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A Bulgária da presidente e eu

Júlio Medaglia Publicado em 10.01.2011

Foi a música que me levou a conhecer esse país, onde regi inúmeras orquestras; aprendi a admirá-lo por sua riqueza artística e suas grandes vozes

Quando criança, minha mãe dizia que a Bulgária era o país que produzia o melhor iogurte do mundo. Depois de algum tempo, mudamos para a Lapa e, num bairro vizinho, a Vila Ipojuca, esse país imaginário passou a ser, para mim, um nome de rua: rua Búlgara, próxima a um descampado onde eu jogava futebol com os amigos da escola.

Mais tarde é que soube que na região havia colônia búlgara, mas fui logo advertido por meus pais e tios -de origem italiana- de que não deveria brigar com eles. "Os búlgaros usam facas nas brigas..."

Foi a música, porém, que me levou a conhecer esse país, onde regi inúmeras orquestras. Aprendi a admirá-lo por sua riqueza artística, apesar da modesta situação econômica. Excelentes orquestras, uma casa de ópera de absoluto nível internacional e escolas de dança e de instrumentos de corda de fazer inveja a qualquer país do mundo, razão pela qual inúmeros brasileiros para lá se dirigem para estudos.

Meu objetivo maior na Bulgária era o de montar na Ópera Nacional uma obra de Carlos Gomes, um dos maiores compositores de óperas do mundo, infelizmente marginalizado pela história, pelo fato de suas partituras não terem sido reimpressas pelos editores italianos.

Em 1992, ao reger um concerto com a orquestra da Rádio de Sófia, convidei o diretor da Ópera, Plamen Kartaloff, para assistir a essa apresentação. Nela, consegui programar trechos de "O Guarani".

Não só o sucesso da noite foi a obra de nosso maior compositor do século 19 como o diretor da ópera saiu convencido de que se tratava de mestre de nível internacional.

Confesso que "tremi na base" quando ele me confirmou que, na temporada de 1996/97, época das homenagens ao compositor pelos cem anos de seu falecimento, iríamos montar "O Guarani".

Imediatamente comecei a imaginar o timbre daquelas vozes insuperáveis interpretando nosso gênio crioulo do século 19, vozes de ícones históricos, como Ghena Dimitrova, Boris Christoff, Eva Georgieva ou Nicolai Ghiaurov, todos nascidos naquele palco. Talvez as pessoas não saibam por aqui, mas a Bulgária produz cantores como o Brasil produz jogadores de futebol.

"O Guarani" foi um sucesso deslumbrante, e eles depois montaram "Fosca" e "Maria Tudor", do mesmo autor. Regendo praticamente todos os anos na Bulgária, desenvolvi um grande afeto com relação às pessoas e à vida daquele país.

Aliás, na temporada de 2006/ 2007, regi um concerto com a Filarmônica de Sófia no qual executei o "Choro nº 6" de Heitor Villa-Lobos.

Como curiosidade, quero acrescentar que havia nesse concerto na Sala Bulgária um modesto e simpático engenheiro, um agregado à colônia brasileira da cidade, chamado Luben Russév.

Ele me disse, após o concerto, que tinha uma irmã brasileira muito importante -que, inclusive, num momento de dificuldade, lhe havia mandado dinheiro.

Quando soube de quem se tratava, disse a ele que sua irmã, mais que "importante", poderia vir a ser presidente do Brasil, pois era a favorita de Lula. Luben morreu de rir e assim nos despedimos. Infelizmente, ele veio a falecer em meados de 2007 e não teve a oportunidade de saber que minha previsão não estava tão errada...

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Regente sinfônico formado pela Escola Superior de Música da Universidade de Freiburg (Alemanha), foi diretor dos Teatros Municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo, do Centro Cultural São Paulo e da Universidade Livre de Música. É autor do arranjo original da música "Tropicália", que deu origem ao movimento.

Fonte: Folha de S. Paulo