hadidi e Amr Adib receberam a parte mais substanciosa das ameaças e insultos. E à noite os manifestantes matavam ovelhas e camelos; um dos camelos mortos fora usado num filme de publicidade e havia queixa de que teria sido roubado de dentro da Cidade de Produção.

A manifestação e acampamento dos islamistas provocou fúria entre jornalistas e figuras da mídia, que os denunciaram como “tentativa de intimidar a mídia e fazê-la calar”. Denunciaram-nos também como ameaça direta à segurança de jornalistas, no trajeto de chegar e sair do trabalho. Os islamistas insistiram que a manifestação seria pacífica, apesar de o carro do diretor Khaled Youssef ter sido apedrejado, no percurso para chegar à Cidade de Produção.

Poucos dias depois de iniciada a manifestação dos islamistas na Cidade de Produção, um dos canais por satélite que transmitem de lá recebeu um telefonema – retransmitido ao vivo – de um líder islamista que participava da manifestação. A voz ameaçava que as forças islamistas “atacarão a Cidade de Produção, se canais privados continuarem a divulgar ideias enviesadas contra os islamistas”. Dia seguinte, Gamal Saber, organizador do movimento Hazemoun e porta-voz dos manifestantes disse ao jornal Al-Masry Al-Youm que “não passou de ameaça. Não planejamos qualquer ataque. Só queremos encostar a espada do medo e do terror no pescoço dos corruptos da mídia, essa gente que escreve contra o presidente Morsi e os islamistas.”

Dia 14/12, e contra os planos iniciais, os islamistas decidiram pôr fim à manifestação e ao acampamento, para votar, dia seguinte, a favor do projeto de Constituição. Por ironia, o dia em que os islamistas acamparam à entrada da Cidade de Produção de Mídia foi o mesmo dia em que Essam Al-Amir, presidente da televisão estatal, renunciava ao posto, em protesto contra “a islamização da mídia”. Um dia antes da renúncia, houvera confrontos violentos no palácio presidencial, depois que islamistas atacaram manifestantes pacíficos. Al-Amir disse que “a televisão estatal apresentou um lado da história, claramente enviesada a favor dos islamistas, o que não surpreende ninguém, dado que o ministro da Informação, Salah Abdel-Maksoud, é membro da Fraternidade Muçulmana.”

CIDADE DE MAHALLA

Mahalla, localizada no governadorato de Gharbiya, é considerada um dos núcleos da revolta, hoje, no Egito. Cidade industrial, com vasta população de trabalhadores nas indústrias têxteis, Mahalla teve e tem papel de destaque no Egito pré e pós-revolucionário.

Dia 27/11/2012, 5.000 trabalhadores da empresa de fiação e tecelagem Misr Spinning & Weaving Company marcharam até a Praça Shon em Mahalla em protesto contra “a declaração ditatorial de Morsi do dia 22 de novembro, seguida, três dias depois, por seu decreto de intervenção no trabalho” – disse Sayed Habib, ativista da defesa de direitos trabalhistas do Centro Sindical dos Trabalhadores em Mahalla. “O decreto relativo ao trabalho favorece a hegemonia da Fraternidade, acima dos sindicatos. Esse é o objetivo da ordem para que sindicalistas com idade superior a 60 anos sejam demitidos da Federação dos Sindicatos, para serem substituídos por novos membros indicados.”

Esse era o contexto sob o qual os trabalhadores de Mahalla marcharam para a Praça Shon, cantando “Morsi, espere! Mahalla cavará sua sepultura” e “Fora o governo do supremo líder”. Foram recebidos por apoiadores dos islamistas armados com coquetéis molotov, tiros e pedradas.

Os trabalhadores de Mahalla revidaram, e houve batalha feroz, com coquetéis molotov jogados pelos islamistas e jogados de volta, sobre os islamistas, pelos operários. Nem a chuva de granadas de gás lacrimogêneo, colaboração das forças de segurança que acorreram ao local, conseguiu dispersar os grupos em luta. A batalha durou toda a noite e fez, pelo menos, 400 feridos.

