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Posição da Turquia é lição para o Ocidente

Hugh Pope Publicado em 01.07.2010

Os turcos podem ter sido os principais organizadores da flotilha humanitária que se dirigia a Gaza, mas não estavam sós na empreitada.

As crescentes tensões entre a Turquia e Israel levantam novas questões sobre o equilíbrio notável da Turquia entre os seus aliados ocidentais de longa data e concernentes ao seu status como potência em ascensão no Oriente Médio.

Os principais membros do partido governante da Turquia têm oferecido, de fato, o apoio moral aos ativistas turcos que organizaram essa flotilha. E é verdade que os ativistas têm realizado numerosas passeatas no país para condenar as ações de Israel.

Por outro lado, porta-vozes israelenses vão ainda mais longe ao defender a ideia de que esses ativistas têm ligação com a organização terrorista Al Qaeda, uma teoria ainda carente de provas.

Uma visão geral e imparcial do que a Turquia vem tentando alcançar nos últimos anos demonstra que tais análises e acusações perderam o foco. A Turquia está tentando, sim, mudar as políticas ocidentais, especialmente aquelas que fecham os olhos para as consequências humanas do bloqueio israelense de Gaza.

Mas o país está agindo de maneira legítima, como no seu árduo trabalho para conquistar uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.

A tensão nas relações com Israel não é uma responsabilidade da ideologia do governo turco. Há apenas dois anos, a Turquia intermediou promissoras negociações de paz entre Israel e Síria, que foram interrompidas somente quando Israel lançou sua ofensiva a Gaza em janeiro de 2009.

Tais tentativas por parte da Turquia para aumentar a estabilidade na região caracterizam seus esforços na última década. O país entrou em acordo com Síria, Líbano, Jordânia e Líbia para aplicar a isenção de visto para transpor fronteiras, para ligações ferroviárias e de comunicações, para integração de infraestruturas energéticas e para formalizar tratados de livre comércio.

Acordos semelhantes estão sendo firmados com outros países da região. A Turquia está explicitamente repetindo as lições da União Europeia (UE), que demonstrou como tal convergência pode acabar com os ciclos de conflito.

Essa não é apenas uma política do Oriente Médio ou “islâmica”, uma vez que essas mesmas ideias, visando uma maior abertura e integração, têm sido aplicadas para estreitar laços com Rússia e Grécia. Isso também não significa nenhuma mudança fundamental na postura básica da Turquia com relação à Europa e ao Ocidente.

É verdade que as negociações da Turquia com a UE parecem ter estagnado, mas não se trata de algo inédito em meio século de convergência. Desta vez, porém, a principal razão pelo afastamento da Turquia reside nos ataques contra o processo de adesão do país à UE por políticos populistas na França, Alemanha, Áustria e pelo governo cipriota grego.

A disputa da Turquia com Israel não é, portanto, indício de uma animosidade turca contra o Ocidente.

Os turcos podem ter sido os principais organizadores da flotilha humanitária que se dirigia a Gaza, mas eles não estavam sós nessa empreitada. Estavam acompanhados de ativistas, navios e suprimentos originados de mais de 30 países, incluindo a participação de vários políticos de Estados-membros da UE. Não há nada não europeu sobre protestar contra a punição de Israel aos habitantes de Gaza.

O que realmente deve ser considerado atípico dos Estados europeus de hoje é que a Turquia esteja fazendo algo para acabar com essa dura e injusta ofensiva protagonizada por Israel.

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Diretor do Projeto Turquia/Chipre do centro de estudos International Crisis Group

Fonte: jornal Folha de S. Paulo