Artigos

As grandes oportunidades que cria a crise árabe

Mary Stassinákis e Laura Britt Publicado em 15.03.2011

Os novos fundamentos já começaram a mudar a tendência e a - até há alguns dias - disposição otimista dos investidores nos mercados, e isto tem sido revelado de forma bastante eloquente pelas evoluções das bolsas de valores européias e internacionais.

Os conflitos no Grande Oriente Médio, que fizeram com que o preço do petróleo explodisse nas alturas, assim como as fortes preocupações em torno da inflação na Europa, não parecem que tendem a acalmar-se, obrigando assim os investidores a reduzirem sua exposição em "frágeis" ativos que "empurram" os investidores institucionais para outras direções. Prata, ouro, petróleo, os grandes vencedores do pânico.

Analistas confiáveis avaliam que um pequeno sell-off nas ações existia no horizonte, após a gigantesca e prolongada corrida registrada desde o início deste ano, antes de o preço de petróleo ser lançado às alturas de dois anos e meio, aos US$ 120 o barril. O petróleo constitui um grande fator no comportamento das ações e isto foi claramente comprovado há duas semanas, quando, pelo primeira vez depois de 2008, saltou acima de US$ 100 o barril.

A pergunta agora é se o preço do petróleo continuará em evolução ascendente ou permanecerá em níveis altos por longo período, algo que constituirá, indiscutivelmente, um gigantesco obstáculo à evolução da recuperação econômica mundial e, consequentemente, aos mercados.

Hora de comprar

Obviamente, alguns insistem e não alteram seu bullish ponto-de-vista. Assinado por Freddy Erresuma Batva, um de seus analistas, o Merrill Lynch, em relatório enviado aos seus grandes clientes, aconselha-os a comprar agora que o mercado registrou correção, por causa das convulsões nos países árabes.

Batva destaca que "os futuros do indicador S&P 500 foram duramente atingidos nos últimos dias, por causa da reação causada pelas convulsões nos países árabes sobre o preço do petróleo. Aquilo que ocorre neste momento com os produtos no indicador-barômetro dos mercados internacionais é algo que o Merrill Lynch já constatou em passado recente e um análogo sell signal há algum tempo resultou em alta das ações da ordem de 6,2% dentro das quatro semanas seguintes".

O analista conclui que "as desvalorizações encontram-se, também, em níveis excepcionalmente atraentes, considerando que permanecem em níveis muito mais baixos do que a média dos últimos 50 anos. Já a alta que tem sido registrada desde março de 2009, é muito inferior àquela registrada (62%) nos dois anos seguintes de um bear market. Consequentemente, comprem o mergulho do mercado, agora!".

US$ 220 o barril?

O Nomura, em seu relatório da semana passada, destacou que "é visível a eventualidade de o preço do petróleo alçar-se até US$ 220 o barril, se Líbia e Argélia interromperem a produção". Esta previsão decorre das convulsões que atingem os países árabes nos últimos tempos e, particularmente, a África do Norte.

O grupo de gurus do Nomura compara a atual conjuntura - de forte instabilidade política - com a Guerra do Golfo no período 1990-1991, quando os preços do petróleo haviam realizado um salto de 130% em sete meses, enquanto a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) havia reduzido a produção de petróleo em 1,8 milhão de barris/dia.

"Se Líbia e Argélia interromperem a produção de petróleo, então, os preços poderiam atingir, e até superar, os US$ 220 o barril, e a Opep reduziria sua produção em 2,1 milhões de barris/dia em níveis semelhantes àqueles que haviam sido registrados durante a Guerra do Golfo", sentenciam os gurus do Nomura.

Também o Goldman Sachs, que em 2008 havia previsto que o petróleo atingiria os US$ 200 o barril, sinaliza que "após a explosão do preço aos US$ 120 o barril, tudo está em aberto. O risco de nova alta é visível e considerável e quaisquer novas interrupções na produção criarão sério déficit no mercado mundial do petróleo".

Inflação ameaça

A inflação na Grã-Bretanha atingiu 4% em janeiro deste ano, duas vezes acima da meta do Banco da Inglaterra (Banco Central), enquanto na Zona do Euro atingiu alta de 15 meses, em 2,4%, e certamente deverá superar a meta do Banco Central Europeu (BCE), que é inferior a 2%.

Nos EUA, com os níveis da inflação por enquanto hipotônicos, é improvável que o Federal Reserve (Fed) comprima, brevemente, sua política monetária, deixando o país com hot money que tonificará mais a demanda por aço e petróleo pelas economias emergentes.

O Deutsche Bank, em seu último relatório, prevê que "um aumento em 20% nos preços das commodities básicas descontará 2% a 3% do esperado aumento dos desempenhos por ação para as empresas do indicador Stoxx Europe 600, porque as margens se comprimirão".

