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Pão para a boca

Anabela Fino Publicado em 14.01.2011

A Rússia viveu o ano passado a pior seca dos últimos 50 anos. A Austrália sofre inundações gigantescas num território do tamanho da França e da Alemanha que já afectam mais de 200 mil pessoas.

Estes dois casos, que concitam natural consternação em todo o mundo, são noticiados entre nós como incidentes longínquos, terríveis e devastadores para as vítimas directas mas sem quaisquer consequências para as nossas vidas. E no entanto... seja no respeitante ao pão que comemos ou à carne que pomos na mesa, para dar apenas dois exemplos, não é de somenos o que se passa na Rússia, na Austrália e em muitos outros pontos do globo, pela simples razão de que temos de importar praticamente tudo o que consumimos em matéria de cereais (incluindo para alimentação de gado), porque temos de importar mais de 60 por cento da carne (a de bovino é toda importada e quanto à de aves e de porco só em parte Portugal satisfaz as suas necessidades), porque importamos todo o açúcar que consumimos, porque o olival (só há pouco tempo se voltou à plantação) não chega para as encomendas. Numa palavra, Portugal enfrenta um sério problema de soberania alimentar que não pára de se agravar: na última década o défice alimentar cresceu 23,7 por cento. Hoje, 70 por cento do que consumimos é importado.

A explicação para tal estado é conhecida. Como afirmou há dia o director-geral da Federação das Indústrias Agro-alimentares (FIPA), esta situação é fruto de «anos e anos de uma política agrícola comum (PAC) que nos fez desinvestir na produção».

As consequências estão à vista, seja quanto à dependência do estrangeiro para provirmos às nossas necessidades, o que se traduz numa efectiva perda de soberania, seja nos custos que tal representa para a economia nacional: apesar do aumento das exportações nos últimos 10 anos, as importações subiram mais de 50 por cento, representando quase o dobro do que se exporta (dados do INE).

Quer isto dizer, em linguagem crua, que nos endividamos para comer. Mais grave ainda, para comer o que podíamos produzir. A culpa morre solteira, diz-se onde não se assume responsabilidades, mas os culpados andam todos por aí, bem instalados no poder político e/ou económico, fingindo nada ter a ver com a PAC, fazendo de conta que não mataram a Reforma Agrária, que não destruíram a indústria e as pescas, travestidos de defensores da Pátria e insistindo nas políticas que estão a levar Portugal para o abismo, apelando ao «sacrifício de todos» para impor mais exploração e miséria aos trabalhadores e ao povo português. Os culpados de ontem e de hoje, que escarnecem do PCP e da sua campanha Portugal a Produzir ou – na melhor das hipóteses – os silenciam, são os mesmo que querem continuar amanhã no poleiro do poder, não se cansando de apregoar as suas públicas virtudes para melhor esconder os muito (e muitos) secretos podres.

Se a hipocrisia pagasse imposto, bastava uma campanha eleitoral para resolver o défice. Não é o caso. A hipocrisia cobra, e muito, aos portugueses que se deixam enganar. O resultado, amargo, está à vista, e não é pela falta de açúcar. A exigir, como pão para a boca, uma ruptura decisiva.

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Fonte: jornal Avante!