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Os mercados agora brincam com o euro

José Roberto Campos Publicado em 21.05.2010

São irônicos e trágicos os desdobramentos da crise na zona do euro. Os governos que aumentaram suas dívidas para salvar a economia da farra dos bancos e os próprios bancos são agora atacados porque se acredita que eles não pagarão suas contas. Sabichões que achavam natural se gastar trilhões de dólares para evitar a quebra de bancos, agora consideram o fim do mundo o endividamento público. Os ventos sopram a favor dos investidores que formam posições contra o euro e papéis dos países mais endividados, levantando recursos a preço de banana, com juros muito baixos, sustentados pelos bancos centrais para que as economias se recuperem da devastação provocada pelas instituições financeiras.

A falência da Grécia expôs as fragilidades da zona do euro, mas não se fala mais que antes dela houve a maior crise econômica desde os anos 1930. De repente, em um dia de céu azul, tudo começou a parecer errado na união monetária europeia. Há fragilidades evidentes – inexistência de mecanismos para socorrer países em dificuldades e falta de meios para punir países que se desgarram das regras monetárias do bloco -, mas as elevadas dívidas soberanas, o estopim da crise atual, não podem ser debitadas a elas, embora sejam importantes para o futuro da moeda única.

O Monitor Fiscal, recém- publicado pelo Fundo Monetário Internacional, com o velho viés ortodoxo, dá elementos para que os déficits da zona do euro sejam vistos em perspectiva. Não houve a bagunça fiscal nem a farra de gastos que agora se quer projetar retrospectivamente. A Grécia, sob vários aspectos, é uma gloriosa exceção, pois já ingressou na zona do euro com déficit acima de 3% do PIB, sempre ultrapassou o teto do Tratado de Maastricht e falsificou incrivelmente seus números. Portugal já tinha posição fiscal vulnerável desde 2000, com melhorias justamente no período que antecedeu a crise financeira de 2008. A Itália ultrapassou o teto fiscal algumas vezes, como em 2005 e 2006, mas entrou na crise com um déficit de apenas 1,5% do PIB (2007). A França e Alemanha, as duas maiores economias do bloco, porém, seguiram razoavelmente à risca a cartilha. E a Espanha manteve superávits orçamentários até 2007, às vésperas da catástrofe.

Segundo o FMI, as economias avançadas do G-20 (Reino Unido e EUA inclusive) viram suas dívidas crescerem em 39 pontos percentuais do PIB – para 110% do PIB em 2015. O principal fator, que explica 19,2 pontos percentuais do aumento dos débitos, foi a queda das receitas públicas, consequência direta da farra dos bancos. Estímulos fiscais corresponderam a 4,5 pontos percentuais da deterioração, enquanto o apoio ao setor financeiro explica outros 3,2 pontos percentuais. Operações de empréstimos contribuíram com mais 4 pontos e, a grosso modo, os juros pagos para financiar a cobertura dos estragos somam mais 7,5 pontos. Ou seja, com a recessão, as receitas desabaram, enquanto os gastos foram ampliados, necessariamente e de várias formas, para levar a economia de volta à tona.

Esses números ajudam a entender a interessada ciclotimia dos mercados. Em um dia, há pânico porque cresceu a desconfiança de que os governos não conseguirão pagar suas dívidas. No outro, porque o corte de gastos feitos justamente para melhorar a capacidade de pagamento é tido como insuficiente para garantir a solvência do país. No terceiro dia, porque os pacotes de austeridade exigidos dos governos, e por eles lançados, não permitirão que os países voltem a crescer para pagar seus débitos e podem provocar uma nova recessão.

Os governos da zona do euro precisam desesperadamente de mais receitas – claramente, suas economias precisam crescer. É bem mais realista manter os déficits atuais ou reduzí-los a uma velocidade muito menor do que sugere a histeria dos mercados, até que as economias do bloco se revigorem plenamente. Os investidores estão levando as autoridades da zona do euro a um córner perigoso e pressionando por uma resolução rápida de déficits que só explodiram, na maioria dos casos, como resposta a uma situação de absoluta emergência.

Os governos da união monetária mostraram muita hesitação, pelo menos até o pacote de quase US$ 1 trilhão, que dá a direção correta a seguir. Há dinheiro para se sustentar a dívida dos países mais frágeis e garantir a integridade da zona do euro, até que os investidores se convençam de que as ações comuns serão rápidas.

Os déficits podem começar a ser atacados se e quando isso não atrapalhar a recuperação econômica, a meta vital. Os juros estão baixos e a proteção do Banco Central Europeu para a rolagem da dívida soberana ou compra de títulos de governos garantem esse custo de ocasião. A inflação, que poderia advir da enorme liquidez e dos grandes déficits, não mostrou ainda sua cara no continente europeu. O risco moral de premiar com o salvamento governos irresponsáveis não é maior do que o incorrido para salvar banqueiros gananciosos.

Quando o pacote quase trilionário saiu, foi unânime a avaliação de que ele visava a ganhar tempo, especialmente para se corrigir as deficiências da zona do euro. Há o sentido literal da expressão, que prescinde de complemento. A Europa precisa ganhar tempo para voltar a crescer e os déficits não são um obstáculo no curto prazo para isso.

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Fonte: jornal Valor Econômico