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Lenine, a NEP e a questão da transição socialista

Luís Carapinha Publicado em 23.05.2012

A passagem para a NEP e a gradual implementação da nova política económica na Rússia Soviética – atravessando o rio sentindo as pedras bem assentes debaixo dos pés, como diz a expressão chinesa – quatro anos depois da Revolução de Outubro e um após o fim da guerra civil marcam o último período da vida e actividade de Lénine. Os anos de 1921-1923, abarcando os últimos textos ditados por Lénine em finais de 1922 e início de 1923, conhecidos como o seu testamento político, representam uma etapa de interesse acrescido na avaliação da intervenção política e percurso teórico-prático do grande revolucionário russo, fundador do Estado soviético.

Não sendo apropriado estabelecer uma fronteira divisória no seu legado, o pensamento de Lénine no período aqui trazido demonstra-nos acima de tudo a capacidade vital da metodologia leninista da análise concreta da situação concreta, da sua intrínseca abordagem complexa e dialéctica sempre operante a partir da compreensão das condições objectivas inscritas no real como condição prévia para uma efectiva transformação social da realidade.

É Lénine quem afirma em Abril de 1918, pouco depois de concluído o acordo de Brest-Litovsk, “paz obscena” mas vital para a sobrevivência da revolução: «Não basta ser um revolucionário e um partidário do socialismo ou um comunista em geral. É preciso saber descobrir, em cada momento particular, o elo particular da cadeia que se deve agarrar com todas as forças para segurar toda a cadeia e preparar a passagem ao elo seguinte (…)»1.

Com a NEP Lénine procede a uma reavaliação do breve e simultaneamente longo percurso percorrido desde a tomada do poder pelo Partido Bolchevique e do caminho e etapas para o socialismo nas condições específicas da Rússia no virar da segunda década do século XX. Trata-se do primeiro balanço, de transcendente e não esgotado interesse, do percurso de transição socialista iniciada na Rússia soviética – que Lénine, aliás, abordou sempre como um processo complexo e prolongado. Um processo que é também de aprendizagem e correcção de rumo e que, não excluindo a hipótese de viragens bruscas e rupturas, decorre da análise da correlação de forças, condições e especificidades da situação interna e da confirmação da alteração de fundo do contexto internacional, ao não se realizarem as premissas e expectativas do triunfo da revolução europeia.

O início da Nova Política Económica, aprovada no X Congresso do PCR (b) em Março de 1921,
constituiu um recuo necessário e inflexão táctica e, ao mesmo tempo, não deixou de se firmar e
transcender como horizonte e linha de reposicionamento estratégico na via da transição socialista. A devida apreensão desta dualidade é essencial para a compreensão do lugar e significado históricos da NEP no âmbito da experiência pioneira revolucionária da URSS, assim como no plano mais lato dos processos no mundo que deram início a processos de transição socialista, conduzindo-nos até aos dias de hoje. 

A exigência da NEP colocava-se como questão prática ao jovem estado revolucionário exaurido e isolado da economia mundial. Nas condições tornadas socialmente ameaçadoras de penúria generalizada do pós-guerra civil (e pós I Guerra Mundial), de um estado, como diria Lénine, «tão destruído pela guerra, tão desviado de qualquer caminho mais ou menos normal (…)» 2, a NEP surge objectivamente como recuo por via da imperiosa necessidade de recomposição da economia e salvaguarda da revolução. No plano político não se ignorava a dificuldade da aplicação de medidas que à partida iam ao encontro das exigências dos mencheviques e de outras forças alinhadas com a contrarevolução. Embora, e esta é a pedra de toque da questão, a sua conceptualização revolucionária e aplicação integrais, que não se limitava ao plano estritamente económico, fossem conduzidas pelo novo poder proletário dirigido pelo partido Bolchevique.

