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Tragédia grega, loucura militar e a esquerda

Oliviero Diliberto Publicado em 14.02.2012

Nestes dias somos todos gregos. Estamos do lado do povo grego massacrado pela loucura da chantagem neoliberal europeia. Porque aquilo que sucede hoje na Grécia pode acontecer a qualquer outro povo europeu, inclusive a Itália.

Há pouco estive na Grécia, numa Atenas espectral: negócios escusos, manifestações em toda a parte, escolas sem livros, hospitais sem seringas. Um país paralisado. A Grécia podia ter sido salva no início da crise com apenas 30 bilhões de euros. Ao invés disso, a Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) exigiu colossais planos de austeridade que fizeram o PIB grego cair 12%.

E fizeram a dívida saltar a 165% (no início era 120%). Uma cura que acabou por matar o paciente.

Quantos bilhões de euros foram presenteados aos bancos nestes anos? Por que, em vez disso, para salvar os Estados o dinheiro vem emprestado (dívida que se acrescenta à dívida) e os empréstimos são condicionados a manobras de lágrimas e sangue? Qual é a lógica louca que se esconde por trás de tudo isso?

É a loucura do neoliberalismo falido.

Uma loucura inútil e danosa. O que acontecerá de fato, quando outros títulos gregos decaírem? Recomeçará o filme: concedem empréstimos, a Europa exige mais austeridade; a economia cai, mas as dívidas são honradas por meio do massacre social. Uma espiral que encontrará seu fim somente com a queda definitiva da Grécia e com esta de toda a Europa. Porque se a Europa não está em condições de salvar a Grécia, como poderá na necessidade salvar a Itália que tem uma dívida cinco vezes maior?

Há uma coisa, porém, que salta aos olhos e torna a tragédia grega plasticamente real. A Grécia é o quinto importador mundial de armas. É o país europeu com a mais alta despesa militar: cada ano mais de 3% do PIB se destinam à defesa. Ou melhor, para comprar os refugos militares da França e da Alemanha. O Wall Street Journal revelou há algum tempo que Merkel e Sarkozy tinham imposto a aquisição de submarinos, navios, helicópteros e tanques de guerra como condição para desbloquear o plano de ajuda à Grécia.

Cortam os salários e as pensões. Os trabalhadores são demitidos e o país é massacrado. As despesas militares, contudo, não são tocadas jamais. Exatamente como na Itália com os F35.

Resta uma esperança. A Grécia irá às urnas em poucos meses. As pesquisas mostram a queda dos socialistas (abaixo de 10%) e a ascensão vertiginosa dos partidos de esquerda, em conjunto acima dos 40%. Parece que o povo grego compreendeu.

* Oliviero Diliberto é secretário nacional do Partido dos Comunistas Italianos (PdCI)

Fonte: Blog Il Fatto Quotidiano