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Recompor memórias e relações sociais da/na clandestinidade

Eneida Canêdo Guimarães dos Santos (1) Publicado em 26.01.2011

Ativista política desde o período da Ditadura Militar, há tempos pensava retornar a Itanagé distante uns vinte minutos de Livramento de Nossa Senhora, distrito situado no pé da Chapada Diamantina, onde vivi como 'Isabel', nome adotado na militância clandestina. À época,trocar a identidade garantiu segurança de vida, morar em Itanagé, a constituição de base popular de apoio. Acompanhava o militante foragido da polícia política, o 'Nelson'2, perseguido e procurado pelos milicos.

Escapamos da repressão ciente que arriscávamos a pele, mas persistimos na luta política. Nesse período nasceram os filhos3 Mauro, Jorge e Maurício. Depois de 36 anos, o que me esperava? Retomar o contato com as pessoas que relacionei na década de 1970, saber sobre o lugar no qual constitui família quando não me era permitida relacionar com parentes e amigos do local de origem, Goiânia, de onde havia saído após legar a presidência do Diretório Central dos Estudantes (DCE) ao sucessor.

No tempo militarista, apesar do jargão oficial de "o país precisava crescer e depois dividir", o povo vivia dificuldades. O chamado Milagre Econômico do "país que vai pra frente" era aumento da dívida externa, e o Brasil cada vez mais dependente; além da falta de liberdade de expressão. A doutrina de segurança nacional do Gel Golbery do Couto e Silva afirmava que "o inimigo da pátria não era externo, era interno". Anos de chumbo, prisões, torturas e assassinatos de pessoas que buscavam outro Brasil para os/as brasileiros/as. Então, restou a integração na produção. Decidimos morar no campo.

O trabalho do plantio de arroz à meia em Itanagé deixava as famílias pendentes no fiado das vendas. Muito trabalho, e na colheita a metade do produto era do dono da terra. Era um vivência modesta. Vivi os tempos da lata d'água na cabeça, líquido trazido da fonte até a casa para beber e servir. Noite iluminada pelo fio de luz da lamparina a querosene. Coloria o luar, caso da noite que fiquei com a vizinha enquanto seu marido foi buscar dona Joaninha, a única parteira do Distrito. Sua demora fez com que eu inaugurasse o ofício de parteira; daí então ajudei a povoar o lugarejo. A escola improvisada, de dia ensinava as crianças e à noite à luz do lampião, aos adultos.

Gasto minguado, dinheiro escasso comprava tudo 'contadinho' para o consumo da semana. Alegria quando aparecia uma verdura vinda lá do alto da serra nos dias de feira. Nelson montava uma barraca de restauro de relógio, eu vendia flores que fazia, entregava uma costura encomendada e acertava outra. Hora dos contatos. Conversar com os moradores sobre o presente, a união e luta por mudanças e o futuro que prometia.

Preparando-me para a viagem, desenhava na lembrança o Mercado rodeado por quatro ruas de casas de morada além da sede do sindicato, o cartório, a farmácia, as vendas e bares, as barbeirarias. Um pouco abaixo o largo onde se localiza a Igreja, casas dos primeiros moradores, o campo de futebol, o alagadiço à beira do rio onde se fazia o adobe. Atravessando a ponte, à direita rumo à estrada até a fazenda dos Louzada's onde Mauro buscava o leite. Antes de chegar ao curral a casa de adobe, a morada que construímos.

Levava comigo a foto tirada por Ronald Freitas em setembro de 1974 (acima à direita), e (à esquerda) a da festa de outubro de 1974 quando havíamos batizado os três filhos e seis afilhados. Os adultos alinhados à frente do altar em duas fileiras, em seguida as crianças, filhos/as do lugar, hoje, pais de outras crianças. Não sabia quem iria encontrar e perguntava-me, depois de tanto tempo sem dar notícias e sem ouvir sobre, se as pessoas lembrar-se-iam da Isabel, dos filhos e do Nelson? Preocupava-me devido à forma como saímos de lá, inesperadamente4, com a roupa do corpo e os filhos. Dias depois o Euler (era outro o seu nome) esteve lá e vendeu tudo.

Daí então, mudanças ocorreram. Conquistamos a Anistia. Diretas Já. Caiu a Ditadura. Eleições para presidente: três tentativas e elegemos Lula; reelegemos o operário sindicalista. Agora elegemos a primeira mulher para a Presidência da República. De 16 a 25 de novembro de 2010 retomei os contatos com as pessoas de Itanagé. Poucos dias, agradáveis e inesquecíveis. Lembraram e perguntaram por todos, pelo Nelson, o fotógrafo Jorge, o jovem falador (o Euler), o Arlindo e a Júlia. O Ulisses (ex- prefeito de Livramento) perguntou por Ana Martins e Antônio seu saudoso esposo.