A questão de fundo que ressalta com a emergência da NEP, para além das circunstâncias conjunturais, remete obrigatoriamente para a problemática da transição socialista de um estado da periferia capitalista com os atrasos fundamentais da Rússia, país semi-feudal com uma larga maioria de população camponesa e o predomínio anárquico da pequena produção. O «abismo entre a velha e a nova tarefa» enfatizado por Lénine na sua última intervenção pública, a 20 de Novembro de 1922, aponta directamente ao cerne da Nova Política Económica, que, em última instância, assenta na compreensão da inevitabilidade (e produtividade) da utilização das relações monetário-mercantis e das diferentes formas e mecanismos capitalistas e particularmente do capitalismo de Estado pelo novo poder proletário Soviético no processo da transição socialista, isto é, estrategicamente, ao serviço do sector socialista da economia e da consolidação das posições do poder soviético.

Lénine não ignora que a adopção de instrumentos e mecanismo próprios da economia capitalista implicaria, sob o controlo do Estado dos operários e camponeses, o desenvolvimento paralelo e a uma escala desconhecida de relações sociais capitalistas (burguesas) - «a nova política económica significa a passagem, em grande medida, para o restabelecimento do capitalismo. Em que medida – não o sabemos»3, afirma. Mas encara dialecticamente a necessidade e desafio de coexistência e concorrência entre diferentes estruturas e relações económico-sociais num período mais ou menos longo, com vista a elevar as forças produtivas, avançar na modernização da gestão e na socialização da produção, condições sine qua non da edificação socialista. A questão da socialização não se resume à nacionalização que é apenas um primeiro passo e não pode ser essencialmente abstraída da linha de desenvolvimento das forças produtivas, tarefa cuja efectividade não é alcançável apenas através de estritas medidas de cariz político-administrativo.

Por outro lado, o enfoque na base económica nunca é concebido de forma deslocada da política de classe, da consideração dos interesses do núcleo social da revolução e da tarefa central de fortalecimento da união operária-camponesa, que constitui preocupação central da aplicação da NEP. 

O enfoque nas medidas administrativas e de coacção no plano económico, a política de requisições, o congelamento das relações monetário-mercantis, a desvalorização e a erosão da moeda como valor de troca com a disseminação do recurso à “troca natural”, prática corrente na fase do comunismo de guerra, revelaram-se absolutamente necessárias no quadro das condições e exigências excepcionais daquele período de confrontação antagónica decisiva imposta ao poder soviético.

Não há, contudo, que perder de vista que simultaneamente amadurecem e ganham terreno as ilusões da passagem para a distribuição directa e o comunismo. Na vertigem do comunismo de guerra, o programa do Partido de 1919 preconizava, inclusive, a preparação para a abolição do dinheiro. No rescaldo da vitória militar e política, já com a banca e os principais meios de produção nacionalizados, mas perante a real hecatombe económica, a inflação astronómica e o apogeu das trocas em espécie, era comum entre quadros e dirigentes do partido a noção de que estavam dadas as condições para transitar directamente ao comunismo e que nesta “caminhada triunfante” até a própria eliminação do dinheiro estaria para breve… Porventura mais substancialmente, o atraso crítico na eliminação do regime de requisições e das normas do comunismo de guerra, reconhecido mais tarde pela liderança bolchevique (nomeadamente por Stálin na XIII Conferência do Partido em 1924), e na introdução da NEP, só iniciada depois de um conjunto de levantamentos e revoltas do qual Kronchtadt foi o mais grave, terá respondido até ao limite aos sentimentos combativos prevalecentes e à determinação das massas mobilizadas e bases do Partido para quem a recusa da passagem imediata para a ordem comunista se apresentava inaceitável. 

Lénine esteve entre os dirigentes que compreendeu os perigos e consequências ruinosas de uma fuga para a frente. Como revolucionário de corpo inteiro, não hesita em assumir a auto-crítica, apontar os erros, rectificar. Não abdica da busca criativa da exploração de novas formas e vias, aliando a defesa intransigente do marxismo e a coerência com os objectivos da revolução social com uma postura eminentemente anti-dogmática. Apesar da vitória crucial alcançada na guerra civil, tem noção do significado profundo da derrota económica sofrida pelo poder bolchevique na Primavera de 1921; uma «derrota muito mais séria, significativa e perigosa do que qualquer das derrotas que nos foram infligidas por Koltchak, Denikin ou Pilsudski» 4. Derrota que Lénine identifica com a incapacidade demonstrada em elevar as forças produtivas, não obstante este objectivo ser reconhecido pelo partido como uma «tarefa central e inadiável» 5.

