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Líbia: insurretos recebem ajuda secreta de Israel

Serbin Argyrovitz Publicado em 10.03.2011

A situação na Líbia não evolui de acordo com os planos e as expectativas do Centro Nacional Líbio, que organizou a insurreição armada contra o regime de Muamar Kadafi, em contatos e entendimentos havidos com vetores externos do país.

O líder líbio já perdeu metade do país, a região leste de Cyrenaica, com epicentro a cidade de Benghazi, mas absorveu o choque inicial pela surpresa da ressurreição organizada e já iniciou a organizar sua defesa na região oeste de Tripolitânia, com epicentro a capital do país Trípoli.

Sua cabeça-de-ponte, naturalmente, a capital Trípoli, com pontos cruciais da região que controla, a Sirt, a qual corta ao meio o litoral líbio, e a Sabha, nas profundezas do deserto do Saara, a qual garante os poços de petróleo situados no oeste da Líbia e, simultaneamente, permite o fortalecimento do regime com combatentes das tribos do deserto e mercenários da Argélia, Niger e Chad, assim como de qualquer outro país africano.

O regime de Kadafi não desabou enquanto durava a surpresa, e agora sua derrubada pelas armas é, claramente, bem mais difícil. O caráter organizado da insurgência armada na Líbia, cuja natureza não tem nenhuma relação com os espontâneos levantes populares de massas desarmadas na Tunísia, Egito, Bahrein, Omã, Jordânia e Iraque, incluía também plano de guerra psicológica, o qual confundiu a opinião pública internacional com relação aos reais fatos no campo dos choques armados, sugerindo que as forças anti-Kadafi eram muito mais fortes do que a prática demonstrou.

EUA recuam?

Agora é preciso aguardar para verificar se o início de recomposição militar do regime na região oeste do país, revelado nos últimos dias, e a realização de ataques das forças de Kadafi contra cidades da região de Cyrenáica, que encontram-se sob o controle dos insurretos, constitui o "canto de cisne" militar do regime ou, ao contrário, significa a gradual recuperação de seu poder no setor militar quando, então, crescerão as possibilidades de o país ser envolvido em prolongada guerra civil.

Até há alguns dias, os insurretos eram, decisivamente, contrários à intervenção militar dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país. E os motivos eram óbvios: por um lado, não queriam parecer como mercenários dos EUA e da Otan, os quais, os constituiriam - pelas armas - como governantes da Líbia, a exemplo de como fizeram com Hamid Karzai, no Afeganistão; por outro, porque tinham confiança em suas forças e acreditavam que poderiam sozinhos derrubar Kadafi, sem ajuda de "estrangeiros".

Porém, de uma hora para outra, aconteceu uma mudança impressionante. Os EUA e a Grã-Bretanha fizeram uma guinada espetacular, depreciando drasticamente as possibilidades de assumirem o imbróglio de uma ação militar contra Kadafi, constatando, eventualmente, que a parcial recomposição da força militar do regime tornaria sua intervenção militar sensivelmente muito mais sangrenta do que avaliavam inicialmente.

Risco de assassinato

Ao contrário, o Conselho Nacional de Representantes das forças de Cyrenáica contra Kadafi fez, também, uma guinada de 180 graus e pediu, publicamente, aos EUA e à Otan para bombardearem o exército de Kadafi. Como era de se esperar, este pedido foi interpretado como confissão dos insurretos já duvidando que eram capazes sozinhos de derrubar Kadafi.

Em nível político, esta guinada radical do Conselho coincidiu com o fato de seu líder e até há 15 dias ministro da Justiça do regime, Mustafá Abdel Jalil, contra quem pesam suspeitas de que mantinha contatos com EUA, Israel e Egito muito antes da eclosão de insurreição armada, enquanto era ainda ministro da Justiça do país.

É muito cedo, ainda, para se definir se a tendência de divisão da Líbia em duas será concretizada ou se os EUA e a Otan, com a ajuda secreta de Israel, conseguirão, com alguma operação secreta, assassinar Kadafi ou derrubá-lo com golpe de Estado palaciano, "comprando" seu círculo pessoal e seus pretorianos.

Seja lá como for, aos EUA e à Otan só interessa o petróleo da Líbia, mas, para o país e seu povo, são indiferentes (exemplos Afeganistão e Iraque). Assim, podem aceitar uma prolongada e sangrenta guerra civil, desde que não sob Kadafi vivo.

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Fonte: Monitor Mercantil