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Hollywood perde espaço nos EUA, mas avança pelo mundo

Amir Labaki Publicado em 06.01.2012

Hollywood teve uma boa e uma má notícia nos balanços mercadológicos da virada do ano. Os estúdios americanos atingiram em 2011 um novo recorde de arrecadação — no mercado internacional. Nas salas dos EUA, contudo, o tombo foi feio.

As produções americanas arrecadaram US$ 13,6 bilhões pelo mundo afora no ano recém-encerrado, um avanço de cerca de 7% em comparação a 2010. Os campeões mundiais foram “Harry Potter e As Relíquias da Morte –Parte 2”, “Transformers, O Lado Oculto da Lua”, “Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas”, “Kung Fu Panda 2” e “A Saga Crepúsculo – Amanhecer: Parte 1”. Sim, os filmes de séries dominaram mais uma vez os cinemas.

Já o desempenho no mercado americano conheceu uma queda de cerca de 3,5% em faturamento, com um total de US$ 10,2 bilhões. Em número de ingressos, o tropeço foi ainda maior, com uma redução de cerca de 5,3%, num total de 1,28 bilhões de entradas vendidas, o resultado mais negativo desde 1995. Sim, confirma-se a tendência: o cinema americano faturou mais fora (57,1%) do que dentro de suas fronteiras (42,8%).

O repórter especializado David Germain, da Associated Press, a partir de entrevistas com executivos da indústria audiovisual, arriscou quatro razões para o retrocesso interno. A crise econômica, em primeiro lugar. Em seguida, a elevação dos preços dos ingressos, impulsionados pelo custo extra de US$ 3 a US 5 das sessões em 3D. O excesso de continuações e refilmagens, apesar de as principais ainda liderarem as bilheterias, viria em terceiro lugar. Por fim, destaca-se o crescimento da competição, sobre o público majoritariamente jovem, por meio das diversões portáteis e domésticas.

Um dos principais críticos americanos, Roger Ebert, ofereceu sua interpretação em sua coluna no Chicano Sun-Times. Em sua lista de seis possíveis causas, ele passa ao largo do cenário econômico desfavorável e repete duas das explicações de Germain, quanto ao aumento do custo da entrada e ao crescente consumo audiovisual por outras mídias (com destaque para a nova janela via internet).

Quanto à oferta de títulos, Ebert torna mais complexa a questão. Para ele, e em primeiro lugar em sua lista, foi fundamental para o retrocesso a ausência de um título arrasa-quarteirão como “Avatar”, numa leitura algo similar à feita no mercado brasileiro para o impacto negativo da ausência de um “Tropa de Elite 2” sobre a participação nacional, declinante em 2011 em relação a 2010.

O critico de Chicago acredita ainda que o virtual monopólio do circuito de salas pelo rodízio de um pequeno número de títulos, ao reduzir a oferta de filmes, tem também lá sido pernicioso para as bilheterias. “O ponto brilhante em 2011 foi a performance de filmes independentes, estrangeiros ou documentários”, escreve Ebert, ressaltando porém que o difícil acesso, sobretudo fora dos grandes centros, tem evitado resultados mais robustos para essas produções.

Mas o principal argumento de Roger Ebert ecoa um mal-estar levantado modestamente neste espaço durante o último ano, num texto sobre o declínio do cinéfilo público. “É a sala de cinema que está perdendo seu charme”, metralha o crítico.

Entre os aborrecimentos, o falatório incessante e o uso de telefones celulares, com suas conversas a qualquer tempo e a distração insuportável das luzes dos aparelhos. Ebert acrescenta mais um item, de fundo econômico: o preço extorsivo de pipocas, refrigerantes e guloseimas.

Como se insere o mercado brasileiro neste contexto? Em primeiro lugar, o país contribuiu para o novo recorde internacional do cinema americano, com um aumento de 4% no público e de 16% na arrecadação, sendo hollywoodianas as dez maiores bilheterias de 2011.

O topo da lista no Brasil é compreensivelmente ocupado pela animação “Rio”, apenas o 10º no ranking planetário (e o 16º no americano). Seguem-se “Amanhecer – Parte 1”, o episódio final da série “Harry Potter”, a animação “Os Smurfs” e “Piratas do Caribe 4”.

Uma característica comum: todos os títulos acima foram lançados em duas versões, a original e a dublada, estratégia de mercado cada vez mais corrente. Adoraria que um especialista do Filme B (o site dedicado ao mercado fílmico brasileiro) pesquisasse a porcentagem arrecadada em cada uma delas.

Esse levantamento ajudaria a responder à pergunta: além do impacto positivo da expansão do parque exibidor (quase 200 salas a mais em 2011), já se poderia falar numa espécie de inclusão cinematográfica, com uma ampliação da base social do público de cinema no Brasil, baseado no recente desenvolvimento econômico?

Fonte: É Tudo Verdade