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Como a mídia internacional enxerga o momento do Brasil

Pedro Simon Camarão Publicado em 13.04.2016

Jornais estrangeiros questionam legitimidade do processo de impeachment contra Dilma. Aos olhos do mundo, nada disso cheira bem.

Periódicos de EUA, Reino Unido, França e Alemanha desconfiam do impeachment Foto: Ilustra por Cezar Xavier

O processo de impeachment contra Dilma Rousseff é frágil, ambíguo, duvidoso, questionável... Esses são os termos que os grandes veículos de comunicação internacionais utilizam para descrever o que está acontecendo no Brasil. Na terça-feira, dia 12 de abril, o New York Times afirmou em uma reportagem sobre o resultado da votação do relatório do impeachment que a penalidade para Dilma parece desproporcional, uma vez que ela está sendo julgada por muitos políticos que enfrentam acusações ou são investigados por enriquecimento ilícito e, ela, é uma das raras figuras da política brasileira que não sofre nenhum tipo de acusação ou suspeita de corrupção.

Esse entendimento é fruto dos movimentos que denunciam que um golpe de Estado está em curso no Brasil. No início do mês de março a compreensão era completamente diferente: a imprensa internacional noticiava que o governo brasileiro estava muito enfraquecido por causa de uma recessão econômica, que é uma das piores da história e, principalmente, por causa do grande esquema de corrupção na Petrobras, que atingiu o núcleo político do país. Após a condução coercitiva de Lula muitas suspeitas foram levantadas contra o ex-presidente, que é reconhecido como um ícone da esquerda, responsável por um milagre socioeconômico. A situação era compreendida como o fim da era do PT no poder e o desaparecimento do legado de Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-metalúrgico adotou um tom combativo que, em um primeiro momento, chegou a ser criticado pelos jornais europeus e americanos. Diziam que Lula estava abalado, fragilizado, desesperado. No entanto, o início dos protestos contra o impeachment obrigou os veículos de comunicação internacionais a tentarem compreender com mais profundidade o que estava acontecendo no Brasil.

O acompanhamento da política brasileira ainda não gerou conclusões, ao contrário, deixou os jornalistas estrangeiros aparentemente em dúvida. A observação do New York Times que está indicada no início do artigo é a questão mais levantada pelos jornais, a legitimidade do processo. No dia 31 de março, o jornal Le Monde publicou um editorial dizendo que não havia golpe de Estado em andamento no Brasil, que isso era uma retórica infantil. Mas a mesma edição trazia uma reportagem na qual se afirmava que só depois do impeachment os brasileiros se dariam conta de que o processo contra Dilma foi encabeçado por Eduardo Cunha, que tem contas na Suíça, que ela foi julgada por uma comissão onde a maioria dos parlamentares é acusada de corrupção, que o vice-presidente da República é acusado de corrupção. Só então, o brasileiro se daria conta de que esse processo não traria mudança alguma. Até mesmo a revista The Economist que, em março pediu a saída de Dilma, publicou um artigo no dia 9 abril falando sobre a fragilidade do processo de impeachment e o quanto isso pode custar caro ao país.

Na primeira semana de abril, o jornal inglês The Guardian soltou uma reportagem com o seguinte título, traduzido de forma livre, “O maquiavélico cotado para tomar o trono – mas o “golpe” de Temer vai unir ou dividir o Brasil?” O texto levanta suspeitas sobre a conduta meticulosa de Michel Temer em parceria com Eduardo Cunha. Parece até que os britânicos já previam o que ficou escancarado na semana seguinte. O discurso de Dilma acusando Michel Temer de traição e de ser um dos chefes da conspiração ganhou destaque nos principais jornais do mundo que chegaram a ironizar a declaração dada pelo vice-presidente, alegando que divulgou o discurso à nação por “acidente”. A repercussão dos acontecimentos nessa semana foi tão grande que até a Casa Branca se pronunciou sobre a situação no Brasil. Em uma declaração sucinta, um porta-voz do governo americano disse que o presidente Obama está otimista com a capacidade do Brasil para lidar com desafios políticos e econômicos. Que a democracia brasileira está madura, e que o país demonstrou ter habilidade para sair dessa situação.

O sistema político brasileiro talvez seja o grande mistério para o mundo, o jornal alemão Süddeutsche Zeitung publicou um artigo sobre a dificuldade de se compreender esse sistema. Alegando que até mesmo os especialistas acabam divergindo sobre o que é correto e o que não é. O The Guardian ainda publicou um artigo do filósofo Rodrigo Nunes, no qual ele fala sobre a maioria silenciosa do país e como, na verdade, esse povo que mantêm o silêncio é quem sempre foi mais consciente na hora do voto.

Nessa semana, os meios de comunicação estrangeiros analisaram que o apoio ao processo de impeachment está em queda e que o resultado da votação é imprevisível.

Essa mudança de entendimento da conjuntura brasileira ocorreu graças aos movimentos de resistência que lutam contra o impeachment. Cada vez mais, os jornais estrangeiros têm questionado a legitimidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff que vai entregar o país nas mãos de políticos que foram definidos anteriormente, pela imprensa internacional, como clientelistas e que são suspeitos de corrupção. Aos olhos do mundo, nada disso cheira bem.

Pedro Simon Camarão é jornalista, correspondente da Fundação Perseu Abramo em Paris

Publicado em Fundação Perseu Abramo