Abordando em Março de 1921 a questão da substituição das requisições por instrumentos económicos, considera que «teoricamente (…) temos à nossa frente toda uma espécie de degraus transitórios e de medidas transitórias» 6 , sublinhando: «(…) o IX congresso [realizado um ano antes] pressupunha que o nosso movimento seguiria uma linha recta. Mas verificou-se, como constantemente se verifica em toda a história das revoluções que o movimento foi em ziguezague» 7. «Cometemos muitos erros (…): fomos demasiado longe no caminho da nacionalização do comércio e da indústria, no caminho de bloquear a circulação de mercadorias local» 8 , refere.

Num discurso proferido em Outubro de 1921 afirma com clareza meridiana que «devido (…) às tarefas da guerra que nos assaltaram (…), sob a influência destas e de uma série de outras circunstâncias, cometemos o erro de decidir passar directamente para a produção e distribuição comunista. (…) esta experiência pouco duradoira fez-nos convencer do equívoco desta posição contrária àquilo que anteriormente escrevemos sobre a transição do capitalismo para o socialismo, no sentido de que sem um período de (…) controlo socialista não seria possível sequer aproximarmo-nos da fase inferior do comunismo. A partir de 1917 quando a questão da tomada do poder se colocou (…), deixamos claro na nossa produção teórica que é necessária uma prolongada e complexa transição (…) desde a sociedade capitalista até, pelo menos, um dos acessos da sociedade comunista (que será tanto mais prolongada quanto menor for o desenvolvimento daquela)» 9. 

Com a NEP Lénine de certa forma retoma e desenvolve a perspectiva existente após o triunfo da revolução de Outubro de fortalecimento e utilização do capitalismo de estado como forma de propiciar as condições para uma «socialização efectiva da sociedade russa» 10
, cuja aplicação a guerra civil impedira.

Seria incorrecto, no entanto, absolutizar os elementos de ruptura com a fase precedente do “comunismo de guerra”, apagando e desarticulando a linha de continuidade e coerência respeitante ao aspecto determinante da NEP: o sector estatal, socialista da economia que se tornara dominante nos anos da guerra civil. Como sublinha o historiador soviético Dmitrenko, “a missão da NEP, o seu sentido social e perspectivas definiram-se através da revitalização e fortalecimento do modo socialista e da elevação do seu carácter estruturante e sistémico” 11 . 

Nos anos 20 da NEP, pela primeira vez com base na empresa socialista, é experimentado o campo de incorporação de instrumentos, mecanismos e medidas da gestão económica como a contabilidade comercial, a rentabilidade e auto-gestão, as relações de crédito, a produção mercantil, o comércio grossista, etc.

Com a prioridade assente no desenvolvimento das forças produtivas e da base económica, a questão passará a ser resumida pela fórmula de Lénine de “quem ganha a quem?”: «o capitalista a quem nós já deixamos entrar pela porta (e por muitas outras portas que desconhecemos e que se abrem sem que o saibamos e contra nós) ou o poder estatal proletário» 12 , interroga-se. Para Lénine, ou os capitalistas conseguem «organizar-se primeiro e (…) correrão com os comunistas (…) ou o poder estatal proletário mostra-se capaz, apoiando-se no campesinato, de manter sob rédea curta os senhores capitalistas (…) de forma a dirigir o capitalismo através do curso estatal e criar um capitalismo subordinado ao estado e ao seu serviço» 13. Lénine entende que a tensão contida na equação “quem ganha a quem?” não pode ser evadida ou simplesmente resolvida à partida. O caminho da sua resolução dialéctica passa pelo desenvolvimento da relação de tensão e unidade entre polos contrários e não pela tentativa da sua supressão voluntarista. Inclusive, não considera um paradoxo conceber-se o próprio capitalismo privado “ao serviço” do socialismo, afirmando, ao invés, tratar-se de «um facto económico absolutamente incontestável (…) num país de pequenos camponeses (…) que está a sair da guerra e do bloqueio e que é dirigido politicamente pelo proletariado que tem nas suas mãos os transportes e a grande indústria» 14 , donde decorre que «a circulação local de mercadorias tem neste momento uma importância primordial e (…) que o capitalismo privado (sem falar já do capitalismo de Estado) pode ser utilizado para ajudar o socialismo» 15.

