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A formação do sistema sinocêntrico e a transição sistêmica

Diego Pautasso Publicado em 30.03.2011

A transição experimentada pela China é crucial para reordenamento mundial de poder não somente por representar mais de 20% da população mundial, mas por ser parte central da procura de soluções sistêmicas em política internacional e em desenvolvimento nacional. Em outras palavras, o argumento proposto é que a irrefreável ascensão chinesa é um elemento-chave da transição sistêmica a partir da formação de uma economia continental capaz de exercer um efeito gravitacional e recriar um sistema regional sinocêntrico.

A transição sistêmica e o papel da China

O acelerado ciclo de desenvolvimento desencadeado na China a partir da política de Reforma e Abertura (1978) de Deng Xiaoping tem efeitos que ultrapassam, em muito, a dinâmica do próprio país oriental. A partir deste contexto, a reintegração da China ao sistema mundial, através da aproximação com os EUA nos anos 1970, contribuiu inclusive para o fim da Guerra Fria.

A dissolução da bipolaridade tem produzido transformações substantivas que podem ser caracterizadas como parte de uma transição sistêmica, manifesta pela fragilização das estruturas hegemônicas de poder criadas pelos EUA no Pós-Guerra; pela configuração de um mundo multipolar, com a emergência de países como China, Índia e Brasil; e pelo fortalecimento das relações Sul-Sul com arranjos diplomáticos alternativos; entre outros.

A China tem sido a grande beneficiária das mudanças sistêmicas; na Ásia, tem permitido ao país (re)criar um sistema regional sinocêntrico. De um lado, a China se beneficiou da aproximação com os EUA nos anos 1970 e, posteriormente das políticas norte-americanas voltadas ao fechamento do mercado doméstico para o Japão, com a desvalorização do iene no Acordo Plaza (1985), a desvalorização do dólar e outras medidas protecionistas (ARRIGHI, 2008, p. 120), pois impulsionou os investimentos em toda a Ásia. De outro, o fim da bipolaridade, a desintegração da URSS, a crise do milagre japonês e as dificuldades de reafirmação da liderança dos EUA na Ásia têm fortalecido ainda mais a China.

A ascensão da China (e da Ásia Oriental) é elemento-chave da transição em curso no sistema internacional (ARRIGHI; SILVER, 2001). O desenvolvimento chinês está impulsionando a formação de uma gigantesca economia continental ao elevar a renda per capita e ao promover a urbanização num contingente populacional de mais de 1,3 bilhões de pessoas. A formação de uma economia continental na China é, por sua vez, causa e consequencia da estruturação de um sistema regional sinocêntrico, no qual o país oriental funciona como pivô da integração regional. Dessa forma, a China está se convertendo no espaço de conexão entre a Bacia do Pacífico e a Eurásia, transformando-se numa versão contemporânea da Rota da Seda ao interligar o Oriente e o Ocidente.

Portanto, a reconstituição do sistema regional sinocêntrico como forma de integração asiática no longo prazo depende da capacidade da China exercer poder gravitacional na Ásia. A liderança chinesa sobre os processos de integração regional tem se dado a partir de dois círculos concêntricos: o primeiro círculo concêntrico é formado pela recriação de uma esfera de co-prosperidade da grande China com o Sudeste Asiático (KHANNA, 2008, p. 361), Península Coreana e Japão; já o segundo círculo é formado pela OCS, com países da Ásia Central e Rússia visando recriar a conexão com o Oriente.

O sistema sinocêntrico em perspectiva histórica

A análise histórica do sistema regional asiático fornece elementos para pensar as novas tendências em curso e quais os elementos que contribuirão para formar esta nova síntese. De um lado, a longa tradição do sistema regional asiático baseou-se na baixa frequencia de guerras entre os Estados, nas raras redefinições territoriais, na ausência de competição entre si para construir impérios ultramarinos e no reduzido ímpeto de se envolverem em corridas armamentistas em comparação com o sistema europeu. Mesmo a expansão territorial da China durante o período Qing não foi impulsionada pela competição com outros estados, tampouco visava a extrair recursos das novas fronteiras econômicas incorporadas (ARRIGHI, 2008, p. 324; 328).