Chegada em Livramento: Alojei-me na Pousada do Sol e tendo conhecimento de uma pessoa de nome Celeste ex-moradora de Itanagé, fui procurá-la. Entabulando conversa mostrei-lhe a foto referida acima e ela reconheceu algumas pessoas, entre as quais a Edna (uma das minhas comadres), me informou que sua cunhada Valdice trabalhava no Hospital. Celeste perguntou-me de que família eu era em Itanagé e devido à negativa, indagou se tinha propriedade lá, e novamente, a negativa, não conteve e perguntou, "mas, o que você vai fazer lá?" Então, eu respondi "encontrar as pessoas que há muito não tenho notícias, fazer uma revelação a elas sobre o motivo porque estava vivendo naquele lugar e por que saí tão subitamente. Quero agradecê-las, revelar-lhes o quanto elas foram especiais". Celeste não compreendeu. Mas eu devia uma satisfação a essas pessoas que me receberam num momento de perseguição política às pessoas que não concordavam com o regime vigente.

Lutadores pela conquista de liberdades; alguns dizimados em plena vida produtiva, como Jorge Leal Pereira. Jovem engenheiro eletricista, que se deslocou para o Rio de Janeiro, preso e, até então, não se tem notícias do seu corpo. Antes de me instalar em Itanagé, Jorge em Salvador, me apresentou o PCdoB (em sua homenagem o nome do segundo filho).

No outro dia fui ao encontro de Valdice, não a encontrando no Hospital, fui até sua casa. Assim como fiz com Celeste, repeti com Valdice; apresentei-me como uma antiga moradora de
Itanagé e lhe mostrei a foto do batizado de 1974 e logo ela reconheceu pessoas. Adiantei-lhe: "eu também estou na foto". Ela olhava a foto e me conferia no rosto, novamente o olhar da
foto a meu rosto, e, outra vez, então perguntou: "É Isabelinha?"

Do lado de fora da grade disse "sim" e com um largo sorriso, um abraço carinhoso, me levou pra dentro de casa e botamos o papo em dia. Valdice de Souza Caíres, viúva de Antônio, filho de Vital Antônio de Caíres, Oficial do Cartório da Comarca de Livramento em Itanagé (também falecido). Lembrou quando seu filho adoeceu e eu o levei até ao hospital; ela não tinha forças para encarar a situação (um surto de meningite), que o levou a falecer. Apresentou-me aos filhos Adriana (foto) e José e a neta Geovanna.

Esses já conheciam a Isabel por ouvir a mãe falar como uma "mulher servideira, fazedeira do bem" como ela explicou sobre a lembrança que deixei por ser prestativa nas horas difíceis. A Fátima sua vizinha (irmã da Edna) veio até sua casa, lembrando outros momentos. Lembrou-se de como eu preparava a comida dos filhos, como eles eram fortes e sadios, e como lhes ensinava sobre as riquezas dos alimentos. Fátima pediu para que seu filho Renato me acompanhasse no outro dia até Itanagé. Foram muitos momentos de alegria.

Ao chegar percebi a ampliação do lugarejo. Entramos num bar bem equipado. Bar do Beto, um dos filhos do compadre Nico e comadre Nicinha, os padrinhos do Maurício. Vim saber da morte de sua mãe. Esse ao ver Nicinha na foto disse que minha comadre expressava o desejo de ainda me encontrar. O que não foi possível. Fomos então, para a casa da comadre Lucília viúva do compadre Carmelino e madrinha do
Jorge. Mora no mesmo lugar do lado do Sindicato dos Trabalhadores, em frente ao Mercado.

Comadre Lucília não estava em casa. Fui até ao Sindicato onde a Maria de Júlia se encontrava. Ela se lembrou do Nelson, falou da falta que ele fazia, pois, segundo ela, fez muita coisa funcionar no sindicato. Reportava as aposentadorias que encaminhava junto ao Gomes. Saí com Maria de Júlia até ao Poção passando pela Igreja (foto). Encontramos a filha do compadre Zinho e da comadre Dinalva, a Delma que já sabia que eu estava no Distrito. Delma me falou sobre minha afilhada, sua irmã Zu que mora em Livramento. Não a encontrei dessa vez.