O que está aqui em causa não é tentativa de supressão frontal das formas de propriedade não
socialistas e liquidação directa do capitalismo, mas um processo dinâmico, complexo e historicamente inaudito de subordinação pelo novo poder do seu potencial para elevar a capacidade produtiva e fortalecer o papel reitor da opção e sector socialistas ao longo de uma série de etapas, numa “cadeia transitiva” não linear, em que se formarão as premissas para a sua supressão e subsunção na formação económica superior. Processo dialéctico que Lénine nunca concebe deslocado da «luta de classe pelo poder sem a qual não é possível realizar o socialismo» 16. Processo de luta de classes, articulado e correlacionado à escala nacional e internacional, que não pode estar separado (e não está) do desenvolvimento da base económica e vice-versa.

Aquilo que Lénine nos demonstra é que nas condições de um país atrasado e dentro de um sistema internacional dominado pelas potências imperialistas é não só possível como até certo ponto inevitável, sob determinadas condições, e a presença de “contra-pesos revolucionários” e sólidas barreiras políticas ao capital privado, a utilização e o domínio dos mecanismos e formas económicas criadas pelo capitalismo no decorrer do necessariamente longo e multifacetado processo da transição para o socialismo. Lénine não hipostasia o elemento “mercado”, não concebe um “socialismo de mercado”. Não cristaliza as relações monetário-mercantis como elemento estrutural da futura sociedade socialista (comunista), mesmo podendo conceder que a sua presença, a par da vigência da lei do valor perdurará durante toda uma transição histórica para um modo de produção e organização social superior.

Marx fundamentara que a passagem para o socialismo se daria inicialmente nos países mais
desenvolvidos da cadeia do valor onde as condições para a superação revolucionária do capitalismo se encontrariam mais maduras. Mas o partido do proletariado havia conquistado o poder na Rússia, vasto país periférico e atrasado, herdeiro de um império decadente, sob as bandeiras do socialismo. Como resolver este “dilema” sem deslizar para as velhas fórmulas e querelas teóricas do reformismo? Lénine não nega que «a tarefa imediata e directa da revolução na Rússia era uma tarefa democráticoburguesa» 17 cujo conteúdo «significa depuração das relações (…) sociais de um país do medievalismo, da servidão, do feudalismo» 18 e das suas principais manifestações: «a monarquia, o sistema das “castas” sociais, a situação da mulher, a religião, a opressão das nacionalidades» 19. Neste domínio, afirma, os bolcheviques, fizeram «mil vezes mais» que toda a plêiade de «democratas burgueses e liberais», incluindo os «mencheviques e os socialistas-revolucionários, (…) em oito meses do seu poder» 20 (entre Fevereiro e Outubro 1917), levando a «revolução democrático-burguesa até ao fim» 21 e avançando «para a revolução socialista sabendo que ela não está separada da revolução democráticoburguesa por uma muralha da China» 22. Para Lénine, as questões da revolução democrático-burguesa foram resolvidas de «passagem como um “produto secundário” do nosso trabalho principal e verdadeiro, proletário revolucionário, socialista». 23