Dia 7/12, algumas poucas centenas de operários sindicalizados de Mahalla marcharam até o prédio do conselho municipal e declararam “a independência de Mahalla”. A “República Independente da Grande Mahalla” foi uma reação aos sangrentos confrontos do dia 5/12 no palácio presidencial Al-Ittihadiya. A independência de Mahalla, que não é vista como movimento secessionista, foi gesto que manifestou oposição ao regime de Morsi e da Fraternidade Muçulmana.

Dois dias depois, sindicatos e moradores de Mahalla reuniram-se na Praça Shon para celebrar seu novo estado autônomo e denunciar o regime reinante. Cantavam “Levante a cabeça! Você é de Mahalla!” e “Fora o governo da Fraternidade Muçulmana”. A praça vibrava. A mensagem, clara, era que “não nos deixaremos aterrorizar pelas milícias da Fraternidade”. Em discurso à multidão, Fathi Abdel-Hamid da Federação Independente de Aposentados, disse que “cá estamos para declarara que não toleraremos governantes que nos sangrem para manter-se no poder”. George Ishak, ex-líder do Movimento Kifaya, acrescentou que “a Fraternidade Muçulmana está arrastando o Egito na direção de converter-se em estado fascista. Não toleraremos nenhum fascismo.” Pelas paredes da cidade surgiram grafittis, desenhados por furiosos moradores da cidade, nos quais se lia “Mahalla, território livre. Aqui a Fraternidade não manda.”

Esse ato nominal de independência nasceu em cidade que tem longa tradição de dissidência. Mahalla é considerada cidade na qual predomina uma cultura já histórica de revolta contra a injustiça e a corrupção. Em dezembro de 2006 e em abril de 2008, dezenas de milhares de operários do setor têxtil conduziram uma intifada contra os baixos salários e as terríveis condições em que viviam. A intifada alastrou-se, com mais de 650 manifestações e acampadas ao longo de 2007, dos quais participaram quase 200 mil trabalhadores de praticamente todos os setores da economia da região. É opinião amplamente difundida e aceita no Egito, que as rebeliões de Mahalla estão na raiz da Revolução de 25 de janeiro, consideradas precursoras.

BAIRRO DE ABBASIYA

O bairro de Abbasiya, no Cairo, foi cenário de vários eventos graves. Em novembro de 2011, aconteceram em Abbasiya as manifestações pró-SCAF, promovidas pelo jornalista e âncora de noticiários de televisão Tawfik Okasha, do canal Faraeen de TV por satélite. Um mês depois, durante outra manifestação pró-SCAF, os altofalantes tocavam música e grupos dançavam em círculo, enquanto, no mesmo momento, em outro ponto do bairro, na rua Qasr Al-Aini, aconteciam confrontos mortais entre manifestantes e forças do exército.

Dia 27/4/2012, Abbasiya encaminhava-se para mais um confronto sangrento, o qual, contudo, só aconteceria uma semana depois. Apoiadores de Hazem Salah Abu Ismail, islamista e candidato à presidência, e outras forças islamistas e de esquerda haviam-se reunido aos milhares em Abbasiya, próximos de onde está localizado o Ministério da Defesa, sempre pesadamente fortificado, para protestar contra o fim da candidatura de Abu Ismail à presidência. Exigiam a dissolução da Comissão para Eleições Presidenciais (PEC); e a anulação do artigo 28 da declaração constitucional provisória, do SCAF, que proibira qualquer tipo de recurso judicial contra decisões da PEC.

No início da manifestação e acampada, instalada sem data para terminar, os manifestantes de Abbasiya atraíram algumas simpatias, mas não dos moradores e residentes da área. Houve inúmeros confrontos entre grupos, praticamente todos os dias. Mas ao amanhecer do dia 1º de maio, grupos de milicianos armados com facas, punhais e armas de vários calibres, atacaram os manifestantes: houve 11 mortos. O clamor entre os manifestantes aumentou, convocando para a “6ª-feira da Grande Marcha” sobre o Ministério da Defesa, agendada para o dia 4 de maio. E os generais do SCAF, que até aí se haviam limitado a observar à distância, lançaram dura declaração, na qual ameaçavam contra qualquer tentativa de alguém se aproximar daquela “toca dos leões”

