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A febre do ouro negro e o sistema americano

Wa-Zani Publicado em 14.07.2011

Os norte-americanos, que, no continente americano, assumiram praticamente o direito de só eles serem reconhecidos como americanos, apresentam-se, normalmente, como dizia o economista americano Joseph E. Stiglitz, como a fonte viva da sabedoria.

Não sou, nunca fui, nem pretendo ser anti-americano, juro mesmo! Têm, entre outras coisas, o melhor cinema, a melhor música e o melhor basquetebol do mundo, para já não falar no melhor fast-food. É voz corrente que o sistema democrático dos EUA é também o melhor do mundo, mas, tanto quanto me parece, só para eles mesmo. Tenho dificuldade em aceitar que tudo o que vem dos Estados Unidos ou que os americanos fazem ou dizem está cem por cento certo e que todos os outros, que não se vergam à sua vontade ou ao seu pensamento, estão, desde logo, redondamente errados e condenados a levar com conflitos ou até com uma guerra em cima do lombo.

Os norte-americanos, que, no continente americano, assumiram praticamente o direito de só eles serem reconhecidos como americanos, apresentam-se, normalmente, como dizia o economista americano Joseph E. Stiglitz, como a fonte viva da sabedoria e os detentores de uma ortodoxia demasiado subtil para ser entendida no mundo em desenvolvimento. Daí, talvez a razão, para que, mais do que ninguém, tenham feito e continuem a fazer toda um série de imiscuísses políticas e intervenções militares.

A “Folha de São Paulo”, de 16 de Setembro de 2001, publicou um levantamento de algumas delas, realizadas no século XX. Ora vejamos: guerra entre os EUA e as Filipinas, que lutavam pela independência do país, dominado pelos EUA (1899-1902); na revolução mexicana, os EUA bloqueiam fronteiras mexicanas em apoio aos revolucionários (1913); tropas americanas desembarcam no Haiti e transformam o país num virtual protectorado americano (28 de Julho de 1915); cerca de mil marineis desembarcaram na China durante a guerra civil local (1927); no contexto da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), declararam guerra à Alemanha (6 de Abril de 1917); no contexto da 2ª Guerra Mundial (1939-1945), o ataque japonês à base militar americana de Pearl Harbor, leva à entrada dos Estados Unidos na guerra (7 de Dezembro de 1941); início do conflito entre a República Democrática da Coreia (Norte) e a República da Coreia (Sul), em que os EUA participam ao lado dos sul-coreanos; na guerra do Vietname (1955-1975), como aliados dos sul-vetnamitas, tentaram, sem sucesso, impedir a formação de um Estado comunista, unindo o sul e o norte do país e após os ataques norte-vietnamitas ao destroyer americano Maddox, o Congresso autoriza o Presidente a lançar os EUA na guerra (Agosto de 1964); numa tentativa fracassada de derrubar Fidel de Castro, exilados anti-castristas, apoiados pelo Governo de John Kennedy, invadem a Baía dos Porcos, em Cuba (1961); fracassada a operação-resgate dos reféns na embaixada americana em Teerão, capturados por estudantes muçulmanos (1980); na sequência de uma onda de intervenções na América Central, numa luta de forças entre a esquerda e a direita, na qual os EUA insistem em envolver-se militarmente, ocorre o derrube do Governo em Granada, após o Presidente Ronald Reagan ter enviado tropas para aquela ilha caribenha sob o pretexto de impedir a expansão do comunismo na América Latina (1983); em 1986, aviões dos EUA atacam uma base aérea em Sirte, cidade do líder líbio Muammar Kaddafi e nesse mesmo ano, Washington adopta represálias contra Kaddafi, acusado de liderar o terrorismo internacional, enquanto bases militares em Tripoli e Benghazi são, nesse mesmo ano, atacadas e civis são atingidos; após fracassadas tentativas para depor Manuel Noriega, o presidente George Bush envia 24 mil soldados para aquele país, derruba o Governo e empossa Guilhermo Endara, eleito em pleito anulado por Noriega; após a invasão do Iraque ao Kuwait, em 2 de Agosto de 1990, a OTAN e os EUA decidem impor um embargo económico ao país, seguido de uma coligação anti-Iraque que teve o título de “Operação Tempestade no Deserto” (16 de Janeiro de 1991); forças militares dos EUA chegaram à Somália para intervir numa guerra entre facções do então Presidente Ali Mahdi Muhammad e tropas do general rebelde Farah Aidib (1992); no início do Governo Clinton, um ataque contra instalações militares iraquianas é lançado em retaliação a um suposto atentado, não concretizado, contra o ex-presidente Bush, de visita ao Kuwait (1993); trop>s norte-americanas fortemente armadas chegam ao Haiti por ar e mar e, com um acordo firmado de última hora, o general Raoul Cédras promete deixar o Governo e assim, o Presidente eleito, o exilado Jean-Bertrand Aristide, pôde tomar posse (1994); os EUA enviam tropas militares para Tuzla (norte da Bósnia) com o objectivo de garantir a assinatura formal do acordo de paz entre Servia, Croácia e Bósnia (1995).

