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Palestina: a Terceira Intifada e o dilema de Barack Obama

Jafar El Caiat Publicado em 24.05.2011

Oferecer algo palpável aos palestinos, ou reiterar o apoio a Netanyahu?

O encontro de Barack Obama com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, realizou-se no sábado passado após uma crítica evolução da Primavera Árabe. Até recentemente, as insurgências árabes haviam mantido à margem a questão palestina e a queda de braço árabe-israelense.

Aliás, muitos apressam-se para concluir que as nascituras democracias árabes poderão constituir-se mais firmes parceiros de Israel e dos EUA do que as absolutistas, facilmente levadas ao populismo nacionalista.

Na realidade, a questão palestina jamais foi retirada do núcleo do entrelaçamento do Grande Oriente Médio. A primeira e a segunda Intifada (1987 e 2000, respectivamente) desempenharam papel catalisador para o despertar dos árabes das comissões de solidariedade aos palestinos, das quais brotaram as primeiras organizações políticas e sociais independentes, as quais desempenhariam mais tarde papel protagonista nas insurgências da Tunísia e do Egito.

Por sua vez, as derrubadas dos regimes de Ben Ali e Hosny Mubarak reergueram a autoconvicção dos palestinos, municiando aquilo que Wall Street caracterizou, talvez prematuramente, mas não sem certeza, de "Terceira Intifada".

No domingo retrasado, os israelenses festejavam a criação do Estado nacional, enquanto os palestinos pranteavam a "nakba", isto é, a destruição da guerra de 1948. Naquele dia, milhares de palestinos desarmados violaram as fronteiras de Israel de todas as direções possíveis: a controlada pelo Hamas Gaza, a administrada pelo Fatah Margem Ocidental, as Colinas de Golan na Síria e no Líbano, enquanto as manifestações episódicas expandiam-se na Jordânia e no Egito.

David x Golias

A impressionante manifestação de união trouxe de volta à ordem do dia o direito de retorno dos palestinos refugiados, considerado pela comunidade internacional definitivamente alienado. Israel respondeu com fogo real, assassinando 13 e ferindo 80 desarmados manifestantes.

As emissoras ocidentais de televisão ficaram repletas com imagens de jovens palestinos com pedras e atiradeiras enfrentando soldados israelenses armados até os dentes, revivendo o exemplo de Davi contra o Golias.

Buscando argumentos de inocência, Israel atribuiu os episódios à conspiração do presidente da Síria, Bashar Al Assad, acusando-o de tentar transformar a onda contra o regime em movimento nacionalista. É óbvio que o presidente Assad tem todas as razões do mundo para desejar algo assim.

A propósito, Steve Brett, articulista do norte-americano Wall Street Journal, escreve: "As pessoas não passam por cima de barreiras de arame farpado, não atravessam campos minados, e não marcham em cima dos canos das armas inimigas a não ser que tenham vencido o medo e sintam-se profundamente convictas do direito de sua luta"

Esperança na ONU

Verdadeiro organizador do "domingo sangrento" foi o correspondente palestino das jovens insurgências que insuflaram a "Primavera Árabe". A Rede 15 de Março, disseminada através do Facebook, organizou, há dois meses, manifestações para a superação do fratricida rompimento entre Fatah e Hamas.

Trata-se de um movimento de resistência pacífica contra a ocupação israelense que recusa-se a cumprir os Acordos de Oslo, busca a auto-revogação da Autoridade Nacional Palestina e quer impedir - a qualquer custo - o reinício da luta nacional por intermédio da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

A ressonância maciça que encontrou o movimento nos territórios palestinos acelerou o acordo de conciliação entre Fatah e Hamas, no Cairo, por força do qual foi aberto o caminho para conformação de um governo de unidade nacional.

A nova realidade colocou Israel em posição extremamente difícil. O futuro próximo configura-se ainda mais negro. Em setembro próximo, a liderança palestina mantém as esperanças de que conseguirá obter a decisão da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o reconhecimento do Estado da Palestina nas fronteiras de 1967.

Indecisão de Obama

Ainda, pela primeira vez em sua história, Israel enfrenta governos inimigos, os três Estados mais importantes do Grande Oriente Médio: Egito, Irã e Turquia. E com estes considerandos, Israel necessita, mais do nunca, do apoio dos EUA, e o premiê Netanyahu não dispõe, hoje, de muitas margens para continuar discordando de Obama.

Entretanto, não são menos difíceis os dilemas de Obama. Sua tentativa de surfar sobre a onda da insurgência generalizada árabe, eliminando da memória o apoio norte-americano aos regimes autoritários, não terá sorte se não oferecer, finalmente, algo bem mais palpável para obter a solução do imbróglio dos imbróglios da região, o palestino.

Por outro lado, considerando a explosiva incerteza no Mundo Árabe - concordando ou não Obama - Israel representa hoje o único apoio seguro dos EUA no Grande Oriente Médio, ou, "o Estado de Israel é o maior porta-aviões dos EUA sem risco algum de imergir, e situa-se em uma região extremamente crítica para a segurança dos EUA", nos dizeres de um político norte-americano.

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Fonte: Monitor Mercantil