Já Mike Lenhoff, analista-chefe estratégico de Brewing Dolphin, diz que "o Federal Reserve não deverá limitar o apetite por produtos e serviços nos EUA e, assim, isto alimentará o crescimento mundial e aumentará as já fortes pressões inflacionárias".

Anotem que, historicamente as ações são consideradas investimento ideal, quando os níveis de inflação mantêm-se entre 3,5% e 4%, porque fortalecem os desempenhos por intermédio da dinâmica dos preços. Contudo, o aumento da inflação na Europa provoca preocupações com relação a desvalorizações no que diz respeito o indicador de preço-lucro (P/L), enquanto os custos crescentes, dificilmente serão aceitos.

Dor de cabeça alemã

O novo relatório de Karen Olney, analista estratégica do UBS, revela que os consumidores não se sentem tão alegres e felizes. Olney comenta que "não é nada fácil para as empresas repassarem grandes aumentos aos custos e isto será sentido, também, na bolsa".

O indicador Stoxx Europe 600 do comércio varejista evolui em níveis hipotônicos desde o início deste ano, com o indicador P/L conformando-se em 12,8, em relação com os desempenhos da ordem de 4,8% que registra o maior indicador europeu Stoxx 600, cujo P/L encontra-se em 11,3. Simultaneamente, o indicador europeu Stoxx 600 das matérias-primas negocia-se com P/L em 9,1.

Steffen Weider, economista-chefe do Deutsche Bank, observa que "alguns vêem a Alemanha como um dos países industrializados, no qual o repentino aumento de preços dos alimentos e produtos básicos poderá provocar uma segunda rodada de reações, por intermédio de salários maios altos".

Anotem que a Volkswagen, maior indústria automobilística da Europa, antes ainda deste mês concordou com aumento dos salários de 3,2% para cerca de 100 mil trabalhadores, em comparação com a médio de aumento dos salários em toda a Alemanha, ano passado, de 1,8%. Assim, haverá consideráveis "batalhas dos salários".

Thierry Serejo, administrador de investimentos da Octapus Investments, considera que, "se os investidores começaram enxergando números de inflação mais altos, daqueles que são viáveis, começarão a enxergar, também, que os salários não permanecerão nos níveis em que se encontram neste momento, e isto provocará pânico".

Dados da Thomson Star Mine indicam que os desempenhos por ação para as empresas alemãs de alta e média capitalização deverão aumentar em 15,5% durante os próximos 12 meses, em comparação com 17% que espera-se para a França e 21% para a Grã-Bretânha.

Corrida da prata

Investidores institucionais e hedge funds abandonam nos últimos dias - de qualquer maneira - os mercados de ações e a atração do risco e correramm para se esconder na lucrativa segurança dos metais preciosos - ouro especificamente - assim como prata. Aliás, os hedge funds aumentaram suas apostas a favor da prata, na alta de quatro meses, considerando que os conflitos no Grande Oriente Médio elevaram o metal nas alturas de 30 anos nos últimos dias.

Analistas confiáveis apontam que, "com a situação no Grande Oriente Médio agravando-se dia após dia e com a ameaça da inflação aumentando, o hot-money dos grandes players dos mercados retorna mais agressivo à prata e aos demais metais preciosos".

E prosseguem: "Aliás, a prata constitui uma aposta muito melhor do que o ouro, porque garante maiores possibilidades de alta, além de ser mais barata. O ouro, ao contrário, não tem registrado alguma evolução impressionante, e os grandes investidores caçam neste momento os desempenhos".

O analista da Team Financial Asset Management, James Doyls, considera que "a prata é o investimento absoluto neste momento e é mais atraente do que o ouro. O ouro e a prata já têm adquirido parcela considerável no mercado mundial como depósito de valor (store of value). E a prata tem um argumento a mais, considerando que constitui parcela do crescimento industrial mundial, por causa de uso industrial".

Oportunidade de ouro

Jim Kreimer, analista independente, garante que "neste momento o ouro constitui um dos melhores investimentos. Cerca de 20% de qualquer portfólio de investimentos deverá ser aplicado em ouro. Com tanta incerteza que existe em torno do Grande Oriente Médio, a melhor aposta neste momento é ficar longe das ações do setor de tecnologia, do comércio varejista e dos bens de consumo em geral e insistir em ouro".

"O ouro deverá aproximar-se das históricas altas de dezembro do ano passado", avalia James Moore, analista estratégico da The Bullion Desc, que acrescenta que "a demanda por refúgios seguros para investimentos, os temores em torno da inflação, assim como a forte demanda varejista continuarão incentivando preços mais altos para o precioso metal".

"Os fortes conflitos na Líbia e o aumento de preço do petróleo incentivam a aquisição do refúgio seguro que chama-se ouro e, além disso, os temores em torno da inflação, igualmente, favorecem o metal precioso", sustenta Mark Pervan, do ANZ Banking Group.

_________

Fonte: Monitor Mercantil