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Rumores de recuperação e tabus políticos

Richard D. Wolff Publicado em 04.01.2011

O fim de 2010 trouxe uma retórica renovada da parte de Washington, de alardes do media e também de declarações académicas acerca da "recuperação" da economia estado-unidense. Nós já as ouvimos antes, desde que fomos atingidos pela crise em 2007. E elas sempre se demonstraram erradas. Mas os rumores acerca de uma recuperação são úteis para alguns. Os republicanos afirmam que o governo deveria fazer menos uma vez que a recuperação está a caminho (para eles, naturalmente, a acção do governo é sempre contraproducente). Da mesma forma, republicanos e muitos democratas centristas afirmam que não são mais necessárias políticas de distribuição do rendimento porque recuperação significa crescimento, o qual faz com que todos obtenham uma fatia maior de um bolo em expansão económica. O alarde acerca de uma recuperação também ajuda a administração Obama a dizer que as suas políticas estão a ter êxito

Mas isto é mais fantasia do que realidade. Afinal de contas, cerca de 20% da força de trabalho dos EUA que ficou desempregada ou sub-empregada em 2009 permanece assim quando entramos em 2011. Não há recuperação aí. Pior ainda, um quarto daqueles que encontraram trabalho desde que a crise começou obtém apenas empregos temporários sem benefícios. Em segundo lugar, as acções de arrestos por parte dos bancos – incluindo aqueles bancos que obtiveram a maior parte dos salvamentos do governo – continuam a expulsar milhões das suas casas. Nenhuma recuperação aqui, tão pouco (excepto para os maiores bancos). Em terceiro lugar, considere porque (1) o Federal Reserve no mês passado decidiu criar mais US$600 mil milhões de dinheiro novo e (2) o Congresso e o presidente acordaram este mês num estímulo fiscal adicional (estendendo os cortes fiscais de Bush, reduzindo retenções da segurança social em 2011, etc). Eles dão esses passos porque todos os salvamentos anteriores, facilidades monetárias, isenções fiscais e estímulos fiscais do governo fracassaram em finalizar esta crise. Estão imunes ao reconhecimento de que mais das mesmas políticas que fracassaram antes podem fracassar outra vez.

Ainda mais importante é que o ruído acerca da recuperação desvia a atenção de um fracasso mais básico do nosso sistema económico: a sua instabilidade fundamental. "Períodos de baixa" recorrentes – que nem as actuações privadas nem as do governo alguma vez conseguiram impedir – impõem custos maciços à sociedade. Eles mergulham milhões de trabalhadores efectivos e produtivos no desemprego, com os resultantes desastres pessoais, familiares e de comunidades. Os governos espremem os bolsos colectivos dos seus países sobretudo para resgatar apenas os capitalistas privados que foram os grandes contribuidores para as crises e cuja riqueza os isola dos piores efeitos das mesmas. Portanto os governos voltam-se para os seus povos a fim de impor as medidas de austeridade (cortes em programas sociais, na segurança social, etc) necessárias para restaurar orçamentos do estado arruinados por estes enormes custos de recuperação. Tal como alguém condenado pelo assassínio dos seus pais a pedir clemência por ser órfão, a América corporativa pede governo conservador e austeridade devido ao défice orçamental excessivo.

O último meio século sugere uma análise da crise muito diferente e consequentemente uma resposta diferente para 2011. Desde o princípio da década de 1970, os aumentos de salários dos trabalhadores acabaram, os seus benefícios e segurança de emprego recuaram e os apoios do governo para a média das pessoas caiu sob o ataque conservador. Estes aumentos do fardo foram justificados como absolutamente necessários para permitir mais investimento e portanto maior crescimento económico. Um bolo económico maior proporcionaria portanto mais para toda a gente, incluindo trabalhadores. De facto, o crescimento nos EUA e na Europa reduziu-se constantemente ao longo daqueles anos (ver gráfico abaixo do Prof. Pasquale Tridico, da Universidade de Roma).



Enquanto as condições dos trabalhadores deterioravam-se, os excedentes e os lucros capitalistas aumentavam e o mercado de acções disparava. O rendimento e a riqueza foram redistribuídos dos pobres e das camadas médias para os ricos. Mas os resultados prometidos nunca se materializaram: nem mais investimento nem maior crescimento económico. Como mostra o gráfico, o crescimento realmente enfraqueceu e a seguir todo o sistema implodiu numa crise catastrófica.

Os rumores actuais acerca de recuperação acompanham acções governamentais que em 2011 repetirão mais salvamentos, facilidades monetárias e estímulos fiscais que desde 2007 se demonstraram insuficientes. Nenhuma destas acções ousa questionar, e muito menos tratar, de como o capitalismo redistribuiu rendimento e riqueza nas décadas que conduziram à crise ou como aquela redistribuição contribuiu para a crise. A recuperação que está a ser planeada e alardeada objectiva um retorno à economia dos EUA anterior ao crash. Contudo, aquele capitalismo era como um comboio a correr rumo à muralha de pedra da crise. Retornar a um capitalismo pré-crise é um risco de retomarmos nossos lugares num comboio semelhante destinado a um crash semelhante.

Os políticos republicanos e os seus sósias democratas não ousam ligar esta crise a um sistema económico que nunca cessou de produzir estas "baixas económicas" que custam regulamente tantos milhões de empregos, desperdícios de recursos, produções perdidas e vidas prejudicadas. Para eles, o sistema económico está para além do questionamento. Eles curvam-se diante do tabu inconfesso: nunca criticar o sistema do qual dependem as suas carreiras.

Portanto, esta crise e o seu fardo continuarão até que os capitalistas vejam oportunidades de lucro suficientemente atraentes para retomar o investimento e contratar pessoas nos EUA e alhures. A liberdade de os capitalistas dos EUA ganharem um apoio governamental tão imenso quanto o necessário e ainda de investirem só quando, onde e como puderem maximizar os seus lucros privados está acima de tudo: é a primeira obrigação do governo. A liberdade para combater a penúria e insegurança do povo americano permanecerá uma distante segunda prioridade até que a acção política de massa altere isso.

Tanto nos bons tempos como nos maus, o capitalismo é um sistema que coloca uma pequena minoria de pessoas com um conjunto de objectivos (lucros, rendimentos desproporcionadamente elevados, poder político dominante, etc) nas posições em que podem receber e distribuir enorme riqueza. Estas pessoas incluem os conselhos de administração que concentram nas suas mãos os rendimentos líquidos dos negócios e decidem, junto com os principais accionistas desses negócios, como distribuir aquela riqueza. Não surpreendentemente, eles utilizam-nos para atingirem os seus objectivos e conseguirem que os governos assegurem suas posições.

Nenhuma política monetária ou fiscal keynesiana trata, e muito menos muda, o funcionamento desse sistema e quem utiliza a sua riqueza para que fim. Tão pouco nenhuma das reformas ou regulamentações aprovadas ou mesmo propostas sob Obama faria isso. Evitar a instabilidade do capitalismo e os seus enormes custos sociais exige mudar o sistema. Esta permanece a questão básica para o novo ano e a nova geração. Será que romperão a versão de hoje de um velho e perigoso tabu: nunca questionar o sistema existente?

[*] Professor de Economia na Universidade de Massachusetts – Amherst e professor visitante na New School University em Nova York, http://www.rdwolff.com/ . Autor de livros e artigos , incluíndo (c/ Stephen Resnick) Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR (Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick) New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006), Capitalism Hits the Fan: The Global Economic Meltdown and What to Do about It .

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O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/2010/wolff281210.html . Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .