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Necessidade e centralidade do trabalho

Nivaldo Santana Publicado em 01.02.2012

Um dos debates mais acalorados da atualidade diz respeito ao papel do trabalho na sociedade. O questionamento maior é a respeito das concepções formuladas por Marx: o proletariado permanece como a classe de vanguarda no processo de transformação social?

Há um vasto repertório de definições sobre o que é trabalho, as relações do homem com a natureza e as relações sociais de produção. Os próprios economistas clássicos (Adam Smith e David Ricardo) já haviam chegado à conclusão de que o valor de uma mercadoria, tema fundamental para a economia, era determinado pelo trabalho necessário à sua produção.

Coube a Marx, porém, o mérito histórico de desvendar um dos principais mistérios da economia, ao tratar da diferença entre o trabalho e a força de trabalho. Esta última é uma mercadoria especial, a única que, ao ser consumida, gera valor.

A base da economia capitalista se sustenta nessa relação, onde o operário troca sua mercadoria — a força de trabalho — pela mercadoria do patrão, o dinheiro. Nestas condições, o operário é livre para vender sua força de trabalho para o patrão que melhor lhe aprouver.

Mas a força de trabalho nem sempre foi mercadoria e o trabalho nem sempre foi assalariado. No escravismo e no feudalismo, por exemplo, não existia a figura do salário. Só no capitalismo o trabalho humano é assalariado, relação que dá origem à produção de riquezas e acumulação de capital.

Ocorre que, com as três revoluções industriais e o grande avanço no processo produtivo, a crise do socialismo e do estado do bem-estar social, tudo associado com a hegemonia da globalização neoliberal, levaram alguns pensadores a proclamar o fim da centralidade do trabalho.

Diversas correntes teóricas (Escola de Frankfurt e de Budapeste, pós-modernistas, etc.) passaram a dizer, como André Gorz, que o “trabalho organizado socialmente será extinto”, que a sociedade do trabalho será substituída pela sociedade do conhecimento.

Nestas condições, segundo esses autores, o proletariado perde a condição de vanguarda — e na sociedade pós-industrial os novos movimentos sociais ocupam o seu lugar (movimentos em defesa do meio ambiente, feministas, direitos humanos, paz, economia solidária, etc.).

Com isso, nega-se também o papel de vanguarda do partido e se rebaixa o papel de organizações clássicas dos trabalhadores, dentre elas os sindicatos, que hoje representariam apenas uma minoria privilegiada detentora de contrato formal de trabalho.

Todas essas teses se inscrevem no acervo de tentativas que, ao longo dos últimos tempos, procuram descaracterizar o pensamento de Marx, dar uma sobrevida ao capitalismo e retirar dos trabalhadores não apenas o seu papel político transformador como sua ferramenta principal de luta.

O fantástico desenvolvimento científico e tecnológico aumenta bastante a produtividade, permite aos proprietários dos meios de produção produzir cada vez mais com menos trabalhadores e construir sua riqueza a partir de uso mais intensivo de máquinas mais avançadas e técnicas de gestão atualizadas.

Estudo mais aprofundado dessa matéria, em si mesma bastante complexa, mostra que as alterações no perfil do trabalhador, com as inovações tecnológicas, tornam o proletariado mais heterogêneo, menos concentrado, com maior rotatividade, o que, certamente, cria dificuldades adicionais para a sua organização e o desenvolvimento da consciência de classe.

A multiplicação de novas organizações, outro fenômeno contemporâneo, não pode nublar o papel de uma organização superior, capaz de liderar a revolução e a luta pelo poder político (partido). É sobre essa base que deve desenvolver e atualizar o marxismo.

Enquanto persistir a propriedade privada dos meios de produção e relações de produção baseadas no trabalho assalariado, o trabalho será o elemento básico da sociedade humana, o proletariado a força social mais avançada e o partido o instrumento histórico necessário para edificar uma nova sociedade.