Chegamos à casa de Dina, Brandina de Zé Braz. Não me reconheceu, mas, ao se informar não queria que eu fosse. Os pais (falecidos) não permitiram que ela casasse com quem queria. Hoje aposentada, tem uma filha deficiente a qual cria sozinha. O pai é morador de Itanagé, não reconheceu a filha e ela disse que não se importa. Não há sentimento entre eles. Ela está bem com a filha.

Então, o Hélio (foto à direita) um dos meus alunos chega, fala da saudade das aulas e daquele tempo. Com ele sigo caminho e encontro o compadre Nico da finada Nicinha (na foto à esquerda com o filho Adão). Compadre Nico lembrou-se das discussões que fazíamos ao desvendarmos à injustiça quando todos da família trabalhavam no plantio do arroz e ficavam somente com a metade da colheita, a outra parte era do dono da terra. Ao que nós chamávamos "método das contas". Conheci ainda seu filho Paulo que continuou o ofício de barbeiro e depois encontrei com a Eva, sua filha. Seguindo a caminhada, paramos na casa de Joaquim de Víteo, hoje com mais de 90 anos. Ele me reconheceu pela voz. Hélcio e Lúcia na foto com o pai.

Passamos pela casa da Luzia (filha de Dona Judite), surpresa, não acreditou que estaria ali. Levou-me a sua mãe, a velha Judite passa dias na cama. Esta me deu um abraço, perguntou pelo Nelson. Percebi sentimentos carinhosos nesses corações e mentes ao se referirem ao tempo que vivemos ali. Visitamos Alzira e minha afilhada feliz em me ver, abraçamos e a fotografei junto à comadre. Fomos até a comadre Áurea e seu filho Zé, também ex-aluno. Meu afilhado Eduardo, infelizmente falecera. Zé lembrou-se da cartilha que estudávamos.

Notei no percurso a extensão da rede elétrica que leva energia as moradas e raros terrenos com cerca de quiabento. Não há uma cabra no campo, criatório antes dominante. Parei na casa que construímos e moramos. A fachada é a mesma. Mas era outra. Hoje de João de Ester. Ampliada, mais quartos, nova cozinha, banheiro dentro. Depósito do lado, o quintal de palma. O rio que me banhava está seco, um fio d'água. À noite, nada de lamparina.

De volta com Dina à casa de comadre Lucília proseamos até tarde sobre pessoas e histórias. O falecimento do compadre Carmelino, os filhos que moram em São Paulo, o tratamento da Lia. Lembrou-se das festas no Mercado, do Nelson tocando sanfona e o Ordálio cantando. Contou-me que esse tanto cantava como bebia, e assim morreu. Conversou sobre o trabalho na igreja, a feira que mudou de sábado para os dias de domingo. Falou da carta que lhe escrevi e não sabia como responder, e da saudade por não ter mais enviado notícias.

Ao lhe explicar sobre o porquê da clandestinidade, achou incrível. Admirou, quase não acreditou, e continuou a me chamar de Isabel. Recebi a visita de várias pessoas, o Deca, irmão de Ordálio; o Aparecido da comadre Helena (meu afilhado de fogueira), que me convidou para almoçar. Na casa de comadre Helena me aparece outra aluna, a Socorro. Com ela uma mulher, e pergunta-me se eu a conheço. Era impossível depois de tanto tempo, pedi que me contasse de quem se tratava. Nada mais que a menina que carrego no colo na foto do batizado: Roseli filha de Zita, minha afilhada, hoje jovem mãe.

Comadre Helena, surda, falando baixinho, muito frágil se dirige a mim depois que lhe tirei uma foto junto com comadre Lucilia e me pede que tire outra, mas, ela sem os óculos. A foto seguinte está dona Lilica, seu Arlito de Souza Carvalho o farmacêutico e eu. Convidaram-me para almoçar e tivemos uma conversa saudável, Lilica comentou sobre aqueles tempos. Vilma, uma de suas filhas lembrou-se de uma vez que eu lavava roupa, ela e suas irmãs observavam, pois eu sentada num banquinho dentro do rio batia a roupa na pedra. Diz ela, que, quando percebi que elas me olhavam disse-lhes que logo acabaria e poderia emprestar o banquinho a elas. Elas se admiraram, pois ninguém lavava roupa no rio sentada em um banquinho...

