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Por que o cinema argentino é melhor que o nosso

Sylvia Colombo Publicado em 03.01.2012

Em 2011 os argentinos lembraram os dez anos da crise, conhecida como "estallido", que culminou com a queda do governo de Fernando De la Rúa. Foram dias intensos e violentos, de panelaços, protestos e mortes. A história contemporânea da Argentina deve muito ao fervor político e social e da sensação de abismo econômico daqueles dias.

É difícil descrever a importância do episódio para os argentinos, mas basta dizer que fez com que repensassem seu lugar na América Latina e com que se apegassem a qualquer projeto político que parecesse garantir que nada parecido ocorreria --e daí torna-se mais fácil explicar o vigor conquistado pelo kirchnerismo.

Em "Las Viudas de los Jueves" (www.lasviudasdelosjueves.com), filme do diretor Marcelo Piñeyro (o mesmo de "Kamchatka") que foi sucesso de bilheteria no país em 2009, está o melhor registro cinematográfico da inquietude e das dúvidas que transformaram a sociedade naquela época. O filme é uma adaptação do livro homônimo da escritora Claudia Pineiro.

Diferentemente do que poderia parecer óbvio, a historia se passa longe do palco dos acontecimentos, a Praça de Maio ou o centro de Buenos Aires, locais de onde as cenas de violência irradiavam para todo o país e o mundo, protagonizadas por protestos de desempregados, trabalhadores e aposentados que haviam ficado com acesso restringido a suas contas.

Os personagens de "Las Viudas de los Jueves" são pessoas a quem a crise não atingia de forma tão intensa, homens e mulheres ricos, que geralmente refugiam-se do calor de Buenos Aires em dezembro nos chamados "countries", condomínios fechados familiares onde as pessoas têm casas com piscina, quadras de tênis, campos de golfe e outras diversões.

Neste lugar, chamado "Altos de la Cascada", começam a ocorrer as tensões entre quatro casais. Tano e Teresa aparentemente têm tudo, são bonitos e ricos. Ele é diretor de uma multinacional holandesa. Mas ambos não se dão bem e ela nutre uma curiosidade sexual por outras mulheres.

Martin e Lala convivem com o fantasma da demissão dele, que trabalhava para um laboratório internacional, mas que, por causa da crise, perdeu o trabalho e o dinheiro. A filha do casal negocia entrada de drogas no country com a ajuda do segurança.

Ronnie e Mavi são o elo afetivo de todos. Ele, desempregado há anos, tem espírito gregário e é bem humorado, mas é sustentado pela mulher, corretora imobiliária. Já o violento Carlos, diretor de uma empresa e excelente tenista, chega ao country com sua atormentada mulher, a quem maltrata com castigos físicos, que se confundem com um jogo sexual.

A atmosfera sufocante do "country", em que cada casal vive um drama, lembra o ambiente de "O Pântano", de Lucrecia Martel. Ambos se passam num verão abafado e num território limitado, em que o desespero de um contamina os outros. Em "Las Viudas...", os homens jogam tênis e cartas, bebem e conversam entre si. Bem ao estilo argentino, as mulheres fazem programas separadas dos homens. Daí o "viúvas das quintas-feiras", o dia em que os maridos se reúnem para sua pequena farra semanal e elas saem juntas para discutir relacionamentos.

Aos que perguntam por que o cinema argentino é tão melhor que o nosso, sempre respondo que a razão está nos roteiros. Bons atores, boa direção e boa fotografia o Brasil possui também, mas é na hora do texto que a tradição literária do país e a excelente formação que em geral todos os argentinos têm marcam a diferença.

Com "Las Viudas..." acontece o mesmo. Os diálogos sobre crises do casamento, falta de perspectivas econômicas, angústia com relação aos filhos, desencanto com o país são resumos sociológicos sobre o que estava acontecendo, são também irônicos e tristes depoimentos.

Há uma cena, em que os quatro homens estão ao redor da piscina discutindo seus problemas e aventando a hipótese de um suicídio coletivo. Os quatro têm lágrimas nos olhos e se abrem uns para os outros. Simplesmente impossível pensar num filme brasileiro com uma cena parecida. A dramaticidade argentina é toda muito particular e contrastante com nossas características.

A morte súbita vem somar-se de forma muito complementar às imagens dos distúrbios na TV. Mais uma vez, o diretor amarra a história do país a dramas pessoais, como havia feito antes em "Kamchatka" (2002), que se passa durante a ditadura, e "Dinheiro Queimado" (2000), cuja trama acontece nos anos 60 e questiona o valor do dinheiro num ambiente de incerteza política.

"Las Viudas..." traz também excelentes atuações, de atores argentinos que há tempos vivem na Espanha, como Leonardo Sbaraglia e Ernesto Alterio, e outros que atuam na cena local, como Pablo Echarri, que começou fazendo filmes comerciais mas amadurece como ator a cada dia, além de Ana Celentano, que faz a mulher em dúvida sobre sua identidade sexual, e Juana Viale, neta de uma das estrelas máximas da TV local, Mirtha Legrand.

Não há previsão de estreia desse filme no Brasil. Mas o DVD acaba de ser lançado na Argentina e pode ser comprado em lojas virtuais ou em sua próxima viagem a Buenos Aires. E fica a dica para os distribuidores locais.

* Sylvia Colombo é jornalista e historiadora

Fonte: Crônicas de Buenos Aires