Ao mesmo tempo Lénine está perfeitamente ciente que a primeira vitória «não é ainda a vitória
definitiva» 24 da Revolução soviética. A tomada do poder, a execução das tarefas democráticoburguesas, a nacionalização dos principais meios de produção na Rússia não instauram o socialismo, não abrem portas à passagem automática para o comunismo («supúnhamos sem ter calculado o suficiente que com imposições directas do Estado proletário poderíamos organizar de maneira comunista (…) a produção estatal e distribuição estatal dos produtos», afirma) 25. Há um longo caminho a percorrer para realizar aspectos fundamentais do carácter socialista da revolução. Na criação do regime soviético e do estado da ditadura do proletariado resta «muitíssimo por fazer (…) mais de uma vez teremos que concluir, refazer e recomeçar do princípio (…) [e], cada degrau que consigamos avançar (…) no desenvolvimento das forças produtivas e da cultura dever ser acompanhado do aperfeiçoamento e modificação do nosso sistema soviético e nós encontramo-nos a um nível muito baixo no aspecto económico e cultural» 26. Quanto à «edificação económica da estrutura do regime socialista (…) está por concluir o principal, o fundamental» 27 , aponta Lénine. Trata-se pois de avançar nos caminhos da transição socialista – «e a dificuldade aqui consiste na forma de transição 28» –, em que avulta a tarefa «mais importante (…), a mais difícil e a menos acabada» 29, em que «temos (…) cometido mais erros» 30. Daí a implementação da NEP através da qual «corrigimos toda uma série» de erros «e aprendemos a prosseguir sem esses erros a construção do edifício socialista num país de pequenos camponeses» 31.

Lénine concebe também a necessidade da via das reformas no caminho da transição revolucionária e aborda teoricamente a questão que estava na boca de muitos comunistas soviéticos de «como explicar a passagem, depois de uma série de acções revolucionárias, a acções (…) reformistas (…) apesar da marcha geral vitoriosa de toda a revolução no seu conjunto?» 32, deixando um alerta para o perigo «de exagerar o revolucionarismo (…), esquecer os limites e as condições da aplicação adequada e eficaz dos métodos revolucionários» 33 e da «perda da lucidez de imaginar que a “revolução, grande vitoriosa e mundial”, pode e deve realizar obrigatoriamente de maneira revolucionária todas e quaisquer tarefas em quaisquer circunstâncias (…) e domínios» 34. 
  
Sustentando a necessidade do recurso a reformas, Lénine nunca renuncia à perspectiva e objectivos revolucionários. Em Novembro de 1922, afirma que «não sabemos ainda, onde e como devemos reagrupar-nos, adaptar-nos (…) para depois do recuo, começar uma ofensiva com maior tenacidade. (…) É necessário (…) medir não dez vezes mas cem vezes antes de decidir» 35, alerta. A NEP «pressupõe saber reduzir a um mínimo determinado todos os seus aspectos negativos» 36, sublinha.

Embora não estando resolvido se «saberemos organizar as coisas devidamente»
37, expressa confiança em que na via da «NEP surgirá a Rússia socialista»
38. São estas as últimas palavras da sua derradeira intervenção pública.

A consideração estreita da NEP, muito comum e de certa forma timbrada nos anos 30 pela historiografia oficial na URSS, essencialmente como puro recuo táctico temporalmente limitado, tende a apagar as linhas essenciais contidas na perspectiva leninista que abrem para uma abordagem mais alargada, sistémica, complexa e profícua da problemática da transição socialista.

Apesar da distância transcorrida com todas as diferenças salientes e não subestimando as particularidades de cada processo, a perspectiva analítica leninista aflorada na implementação da NEP permanece uma coordenada central na configuração e problematização dos processos contemporâneos da transição para o socialismo, sendo praticamente impossível escapar à comparação histórica com o contraditório e tumultuoso processo de Reforma e Abertura da China e o caminho do socialismo com características chinesas com base no desenvolvimento da economia de mercado socialista e vigência dos quatro princípios cardeais (via socialista, ditadura democrática do povo, direcção do Partido Comunista e o Marxismo-Leninismo e pensamento de Mao Zedong) - tarefa aliás bem merecedora de aturado escrutínio analítico.