De outro, o sistema europeu desenvolveu-se a partir de uma combinação peculiar entre capitalismo, militarismo e territorialismo criou as condições competitivas para a dominação em escala global (ARRIGHI, 2008; FIORI, 2009). No âmbito europeu, esta combinação levou ao fortalecimento dos Estados, com a passagem de cerca de quinhentas unidades territoriais, no início do século XVI, para cerca de vinte, no início do XX (KANG, 2003, p. 170). A competição se refletiu também no intermitente rearranjo político e territorial da Europa baseado no profundo uso da força. No início do século XX, no Entre Guerras, na Guerra Fria e no Pós-Guerra Fria, o continente europeu experimentou o surgimento e o desaparecimentos de países e de Impérios, frequentemente imerso em convulsões sociais. No caso da Ásia, os ciclos de violência a partir do século XIX se explicam, em parte, pela diluição do sistema hierárquico sinocêntrico a partir da dominação ocidental e pela conversão “realista” de países como Japão.

Esta é a base para a compressão da razão pela qual o desenvolvimento chinês não revela nem comportamento revisionista nem mentalidade expansionista tal como o militarismo japonês e o nazismo alemão da Segunda Guerra. O nacionalismo chinês está voltado à proteção da integridade territorial e à recuperação de territórios perdidos, como as ilhas Taiwan, Spratly e Diaoyu (GOLDSTEIN, 2003, p. 86). As especulações acerca do comportamento de uma China cada vez mais desenvolvida e poderosa têm de levar em conta os traços civilizacionais, as características históricas e também os objetivos futuros do país oriental. Do contrário não se entenderá como o governo chinês combina a defesa dos interesses nacionais com baixo grau de tensionamento internacional; a defesa do status quo e, ao mesmo tempo, a construção de alternativas às estruturas hegemônicas de poder.

Na atualidade, a integração asiática está baseada em um sistema hierárquico cujas características diferem substancialmente do sistema westphaliano: os Estados mais fracos buscam benefícios ao invés do balanceamento frente ao mais forte; o Estado central busca minimizar os conflitos com os países mais fracos, provendo meios para se ajustar a circunstâncias imprevistas; a hierarquia é sustentada não somente pelo poder material, mas por normas culturais compartilhadas que servem para mitigar o dilema de segurança e aumentar o nível de comunicação e confiança entre os Estados do sistema; e o Estado central tem baixo nível de interferência nos assuntos dos países mais fracos, respeitando a autonomia na organização doméstica e nas relações exteriores. Portanto, enquanto sistema regional asiático considera que há uma hierarquia formal e uma igualdade informal; no sistema europeu se reconhece uma igualdade formal entre os países e uma hierarquia informal que expõe, na prática, poderes desproporcionais (KANG, 2003, 167; 168).

O sistema hierárquico da região elucida, por exemplo, as razões pelas quais os países asiáticos reagem de forma diferente a dos EUA na questão de Taiwan (inclusive Japão) e países como Vietnã e Coreia aceitam a posição central da China na região (KANG, 2003). A nova acomodação de poder na região tende a impactar o reordenamento mundial, pois é preciso considerar uma China ascendente, um EUA em recuo relativo, um Japão em busca de espaço, uma Rússia tentando recuperar o protagonismo e uma Índia em desenvolvimento.

O sistema sinocêntrico e o reordenamento mundial

A partir dos anos 1970, a China priorizou a integração com a Bacia do Pacífico, intensificando o fluxo de comércio e investimentos com a região. Em 1991 passou a fazer parte da Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (APEC) e em 1997 se associou à Japão e à Coreia do Sul para se integrar à Associação das Nações do Sudeste Asiático, criando a ASEAN+3. Com a desintegração da URSS e o fim da Guerra Fria, a diplomacia chinesa projetou-se para o interior do continente. O resultado mais substantivo foi a criação da Organização para a Coopração de Shangai (OCS) em 2001. Portanto, o fim da bipolaridade alterou os arranjos diplomáticos e econômicos, pois permitiu a formação de novos países na Eurásia, acelerou o desenvolvimento dos países da Ásia-Pacífico e desencadeou e aprofundou processos de integração regionais.