Recebi a visita do Doquinha, hoje casado, pai e avô, ainda dono de comércio, bem sucedido, embora sua simplicidade. Sua filha também tem comércio em Livramento. Seu estabelecimento, não é mais aquela vendinha pequena que existia à época, mas um comércio promissor. Visitei dona Augusta. Lembrou que a ensinei a escrever o nome, agradeceu. Feliz, falou da aposentadoria encaminhada pelo Nelson. Coisas que mudaram sua vida.

À noite fomos ao clube, um terreno cercado de muro tendo céu e lua por telhado, a pista de dança, um palco coberto e uma área que se liga ao bar. Esse com atendimento ao clube e para a rua.
Era a festa escolar da consciência negra, uma homenagem a presença da raça negra e sua contribuição na formação do povo brasileiro. No clube encontrei muitas pessoas, inclusive o exprefeito
de Livramento o Ulisses, que me apresentou à 1ª Dama.

No outro dia fomos à casa da Dalvina. Depois com comadre Dinalva e seu filho Vilson, hoje casado com Maria Zilda, da comadre Áurea. Comadre Dinalva feliz ao me encontrar primeira foto à direita), vê-se no fundo a casa que dei as primeiras aulas. Então cheguei à fazenda dos ouzada's, conversei com Ana, comemos bolo. À noite jantei na casa do compadre Nico e ua atual esposa, a Dadá. Contam que antes de se casarem e fazerem famílias eram namorados, ao ficarem viúvos resolveram se juntar. Fiquei até tarde com Eva e seu esposo.

Domingo (21) na feira encontrei várias pessoas do alto da serra. Outras que moram em Livramento e vieram me visitar. Como o Leônidas de Vasconcelos Pereira, o Lézinho, na época em que morei em Itanagé, era dono do único veículo que fazia rota de Itanagé para Livramento. Com ele o irmão Evaildo Vasconcelos dos Santos, meu ex-aluno. Trouxe a lembrança quase toda a turma. E uma novidade, hoje é filiado ao PCdoB.

De volta a Livramento falei por telefone com outra afilhada, filha dos compadres Waldelice e Antônio de Tantão (ambos falecidos), a Aureni Neves moradora de São Paulo. Encontrei também Marlene, irmã de Vilma do Arlito e Lilica. Ela disse que quando tiveram notícias dos movimentos pela abertura política no país, embora, nós não estivéssemos mais em Itanagé, chegaram a comentar que fizéssemos parte desse movimento. Disse que desconfiava porque vivíamos inventando coisas alheias ao costume do lugar. Como a gincana que realizei na escola, a organização dos chás de casa, a criação do clube para os jovens terem um espaço de encontro, as discussões sobre a luta do povo e outras idéias... Não se enganou. Na segunda (22) viajei com Zé de Valdice para Guanambi para encontrar os padrinhos do Mauro, comadre Edna e compadre Dozinho. Foi um encontro agradável, eles têm uma numerosa família. Conversamos muito, conheci seus filhos, comadre Edna sempre animada. À noite segui para Salvador onde fiquei na cada de Julieta. Encontrei Joviniano Neto e muitas pessoas queridas.

No entanto, não me saia do pensamento as mudanças na vida da região visitada comparada aos tempos que lá vivi. Energia e abastecimento de água; o clube; lojas; escola de ensino fundamental; veículos oportunizando transito. Moradores beneficiados com programas federais de renda mínima, além das aposentadorias, exercendo direitos e melhorias de condições de vida.

Perguntados, ratificaram que as mudanças ocorreram desde que Lula ocupou a Presidência da República. E reconhecem "nada acontece sem a luta do povo". Com Dilma Rousseff, a primeira mulher Presidenta do Brasil, esperamos avançar nas mudanças! Isso significa continuar a luta...

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1Filha de Goiás, mãe fazendeira e pai paraense. Iniciei militância política em Ação Popular. 1965/1968 cursei pintura na Universidade Católica de Goiás. Vivi a clandestinidade de 1968 a 1979. Hoje Anistiada Política e dirigente do PCdoB Pará.

2 Marcos C. Panzera preso em 1967 pelo envolvimento com a organização dos camponeses de Itauçú em Goiás. Fugiu do último andar do prédio onde se instalava o DOPS-GO. Anistiado Político, dirigente do PCdoB Pará.

3 Mauro Guimarães Panzera nasceu na Maternidade Climério de Oliveira, 1969 em Salvador; Jorge e Maurício no Hospital em Livramento de Nossa Senhora, respectivamente em 1971 e 1973.

4 Quando ocorreu a queda dos combatentes do Araguaia no Bico do Papagaio, guerrilha dirigida pelo PCdoB.