Artigos

O contorcionismo da linha-dura

Paul Krugman Publicado em 16.11.2012

O despenhadeiro fiscal dos EUA coloca um problema interessante para os autodenominados “linhas-duras do déficit”. Faz tempo que esse pessoal entoa a cantilena de que o déficit é uma coisa horrível. Agora, confrontados com a possibilidade de uma grande redução no déficit fiscal do país, eles precisam encontrar uma maneira de dizer que isso não é bom.

E o que nós vemos, em relatórios como este, do Committee for a Responsible Federal Budget (Comitê por um Orçamento Federal Responsável), é um espetáculo de contorcionismo.

Bom, há uma maneira muito simples de sustentar que um déficit fiscal gigantesco é ruim, mas sua redução no longo prazo é boa – a saber, argumentando que não se deve cortar o déficit quando a economia está em crise e o país se encontra numa armadilha de liquidez, impedindo que a expansão monetária sirva de contrapeso à contração fiscal. Como disse Keynes, é nos períodos de expansão acelerada, e não de estagnação, que se deve praticar a austeridade. Mas os linhas-duras do déficit não podem usar esse argumento, porque, na realidade, o que eles propõem é austeridade hoje, amanhã e depois.

De modo que lhes resta apelar para razões sem pé nem cabeça: é abrupto demais (por quê?), é o tipo errado de redução do déficit (???), e então isto:

Uma abordagem mais efetiva seria concentrar o esforço no corte dos gastos de baixa prioridade e em mudanças que contribuam para estimular o crescimento e gerar mais receita por meio de uma abrangente reforma tributária que amplie a base de arrecadação – em termos ideais, ampliando-a o bastante para que as alíquotas do imposto de renda também possam ser reduzidas.

Gastos de baixa prioridade? Acho que estão falando dos gastos com os pobres e a classe média. E não é incrível que essa gente que se diz tão horrorizada, mas tão horrorizada com o déficit fiscal não consiga parar de falar em reduzir o imposto de renda?

Como se não bastasse, o mesmo comitê exibe em sua home page um artigo de Jim Jones afirmando que:

Estamos perigosamente nos aproximando de pagamentos anuais de um trilhão em juros, de taxas de 7% para os títulos de dez anos do Tesouro americano, de taxas de 10% para os créditos imobiliários e de taxas de 13% para os créditos automotivos. Pelo bem do país, os políticos precisam chegar a um consenso e impedir que isso aconteça.

 

Como ele soube que estamos “perigosamente nos aproximando” dessa situação? Não foi consultando os mercados. Também não foi com base em algum tipo de modelo econômico. Meu palpite é que ele andou conversando com a Peggy Noonan, aquela colunista conservadora que confia mais em sua intuição do que na estatística e nas pesquisas eleitorais. E o que ela previa? A vitória de Romney.

Muito revelador, de fato.

 

Fonte:Estadão.com