Na 6ª-feira, o número de manifestantes reunidos em Abbasiya havia aumentado. Cantavam slogans a favor da derrubada do SCAF e de seu líder Hussein Tantawi. Um manifestante pulou a cerca de arame farpado que cercava o prédio do Ministério da Defesa. Era o que os soldados esperavam, para atacar. Usaram canhões de água e granadas de gás lacrimogêneo. Os manifestantes reagiram com pedradas. Cerca de 300 manifestantes foram presos; outros foram caçados na fuga pela rua Ramsés até a mesquita Nour, e espancados; e, segundo relatos dos militares, um soldado foi morto a tiros e centenas de policiais militares e das forças antitumultos foram feridos.

RUA MOHAMED MAHMOUD

Dia 19/11/2011, eclodiram os confrontos na rua Mohamed Mahmoud, uma das ruas que partem da Praça Tahrir, depois que forças de segurança tentaram evacuar a praça à força. Os combates arrastaram-se por cinco dias; resultaram daí 42 manifestantes  mortos e centenas de feridos. Todos foram atacados com gás lacrimogêneo, porretes, balas revestidas de borracha e munição real. Os combates da rua Mohamed Mahmoud foram particularmente terríveis por causa de atiradores instalados pelas forças de segurança em pontos estratégicos e que, ao que parece, atiravam contra os olhos dos manifestantes, usando balas de borracha. O Comando Superior das Forças Armadas, SCAF, justificou a violência, anunciando que “todos, na praça Tahrir, são agitadores e criminosos, não são manifestantes pacíficos.”

Um ano depois desses confrontos, as feridas permaneciam abertas no coração e na mente dos manifestantes. Organizaram manifestação para a rua Mohamed Mahmoud, que aconteceu dia 19/11/ 2012, para homenagear os mártires e sua contribuição para a Revolução, e para exigir punição para os agressores. Os agressores do ano anterior, novamente se posicionaram. Um dos manifestantes, de 17 anos, Gaber Salah, conhecido como “Jika”, recebeu um tiro na cabeça, nos combates que imediatamente se reiniciaram contra as forças de segurança; morreu alguns dias adiante. A morte de Jika foi prova, para muitos, de que, fosse em governo de Mubarak ou em governo de Morsi, nada mudara nem no SCAF nem no Egito.

O GABINETE

Depois dos combates na rua Mohamed Mahmoud em 2011, manifestantes reuniram-se em nova acampada frente ao prédio do Gabinete, na rua Qasr Al-Aini, para protestar contra a nomeação de Kamal Al-Ganzouri para o cargo de primeiro-ministro, pelo SCAF. Na terceira semana dessas manifestações, na madrugada do dia 16/12, um manifestante foi espancado por forças militares dentro do prédio do Gabinete, ação que reacendeu a ira dos manifestantes.

Milhares de manifestantes convergiram para a entrada do prédio, exigindo a deposição do SCAF. Seguiu-se batalha feroz entre soldados armados e manifestantes. A violência do exército provocou a morte de quatro manifestantes, entre os quais o Xeique Emad Effat, clérigo de Dar Al-Iftaa, e ferimentos em mais de 250. Nesse dia, a brutalidade do exército contra os manifestantes ficou manifesta quando soldados arrastaram uma mulher pela rua, de modo que ela teve expostas partes de seu corpo e roupas íntimas, para os que lá estavam e, também, para as câmeras de televisão.

Os combates à frente do prédio do Gabinete continuaram por uma semana, com o exército perseguindo manifestantes pela rua Rihan, na praça Tahrir e em Qasr Al-Aini e destruindo e incendiando vários hospitais de campanha. Nesses combates morreram 17 manifestantes e houve mais de 1.000 feridos. No curso desses eventos, o Instituto Egípcio de Ciências, que tem importante biblioteca de livros raros, foi incendiado. O SCAF acusou manifestantes, pelo incêndio; e os manifestantes, que se declararam inocentes, acusaram as milícias islamistas também ativas naqueles confrontos.

