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Pistas gregas

Jorge Costa Publicado em 26.06.2012

Das coisas que a troika e a esquerda podem aprender na Grécia.

1. Syriza, referência política do povo em luta

O governo Samaras enfrenta um povo que votou, na sua maioria, contra o memorando da troika. Na grande Atenas (onde vivem metade dos gregos) e na população trabalhadora, o Syriza é o partido mais votado e a esquerda é largamente maioritária. O novo governo é fraco e vai prosseguir a política de austeridade. Da negociação encenada com Merkel não sairão mudanças que evitem o desastre. A esquerda tem de chegar depressa ao poder e só o Syriza tem a proposta unitária e o programa de rutura para ancorar um tal governo.

2. Sem meio-caminho na era dos credores

Depois de recusar na campanha eleitoral a rutura com o memorando, o partido Esquerda Democrática (Dimar) apoia agora no parlamento o governo da troika. “A Esquerda Democrática” - escreveu Rui Tavares em Abril - “é como se, em Portugal, a ala esquerda do PS se aliasse aos bloquistas mais abertos”. Ora, nem os bloquistas dos sonhos de Tavares, nem a ala esquerda do PS, esteja onde estiver, merecem tal injúria.

O Dimar foi apenas um instrumento de reabsorção pelo campo austeritário de parte da base perdida pelo Pasok. Nesse papel, vai esgotar-se em pouco tempo. E o mesmo acontecerá a qualquer projeto que jogue a carta da ambiguidade sobre o memorando da troika, porque essa é a grande fronteira política nos países sob intervenção externa.

3. Rotativismo, o novo resgatado?

A rápida ascensão do Syriza demonstra uma compreensão alargada da ausência de alternativa dentro do apoio ao memorando. Na Grécia, essa consciência foi acelerada pela presença conjunta do Pasok e da Nova Democracia no governo não-eleito que sucedeu a Papandreou. Já depois de 17 de junho, Pasok e Dimar preferiram ficar apenas na base de apoio parlamentar a Samaras, sem pastas de governo.

Compreende-se. O establishment grego quer recompor-se do susto eleitoral. Mais vale uma maioria troikista onde cabem as críticas da “austeridade inteligente” e “abstenções violentas”, do que um governo de “unidade nacional” que queima todos ao mesmo lume. Um poder fraco, num país em catástrofe, tem que resgatar o pêndulo da alternância e reduzir o espaço à alternativa. Resta saber se, mesmo contando com os préstimos do Pasok e do Dimar, esse plano chega a tempo.

4. Segundos pacotes, nunca mais

A derrocada do sistema político grego deixou outro ensinamento a quem conduz as macabras experiências daquele laboratório: os planos da troika não devem demonstrar ao povo a sua própria inutilidade face aos objetivos proclamados. Não se pode assaltar a população para pagar uma dívida e depois realizar um segundo assalto (ou resgate) porque essa dívida ficou maior. Na Grécia, essa evidência marcou uma viragem na luta popular.

No caso português, perante o fracasso total na evolução das receitas fiscais e do défice, o plano da troika e do governo é… o segundo assalto. Mas é possível que a mesma brutalidade aplicada na Grécia através do choque, venha a ser executada aqui de forma mais sofisticada, para conter os danos políticos. As medidas violentas entrarão no orçamento do Estado e não serão apresentadas enquanto imposições da troika, ou contrapartidas de segundo resgate. O dinheiro do novo empréstimo virá depois, sem associação ao agravamento da austeridade. Será então uma “demonstração de confiança” e um prémio pelos “sucessos” deste país que “não é a Grécia”.

5. Cuidado com os "não-nazis"

Num artigo no Público de domingo passado, Jorge Almeida Fernandes tentou diminuir o significado dos 7% obtidos pelo partido nazi. Ou melhor: para JAF, classificar a Aurora Dourada como nazi seria um “abuso da História” equivalente às banalizações daqueles que estão sempre prontos a ver um novo Hitler num qualquer país do eixo do mal. Na Grécia, em vez do “padrão ideológico do nazismo – racismo biológico, anti-semitismo, ataque ao pluralismo”, diz JAF, o crime da Aurora Dourada seria “o eurocepticismo e a hostilidade ao euro”... e isso não é nazismo.

Os leitores do esquerda.net conhecem as características deste movimento e a sua campanha eleitoral, feita de sangue de imigrantes. Os próximos meses mostrarão, para aparente surpresa de JAF, a função dos nazis gregos na luta a travar. Ficará à vista o seu custo em vidas (já não só de imigrantes, como avisa Brecht) e a sua intimidade com o aparelho repressivo do governo (o tal “europeísta” e “pró-euro”) no ataque à esquerda, entre outros traços típicos do fascismo ascendente.

A Aurora Dourada é uma milícia nazi composta de hooligans e gangsters de bairro. Não tem meio milhão de membros, mas tem meio milhão de votos e, diante de si, uma sociedade em desintegração. Não está escrito o que será, mas o que já é devia bastar para evitar leituras displicentes.

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Fonte: Esquerda.net