Através da análise da NEP e do seu desenvolvimento, da exploração das diferentes formas do
capitalismo de estado, das diversas etapas e vias transitivas ao socialismo, Lénine coloca a tónica na questão da cooperação (encarada como forma transitiva e mais tarde associada ao sector socialista da economia), sublinhando «a mudança radical de todo o nosso ponto de vista sobre o socialismo (…) que consiste na mudança do centro de gravidade da luta política, da conquista do poder, da revolução para o «trabalho pacífico de organização cultural» 39. Será assim, afirma, se for possível abstrair o elemento relações internacionais – que, como se sabe, continuaria a exercer uma influência profunda no rumo da transição socialista.

A metodologia leninista assegura uma visão integral, complexa e inter-relacionada, dos diferentes campos da vida social. A NEP como âmago da reestruturação de toda a frente da edificação socialista não se cinge à centralidade da base económica e à questão suprema do poder, dimensões que Lénine vê sempre articuladas com a obtenção de progressos qualitativos nas esferas da educação e cultura e a prioridade de realizar a revolução cultural, com a necessidade absoluta de contrariar o chauvinismo grão-russo na política de nacionalidades, da luta contra a burocracia estatal e de refazer o aparelho de Estado; com a questão da democracia no Estado e no partido e a proposta de adequação da sua estrutura e direcção, – aspectos que constituem alguns dos principais temas abordados de forma pertinente por Lénine nos textos do seu testamento político. No domínio das relações internacionais Lénine fundamenta o princípio da coexistência pacífica que seria plasmado no tratado de Rapallo assinado entre a Rússia Soviética e a Alemanha de Abril de 1922, sobre o qual escreveu: «Apenas no tratado de Rapallo é dada a igualdade efectiva de direitos entre dois sistemas de propriedade, ainda que como condição temporária, enquanto todo o mundo não saiu da propriedade privada e do caos económico e das guerras por si engendradas para um sistema superior de propriedade» 40. 

De modo algum podem ser subestimadas a dimensão gigantesca e o carácter complexo e
historicamente inovador dos desafios enfrentados pela URSS após a morte de Lénine. Com o
aprofundamento e alargamento do campo de acção da NEP crescem também os elementos de tensão social, surge um novo feixe de contradições. Com a NEP alarga-se o campo da luta de classes. A conjugação de factores eminentemente críticos ao longo da década revelava sem dúvida um quadro de grandes exigências colocado à direcção soviética. Infelizmente, a entrada e a saída na NEP demonstraram dois níveis fundamentalmente distintos de capacidade de avaliação teórica e direcção política. A capacidade de continuar a indagar profundamente a revolução e os seus caminhos foi sendo perdida. O emolduramento doutrinal e o ascenso do dogmatismo num processo revolucionário acabam sempre por coabitar paredes-meias com o revisionismo, abrindo-lhe as suas portas. As derradeiras consequências desta quebra político-ideológica na história soviética são conhecidas. A experiência pioneira da NEP não pode ser encarada como um pacote “historicamente transaccionável” de receitas e fórmulas. Contudo, as questões essenciais que levanta, os seus princípios, metodologia e vector de abordagem complexa, integral e produtiva da totalidade social – exemplo de abertura dialéctica e dialéctica aplicada – o grau de maturidade e profundidade teóricas a que acede e abre portas, mantendo-se no patamar de uma estratégia e práxis una e indissolúvel da economia política do período de transição do capitalismo ao socialismo, conservaram actualidade, transpondo o tempo e o espaço em que foi concebida.

De certo modo, a interrupção e negação da experiência da NEP na viragem para os anos 30 na URSS, não deixaria de se converter dialecticamente em co-factor da sua projecção e repotenciação nas experiências histórias de transição socialista que marcam a actualidade.

