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Nova bravata de Erdogan: Chipre não existe

Serbin Argyrovitz Publicado em 06.08.2011

Apesar da grave crise político-institucional e militar que enfrenta, o primeiro-ministro da Turquia, Retzep Tayyip Erdogan, encontrou tempo para detonar todas as possibilidades de solução pacífica com suas explosivas declarações sobre a Ilha de Chipre.

Posições cruas não deixam margens para uma solução aceitável

Primeiramente, eliminou qualquer margem de solução aceitável. Aliás, na realidade, Erdogan não procura solução de qualquer conteúdo além do reconhecimento da legalidade de invasão e ocupação da região norte da Ilha de Chipre pelo Exército turco.

"Não existe Estado independente com o nome Chipre", argumentou, e completou: "No norte existe o Estado turco e no sul "eles"." Existe uma Chipre que foi separada em duas e a única solução aceita pelo governo de Ancara é uma "estrutura federativa de partes iguais, baseada no princípio dos dois Estados fundadores".

Tornou-se assim óbvio que as conversações bilaterais objetivamente não têm mais nenhum sentido, a não ser que o lado turco as continuará por motivos de show político e consumo interno.

A história do imbróglio é mal cheirosa. Na década de 1970, época em que a Turquia era cabeça de ponte dos EUA na fronteira com União Soviética e as relações entre Washington e Ancara eram em "profundo azul" (deep blue), a Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA, em conluio com a Junta Militar dos "coronéis gregos" que detinha o poder na Grécia, deu sinal verde à Turquia para desembarcar e ocupar militarmente a parte norte da Ilha de Chipre, alegando a necessidade de defender a minoria turca ali residente.

Obviamente, esta operação visava a estabelecer uma cabeça de ponte para posterior ampliação da ocupação de todo o território de Chipre. Contudo, os planos da Turquia fracassaram quando a Grã-Bretanha, que ocupava a Ilha de Chipre em regime colonialista, concedeu-lhe a independência, derrotada pela resistência armada dos cipriotas gregos, liderados pelo arscebispo de Chipre, Macários.

Intervenção da Otan

Mais tarde, Chipre foi reconhecida e tornou-se Estado independente, membro da Organização das Nações Unidas (ONU), da União Européia (UE), da Zona do Euro, assim como país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Após suas relações com os EUA terem azedado, a Turquia tentou um novo lance, aproximando-se da UE e reivindicando sua integração à Comunidade Européia, argumentando que parte de seu território encontrava-se no continente europeu.

Mas a maioria dos países europeus, liderada pela França e Alemanha, travou as negociações, enquanto tanto a Grécia, quanto a República de Chipre declararam, oficialmente, que exercerão o direito de veto à qualquer tentativa turca de ingressar à UE.

Por outro lado, qualquer nova operação militar turca na Ilha de Chipre visando a ampliar o espaço que invadiu e ocupa será considerada agressão contra a República de Chipre e provocará a intervenção das forças da Otan em defesa de um país-membro.

Por enquanto, a Turquia realiza vôos de provocação diariamente com seus caças-bombardeiros F-16 sobre o Mar Egeu e sobre a Ilha de Chipre, com a esperança de uma reação da Força Aérea da Grécia ou da República de Chipre, o que provocaria um casus belli, com a Grécia, a República de Chipre, ou ambas. Mas, neste caso, a Otan interviria em defesa de seus dois membros.

Rússia joga ducha fria nas intenções de Erdogan

A intervenção do governo de Moscou representou verdadeira ducha fria contra as bravatas do primeiro-ministro da Turquia de que "não existe Estado com o nome Chipre".

Alexandr Lukacevitz, porta-voz do ministério de Relações Exteriores da Rússia, declarou que "a Federação Russa mantém-se rigorosamente a favor do severo de todos - sem exceção - Estados, em cumprimento das decisões do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para qualquer problema de dimensão periférica ou mundial, inclusive da Questão de Chipre".

Referindo-se, especificamente, às conversações que estão sendo realizadas em Chipre, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia disse que "pela primeira vez, há anos, a sorte da solução cipriota encontra-se nas mãos dos próprios cipriotas, gregos e turcos", e recordou que "as votações da ONU indicam a todos os países-membros da Comunidade Internacional não reconhecerem nenhum estado cipriota, além da Republica de Chipre, respeitarem seu domínio, independência, autonomia e integridade territorial".


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Fonte: Monitor Mercantil