Mais do que uma superpotência, estamos, efectivamente, perante um atento “Polícia do Mundo”, que, em nome daquilo que lhe parece ou não ser justo, intervêm onde e quando quer, mas, quando não lhe interessa, simplesmente, fecha os olhos a muita coisa má que anda por este mundo fora: a questão dos dois pesos e duas medidas…

Michel Chossudowsky, professor da Universidade de Otawa, num texto publicado no “Global Research”, em 9 de Março, acusa os EUA de estarem por detrás da rebelião líbia, com participação activa da media ocidental, que não se limitou à fórmula censória habitual, o silêncio, mas participou na manobra, desinformando as populações, como forma de justificação para uma “intervenção humanitária”, na sequência de uma tentativa de golpe de Estado. Chossudowsky refere ainda que a questão na Líbia “não se trata de um movimento de protesto não violento como no Egipto e na Tunísia.

As condições na Líbia são diferentes. A insurreição armada na Líbia Oriental é apoiada directamente por potências estrangeiras”. A insurreição em Benghazi, que imediatamente arvorou a bandeira vermelha, negra e verde com o crescente e a estrela, a bandeira da monarquia do rei Idris, símbolo do domínio das antigas potências coloniais. A 27 de Fevereiro, já a secretária de Estado Hillary Clinton afirmava:

“A Administração Obama está pronta a oferecer “qualquer tipo de assistência” aos líbios que tentem derrubar Moammar Kadafi (…) Temos estado a estender a mão a muitos diferentes líbios que estão a tentar organizar-se no Leste e para que a revolução se mova também em direcção Oeste (…) Penso que é demasiado cedo para dizer como isto vai terminar, mas temos de estar prontos e preparados para oferecer qualquer espécie de assistência que alguém pretenda ter dos Estados Unidos” (Clinton: US ready to aid to Libyan opposition - Associated, Press, February 27, 2011).

De acordo com o professor Michel Chossudowsky, o verdadeiro objectivo da “Operação Líbia” não é estabelecer a democracia, mas sim, tomar posse das reservas de petróleo líbias, desestabilizar a National Oil Corporation (NOC) e, finalmente, privatizar a indústria petrolífera do país, nomeadamente, transferir o controlo e a propriedade da riqueza petrolífera da Líbia para mãos estrangeiras. “A National Oil Corporation (NOC) está classificada entre as cem principais companhias de petróleo. A Energy Intelligence classifica a NOC no 25º lugar entre as cem principais companhias do mundo.

A Líbia está entre as maiores economias petrolíferas do mundo, com aproximadamente 3,5 por cento das reservas de petróleo globais, mais do que o dobro daquelas dos EUA”.

Agora é assim. A França e a Inglaterra também procuram a sua parte do bolo. Se, em algum lado, cheirar a esturro é porque houve antes febre do ouro. Não do ouro doirado do qual, antes da revolução industrial, corriam atrás. Agora, a febre é de ouro negro.

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Fonte: Jornal de Angola