(I Congresso “Marx em Maio”, 4 de Maio de 2012, Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa) 

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Notas:

1 As tarefas imediatas do poder soviético, Abril de 1918 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

2 Discurso no Plenário do Soviete de Moscovo, 20 de Novembro de 1922 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

3 A Nova Política Económica e as tarefas dos instrutores políticos, 17 de Outubro de 1921 (tradução de LC) (em В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)  

4 A Nova Política Económica e as tarefas dos instrutores políticos, 17 de Outubro de 1921 (tradução de LC) (em В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)  

5 A Nova Política Económica e as tarefas dos instrutores políticos, 17 de Outubro de 1921 (tradução de LC) (em В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)  

6 X Congresso do PCR(b). Relatório sobre a substituição das requisições pelo imposto em espécie, 15 de Março (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

7 X Congresso do PCR(b). Relatório sobre a substituição das requisições pelo imposto em espécie, 15 de Março (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

8 X Congresso do PCR(b). Relatório sobre a substituição das requisições pelo imposto em espécie, 15 de Março de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

9 A Nova Política Económica e as tarefas dos instrutores políticos, 17 de Outubro de 1921 (tradução minha – LC) (em В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)  

10 Ver Fernandes, Luís, 2000, O Enigma do Socialismo Real, Um Balanço Crítico das Principais Teorias Marxistas e Ocidentais, MAUAD, Rio de Janeiro

11 Dmitrenko, V.P., Essência da NEP, dialéctica do seu desenvolvimento, em Историки спорят.
Тринадцать бесед, 1989, Издательство политической литературы, Москва

12  A Nova Política Económica e as tarefas dos instrutores políticos, 17 de Outubro de 1921 (tradução de LC) (em В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)  

13 A Nova Política Económica e as tarefas dos instrutores políticos, 17 de Outubro de 1921 (tradução de LC) (em В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)  

14 Sobre o imposto em espécie (o significado da Nova Política e as suas condições), 21 de Abril de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

15 Sobre o imposto em espécie (o significado da Nova Política e as suas condições), 21 de Abril de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

16 Sobre a cooperação, 6 de Janeiro de 1923 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

17 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

18 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

19 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 – tradução revista por LC (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo e В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)

20 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

21 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

22 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

23 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 – tradução revista por LC (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo e В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)

24 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

25 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

26 Sobre a importância do ouro agora e depois da vitória completa do socialismo, 5 de Novembro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

27 Sobre a importância do ouro agora e depois da vitória completa do socialismo, 5 de Novembro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

28 Sobre a importância do ouro agora e depois da vitória completa do socialismo, 5 de Novembro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

29 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

30 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo) 

31 Para o quarto aniversário da revolução de Outubro, 14 de Outubro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

32 Sobre a importância do ouro agora e depois da vitória completa do socialismo, 5 de Novembro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

33 Sobre a importância do ouro agora e depois da vitória completa do socialismo, 5 de Novembro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

34 Sobre a importância do ouro agora e depois da vitória completa do socialismo, 5 de Novembro de 1921 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

35 Discurso no Plenário do Soviete de Moscovo, 20 de Novembro de 1922 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

36 Discurso no Plenário do Soviete de Moscovo, 20 de Novembro de 1922 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

37 Discurso no Plenário do Soviete de Moscovo, 20 de Novembro de 1922 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

38 Discurso no Plenário do Soviete de Moscovo, 20 de Novembro de 1922 – revisão da tradução LC (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo e В. И. Ленин, Избранные Сочинения в 10 томах, том 10, 1987, Издательство Политической Литературы, Москва)

39 Sobre a cooperação, 6 de Janeiro de 1923 (em Lenine, V.I., 1979, Obras Escolhidas em três tomos, tomo 3, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa/Moscovo)

40 Проект Постановления ВЦИК по отчету делегации на Генуэзской Конференции [Projecto de Deliberação do VTsIK sobre o relatório da delegação na Conferência de Génova] (tradução de LC), 15 ou 16 de Maio de 1922 (publicado em 1950), acedido em 

http://politazbuka.ru/downloads/Knigi/Lenin__SoW_5th_edition_RU_vol_45.pdf