O processo de asianização da Ásia (FUNABASHI, 1994) e de reconstituição do sistema regional tem se manifestado em vários âmbitos. No âmbito diplomático, a China tem reocupado seu papel central na região, pela reconquista do seu status internacional, pelo fortalecimento das iniciativas multilaterais na região (Grupo dos 6, OCS, ASEAN + 3, APEC, ASEM, FOCALAL, etc.) e pelo deslocamento gradual de EUA e Japão como poderes dominantes. No âmbito econômico, o país está centralizando as correntes comerciais e os fluxos de investimentos na região, tornando-se o elo da integração produtiva regional que havia sido desencadeada pelos capitais japoneses nos anos 1980.

Mas é no âmbito populacional e cultural que ocorre o elemento silencioso e eficaz da integração regional desempenhado pelos chineses de ultramar. Conforme Pinto (2000, p. 44), a conformação deste novo espaço geoeconômico de integração asiático tem dependido dos chineses de ultramar, pois estes sabem lidar com os frágeis sistemas legais; dominam os referenciais de valores e a cultura de negociação; possuem fluência no idioma e empatia dos nacionais da RPC; e tem longa exposição ao ambiente de negócios internacionais. São cerca de 55 milhões de chineses no Sudeste Asiático com recursos financeiros desproporcional ao seu contingente populacional na Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas, além dos três quartos de população chinesa em Cingapura.

Portanto, sustentamos que não há dúvidas que a China e a integração asiática estão no núcleo das transformações sistêmicas em curso. Estas transformações colocam aos principais centros da civilização ocidental o desafio de se adaptar à irrefreável ascensão chinesa e à civilização sinocêntrica reemergente o desafio de colocar-se à altura da tarefa de fornecer soluções sistêmicas aos problemas deixados pela hegemonia dos EUA (ARRIGHI; SILVER, 2001, p. 296) e pelas contradições do capitalismo em escala global.

As soluções sistêmicas passam pela criação de mecanismos de governança globais mais equilibrados e de modelos de organização social menos desigual; ou seja, a tradição diplomática dos Cinco Princípios da Coexistência Pacífica (respeito mútuo ao território e soberania; não agressão; não interferência em assuntos internos; igualdade e benefício mútuo; coexistência pacífica), o socialismo de mercado chinês e o sistema regional sinocêntrico são indícios de alternativas emergentes.

Considerações finais

A estruturação do sistema regional sinocêntrico é um elemento-chave da transição sistêmica. Há, pois, quatro grandes questões a analisar relacionado ao tema proposto que moldarão a geografia do poder mundial no século XXI: 1) a capacidade de a China conseguir fornecer soluções sistêmicas às contradições herdadas; 2) as respostas dos EUA à emergência de novas configurações de poder na Ásia; 3) as opções diplomáticas, no âmbito asiático, de Rússia, Índia e Japão diante da hierarquia regional cujo centro se desloca irrefreavelmente para a China e 4) as formas que poderá assumir o sistema sinocêntrico e o socialismo de mercado chinês. Quem viver (e for arguto) verá...

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Referências bibliográficas

ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim – origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2008.
__________. SILVER, Beverly. Caos e governabilidade no moderno sistema mundial. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. UFRJ, 2001.
FIORI, José. O poder global e a nova geopolítica das nações. In: Crítica y Emacipación. primer semestre, 2009, pp. 157-183
FUNABASHI, Yoichi. A asianização da Ásia. In: Política Externa. vol. 2, n°4, 1994, pp.15-21.
GOLDSTEIN, Avery. An emerging China’s emerging grand strategy: a neo-bismarckian turn? In: IKENBERRY, John; MASTANDUNO, Michael. International Relations Theory and the Asia-Pacific. New York: Columbia, 2003, pp. 57-106.
KANG, David. Hierarchy and stability in Asian international relations. In: IKENBERRY, John; MASTANDUNO, Michael. International Relations Theory and the Asia-Pacific. New York: Columbia, 2003, pp. 163-189.
KHANNA, Parag. O Segundo Mundo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
PINTO, Paulo. A China e o Sudeste Asiático. Porto Alegre: UFRGS, 2000.

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Geógrafo e doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)