Na 6ª-feira, 23/12, dezenas de milhares de manifestantes reuniram-se na praça, para uma manifestação que chamaram de “6ª-feira das Mulheres Livres”, para denunciar crimes contra as mulheres e contra manifestantes em geral, praticados por soldados do exército. Levavam esquifes simbólicos, como homenagem aos mártires. Simultaneamente, no bairro de Abbasiya, realizava-se comício de apoio ao Conselho Superior das Forças Armadas.

MASPERO

Maspero é a região do Cairo onde se localizam a sede da rádio e televisão estatais. Mas, depois da Revolução, passou a ser local de protesto dos coptas contra ataques às suas comunidades, inclusive as bombas que explodiram na Igreja dos Dois Santos, em Alexandria, nos primeiros minutos de 2011; o incêndio na Igreja do Sol em Muqattam; e a profanação da Igreja de Mar Mina, em Imbaba, em maio do mesmo ano. Os coptas sentiram ameaçada a sua liberdade de culto e protestavam contra a erosão de seus direitos civis.

Obtiveram imediatamente algum consolo, porque muçulmanos logo se aliaram a eles. Ergueram cruzes em Maspero e cartazes em que se lia “com muçulmanos e coptas, de mãos dadas, construiremos um Egito grande e forte.”

O mais sangrento dos confrontos em Maspero aconteceu dia 9/10/2011, quando uma passeata quase exclusivamente de cristãos acabou encurralada entre grupos de milícias islamistas e de soldados. Atacados com porretes e à bala, os manifestantes, como sempre, reagiram com pedradas. Um blindado do exército avançou em alta velocidade contra a multidão, soldados incendiaram carros e manifestantes incendiaram veículos do exército.

Enquanto isso, em transmissões ao vivo, a rádio e a televisão estatal exortavam os “cidadãos a acorrer a Maspero, para proteger os soldados que estavam sendo atacados pelos coptas.” Naquela noite morrera 27 coptas.

No primeiro aniversário da Revolução, aconteceram em Maspero várias manifestações anti-SCAF. A praça Tahrir estava lotada de islamistas que celebravam a vitória nas eleições parlamentares, sem espaço para quem não estivesse convencido de que a Revolução alcançara seus objetivos. Para reanimar o ímpeto revolucionário, a esses só restou rumar para Maspero, onde acamparam por duas semanas, a exigir o fim do conselho militar superior; indenização para as famílias dos mortos; e antecipação das eleições presidenciais, marcadas para junho de 2012.

Os manifestantes também exigiam “o expurgo dos veículos de mídia, que só fazem obedecer ao que lhes ordena o governo e não passam de porta-vozes dos militares.” No quinto dia desse acampamento, os manifestantes foram atacados por milícias com pedras, porretes e garrafas de água; houve grande número de feridos. Vários grupos foram acusados dessas agressões, mas até hoje não se conhece o verdadeiro responsável.

PRAÇA MUSTAFA MAHMOUD E ROXY

Aí se realizaram comícios pró-Mubarak ou manifestações de apoio ao SCAF em 2011-2012. A praça Mustafa Mahmoud em Mohandessin foi onde se reuniram grupos antirrevolucionários dia 28/1/2011. Autodenominavam-se “Filhos de Mubarak” e desejavam que seu “pai espiritual” permanecesse no poder, pelo menos até concluir o mandato, em setembro de 2011.

Mas seus hinos de aviso contra a instabilidade e o caos que viriam se Mubarak partisse acabaram sufocados pelas vozes que vinham da praça Tahrir, exigiam mudanças. Durante alguns dias, uns poucos milhares de pessoas reunidas na Praça Mustafa Mahmoud mantiveram agenda leve: apareciam ao meio dia e partiam no final da tarde. Mas, depois, a Praça Mustafa Mahmoud tornou-se ponto de encontro das forças revolucionárias, antes de partirem para as passeatas ou manifestações em outros pontos da cidade.

