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Tempestade de areia na Arábia Saudita

Serbin Argyrovitz Publicado em 15.03.2011

"Cheiro de jasmim" contagia maior produtor de petróleo

Algo não vai bem para a Casa Real dos al Saud na região leste da Arábia Saudita - isto é, ali onde embaixo de seu território encontra-se mais de 80% das reservas de petróleo do país.

No reino da Arábia Saudita, a monarquia absoluta, desde sempre, proíbe não só a existência de partidos políticos, mas, também, reuniões, manifestações e comícios de qualquer natureza.

Mas, apesar de tudo isso, em 25 do mês passado, centenas de jovens nas desconhecidas - no exterior - cidades de Katíf e Sáfua, da região leste, assim como de Awamiyia, saíram às ruas exigindo a libertação de 12 presos políticos.

Estes cidadãos foram presos pelos Serviços de Segurança do país há 15 anos como suspeitos de terem participado do atentado a bomba contra a base norte-americana de al Jabar, em 1996, quando foram mortos 19 fuzileiros navais norte-americanos.

Os 12 foram detidos naquela ocasião, mas, por não ter sido comprovada a participação deles no atentado, permanecem desde então presos, sem terem sido julgados e sequer acusados e processados.

No mesmo dia das manifestações, o árabe-saudita almuadem xiita Tawfik al Amir pediu - durante a prece - a instituição de monarquia constitucional, assim como a decretação da igualdade de direitos entre maioria sunita e a minoria xiita na Arábia Saudita.

Algumas horas mais tarde o almuadem foi preso pelos serviços de segurança, enquanto um grupo desconhecido proclamou a instituição do "Dia de Ira" no país e convocou através do Facebook os jovens para realizarem reuniões, manifestações e comícios, todas proibidas há anos.

Bahrein e Iraque

O problema maior para o rei da Arábia Saudita é que na região leste a maioria da população é xiita, enquanto no total da população do país o percentual de xiita não supera os 15%. Xiita também é maioria da população no pequeno estado ilhéu de Bahrein, onde a população já se levantou e exige a saída do rei (sunita) Hamad bin Isa al Califa.

Conseguindo seu objetivo ou sendo massacrada pela polícia e o exército do Bahrein, sua sorte, seguramente, contaminará a vizinha população xiita da Arábia Saudita, onde muitos de seus membros tem parentes e amigos em Bahrein.

Ainda pior para a Casa Real dos Saud é o fato de que no outro lado da fronteira norte da região leste residem milhões de xiitas do Iraque, preparados e dispostos a atravessarem armados a fronteira aos milhares para ajudar os xiitas árabes-sauditas se o rei Abdala tentar massacrá-los, caso eles se insurgirem influenciados pelas evoluções em Bahrein ou por razões próprias.

E razões próprias para se insurgir a minoria xiita da Arábia Saudita tem muitas, considerando que a maioria sunita do país a trata da pior forma possível. Em consequência, os xiitas árabes-sauditas, embora em suas regiões exista quase o total das reservas de petróleo do país, vivem em condições de pobreza, em grau muito maior do que os sunitas árabes-sauditas.

E como se tudo isso não fosse suficiente, no lado oposto da fronteira, bem em frente da região leste da Arábia Saudita, seu vizinho é o Irã, com mais de 70 milhões de habitantes, o qual, em caso de insurgência dos xiitas da Arábia Saudita, seguramente intervirá, armando inclusive as multidões de xiitas do Iraque.

Fluxo de petróleo

Em outras palavras, assim que eclodir o levante dos xiitas, a Arábia Saudita se transformará em um inferno de dimensões mundiais, com o preço do petróleo sendo lançado às alturas. O rei Abdala decretou a concessão de aumento salarial de 15% aos funcionários públicos, aumentou drasticamente a concessão de empréstimos habitacionais e ordenou o alívio das dívidas das famílias, gastando no total um pacote de mais de US$ 35 bilhões, esperando assim evitar a próximo explosão social também na Arábia Saudita.

Paralelamente, contudo, cresce a pressão da sociedade árabe-saudita contra o totalitarismo. Mais de 2.500 destacados cidadãos, liderados pelo maior teólogo do país, Salmán al Audaq, subscreveram declaração pública exigindo monarquia constitucional e liberdades individuais e políticas, enquanto 580 intelectuais árabes-sauditas subscreveram uma declaração pública à parte, exigindo as mesmas reivindicações.

A monarquia da Arábia Saudita levará o mundo inteiro à beira de evoluções de pesadelos se tentar conter a insurgência no país massacrando os xiitas árabes-sauditas da petrolífera região leste, ao invés de proporcionar-lhes isonomia, vida com dignidade e liberdades.

O óbvio envolvimento do Irã e do Iraque neste caso resultará em invasão da Arábia Saudita pelos EUA (e talvez pela Otan) e ocupação militar dos poços de petróleo com objetivo de garantir o fluxo do petróleo ao Ocidente.

Mas, simultaneamente, provocará a eclosão de guerra total do Ocidente com os países árabes e o Irã, envolvendo no conflito forças militares de milhões de homens. Cenário de pesadelo provocado pelo regime autoritário árabe-saudita, aliado dos EUA.

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Fonte: Monitor Mercantil