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A reocupação da África

Manlio Dinucci Publicado em 01.02.2013

No momento exato em que o presidente democrata Obama reafirmava, em seu discurso de coroação que os EUA, “fonte de esperança para os pobres, apoiam a democracia na África”, enormes aviões C-17 US transportavam soldados franceses para o Mali, onde Washington instalara no poder, ano passado, o capitão Sanogo, adestrado nos EUA por Pentágono e CIA – o que tornou muito mais agudos os conflitos internos locais.

A rapidez com que foi lançada a operação, oficialmente para proteger o Mali contra o avanço dos rebeldes islamistas, deixa bem claro que foi operação longamente planejada pelo socialista Hollande.

A colaboração imediata dos EUA e da União Europeia, que decidiu enviar ao Mali seus especialistas de guerra com a missão de treinar e comandar, mostra também que a operação foi planejada em conjunto em Washington, Paris, Londres e outras capitais. As potências ocidentais, cujos grupos multinacionais rivalizam nas operações de se assenhorear de mercados e fontes de matérias primas, sempre formam grupo compacto, quando seus interesses comuns estão em jogo. Como os interesses que são ameaçados hoje na África pelos levantes populares e pela concorrência chinesa.

O Mali, um dos países mais pobres do mundo (com renda média per capita 60 vezes inferior à dos italianos, e onde mais da metade da população vive abaixo da linha da miséria), é imensamente rico em matérias primas: exporta ouro e colombo tantalite, mas a riqueza vai parar nos bolsos das multinacionais e da elite local. A mesma coisa, no vizinho Niger, ainda mais pobre (com renda per capita 100 vezes menor que a dos italianos) embora seja uma dos países mais ricos do mundo em urânio, cuja extração e exportação são entregues à multinacional francesa Areva.

Crédito da montagem: Tiago Hoisel, Brésil

Não é acaso que Paris, em operação simultânea à do Mali, tenha enviado suas Forças Especiais também ao Niger. Situação análoga no Chade, cujas ricas reservas de petróleo são exploradas pela Exxon Mobil (EUA) e outras multinacionais (e já começam a chegar também empresas chinesas): as migalhas que restam dos lucros vão diretamente para os bolsos das elites locais. Por criticar esse mecanismo, o bispo comboniano* Michele Russo foi expulso do Chade, em outubro passado.

O Niger e o Chade também fornecem soldados aos milhares, também enviados ao Mali para abrir uma segunda frente sob comando francês. A operação lançada no Mali, com soldados franceses como ponta de lança, é operação de vastíssima envergadura, que vai do Sahel até a África Ocidental e Oriental.

É operação que se articula com a que teve início no Norte da África, com a destruição do estado líbio e manobras para sufocar, no Egito e em outros pontos, as rebeliões populares.

É operação de longo prazo, que faz parte de um plano estratégico que visa a pôr todo o continente africano sob controle militar das “grandes democracias”, que retornam à África, com o casquete colonial mal disfarçado sob as cores da fantasia de paz.

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Texto originalmente publicado em 1/2/2013 no jornal Il Manifesto (Itália). Tradução Vila Vudu.

* Missioários Combonianos do Coração de Jesus [MCCJ] : congregação religiosa missionária fundada pelo italiano Daniel Comboni, morto em Khartoum em 1881 e beatificado em 2003, para evangelização e promoção humana na África [NdT italiano-francês]. Sobre Combonianos no Brasil, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Mission%C3%A1rios_Combonianos [NTs brasileiros].