Os apoiadores de Mubarak sumiram da Praça Mustafa Mahmoud. Só reapareceram no verão, num bairro residencial de classe alta em Heliópolis, na Praça Roxy. Nessa ressurreição, já não eram apoiadores de Mubarak, mas do SCAF. Embora não passassem de poucas dúzias, diziam falar por toda “a maioria silenciosa”. Carregavam faixas exigindo estabilidade e discursavam em termos nostálgicos sobre a era Mubarak. Durante algumas semanas, apareceram regularmente na Praça Roxy às sextas-feiras. Em seguida, calaram-se ou a voz deles desapareceu no alarido das vozes revolucionárias.

ALEXANDRIA

Alexandria, cidade mediterrânea, desempenhou papel central desde os primeiros momentos da Revolução. A Praça Al-Qaed Ibrahim, na Corniche, fazia eco aos cantos que vinham da Praça Tahrir, e repetia as mesmas demandas. Mantiveram ativo ali o espírito revolucionário por dois anos, sem se deixar dominar por um ou outro grupo. Na Praça Al-Qaed só se ouviam, incansáveis, os objetivos da Revolução, com cuidado para preservar um equilíbrio moderado. E assim foi, até que, há dois meses, grupos islamistas realizaram ali um comício de apoio ao decreto de Morsi.

Alexandria teve sua cota de escaramuças contra as forças de segurança, contra islamistas e contra mercenários armados. Dia 1/12/2012, na Praça Sidi Gaber, milícias mercenárias, armadas com punhais, pedras e garrafas quebradas, atacaram comício organizado por movimentos civis solidários às acampadas da Praça Tahrir e contra a Constituição islamista. As Forças Centrais de Segurança conseguiram conter os tumultos. O partido Liberdade e Justiça, da Fraternidade Muçulmana, negou que tivesse enviado apoiadores para aquele local.

Dia 5/12, enquanto os que protestavam à frente do palácio presidencial no Cairo eram atacados por milícias islamistas, em Alexandria vários grupos reuniram-se rapidamente na Praça Sidi Gaber, para denunciar a violência dos islamistas, quando se tratava de enfrentar diferenças políticas. A bandeira, em Alexandria, era “o povo quer verdadeira democracia. Pão, liberdade e o fim da Assembleia Constituinte.”

Dia 21/12, irromperam confrontos à frente da mesquita Al-Qaed Ibrahim, na Corniche, entre apoiadores e opositores do projeto de Constituição. A luta começou depois que o pregador Ahmed Al-Mahalawi conclamou os fiéis a votar “sim” no referendo sobre a Constituição; disse que “assim alcançaremos a estabilidade tão longamente almejada”.

Segundo relato de testemunhas presentes na mesquita, um dos fiéis levantou-se e cantou “abaixo o governo do supremo líder”. Pelo que se pôde ver, foi cercado, espancado e arrastado, com dois que o acompanhavam, para dentro da mesquita, por membros da Fraternidade Muçulmana. Do lado de fora da mesquita, barbudos afiliados a grupos islamistas armados com espadas, punhais, coquetéis molotov e pedras lutavam contra opositores. Morreram nove, e houve centenas de feridos.

Na 6ª-feira seguinte, declarada “Sexta-feira de Proteger Mesquitas e Pregadores”, islamistas de vários governadoratos chegaram à mesquita Al-Qaed Ibrahim, em Alexandria, para reforçar a defesa contra os inimigos. Impediram que pessoas sem ligação com os grupos islamistas entrassem na mesquita para orar. Depois das orações, a luta irrompeu. Mas os islamistas, quase todos do grupo salafista Hazemoun estavam em minoria. As batalhas de rua prosseguiram até o dia seguinte. À noite, quando os islamistas escaparam para ruas laterais, os manifestantes locais incendiaram seus ônibus.

Até a semana passada ainda havia combates em Alexandria. Dia 19 de janeiro, manifestantes anti-Fraternidade Muçulmana e familiares dos mártires enfrentaram a polícia em frente ao prédio da Corte Judicial em Manshiya, durante o julgamento de alguns acusados da morte de revolucionários em Alexandria. Bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas contra os manifestantes. Até agora, a indenização às famílias dos que morreram durante a Revolução Egípcia continua a ser demanda sempre repetida e jamais atendida.