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Juventude, Cultura e Revolução

Ronaldo Marcos de Lima Araújo, Benedita Alcidema C.S Magalhães e Rodrigo Moraes Publicado em 29.06.2017

Pode dizer-se, em certo sentido, é precisamente à juventude que incumbe a verdadeira tarefa de criar a sociedade comunista (Lenin, 2015).

Resumo:

Trata da juventude e o seu papel na construção de movimentos sociais contra hegemônicos na Amazônia paraense. Abordada numa perspectiva classista, analisa os desafios e as tarefas da juventude frente ao avanço do capitalismo. Por meio de análise documental afirma a existência de juventudes trabalhadoras que têm como condição comum em sua vida concreta a exploração, e que por isso mesmo podem e devem estabelecer uma pauta comum de lutas. A teoria aqui considerada e os dados aqui informados sustentam a possibilidade e a necessidade de se reconhecer a heterogeneidades de diferentes juventudes, mas também as identidades dos grandes grupos sociais, as grandes identidades, como da classe trabalhadora, apesar de sua heterogeneidade.

Abstract:

Focuses on the role of youth in building social movements against hegemony in the Amazonian State of Pará.  Approached from a class perspective, analyses the challenges and tasks that youth face before the advance of capitalism. Through documentary analysis affirms the existence of young workers who suffer in their daily lives the common condition of exploitation which therefore should establish a common agenda of struggle. The theory here considered and the data here reported support the possibility and the need to recognize the heterogeneity of different youth, and also the identity of large social groups, large identities, as the working class, despite its heterogeneity.

Considerações Iniciais

Este texto é fruto de discussões acerca da “juventude, cultura e revolução”, tema do encontro Popular da Juventude do Campo e da Cidade, ocorrido em Belém, em 2015, que tinha como um de seus objetivos construir uma proposta de pauta unitária que favorecesse uma ação coletiva de diferentes movimentos sociais de jovens de origem trabalhadora.

Optamos, portanto, por abordar o tema da juventude numa perspectiva classista. Tal opção se confronta com leituras que, ao criticar as teorias biológicas da condição juvenil, tomam a juventude em suas peculiaridades culturais, étnicas, raciais ou geográficas apenas e que, portanto, não tomam as classes sociais como categoria central na análise sobre as juventudes.

Numa perspectiva marxista é sensato reconhecer a juventude como uma relação social, determinada por sua materialidade e historicidade. Um recorte classista sobre juventude é feito por Frigotto (2004), que faz uma análise da situação da juventude brasileira focando nos jovens que “...pertencem a classe ou fração de classe de filhos de trabalhadores assalariados ou que produzem a vida de forma precária por conta própria, no campo e na cidade, em regiões diversas e com particularidades socioculturais e étnicas”.

Falamos sim de “juventudes”, já que há muitas peculiaridades para o ser jovem, inclusive na Amazônia, entretanto, não abandonamos o conceito de classes sociais, já que as diferentes juventudes sofrem diferentemente os impactos da sociabilidade do capital. As singularidades das juventudes amazônidas relacionam-se, portanto, com a realidade de uma região periférica de um país de capitalismo periférico.

A questão decisiva quanto à condição juvenil, a nosso ver, não é de caráter particular, étnico, de cor ou de raça, mas de classe social, mesmo que aqueles sejam relevantes e fundamentais para a definição da identidade juvenil.[1]

Em tempos de teorias pós-modernas que questionam as metanarrativas (teorias explicativas da realidade global), de discursos de valorização dos sujeitos, mas que o atomizam que supervalorizam aspectos do cotidiano ao invés das relações sociais globais, assumir uma perspectiva classista é uma ação de contra hegemonia.

Assim pretendemos nos posicionar, afirmando a existência de juventudes trabalhadoras que têm elementos comuns em sua vida concreta, a exploração, e que por isso mesmo podem e devem estabelecer uma pauta comum de lutas.

O texto está organizado em três seções, na primeira discutimos a relação da juventude e classe social, apoiando-se na teoria clássica marxista, para afirmar a existência da condição de uma juventude da classe trabalhadora. Em seguida tratamos da condição da juventude trabalhadora brasileira e paraense, abordando aspectos sobre educação, trabalho, cultura e violência, e finalizamos apontando a necessidade de uma pauta que unifique jovens de origem trabalhadora em busca da transformação da realidade que produz a condição de precariedade.

1 JUVENTUDES E CLASSES SOCIAIS: as classes existem!

Compreender as juventudes trabalhadoras sob uma perspectiva classista pressupõe reconhecer a existência das classes sociais e da sociedade de classes. A ideia de classes sociais tem sido fortemente questionada desde a década de 1970, com a crise do socialismo real e a consequente crise do marxismo. Na década de 1980 ganharam força às ideias de fim das classes sociais e, em particular, do proletariado (Gorz, 1982), junto com a tese do fim da centralidade do trabalho na sociedade humana defendida em particular por Offe (1994), Habermas (1987) Schaff (1995), entre outros.

Aceitar esta ideia é aceitar também o fim da luta de classes, efetivada segundo a teoria marxista por duas classes sociais fundamentais, a burguesia e o proletariado, e o fim da história (Fukuyama,1992), já que a contradição fundamental teria se implodido.

Para Laclau, por exemplo, “as classes deixam de ser a clivagem essencial para a prática política no capitalismo contemporâneo” (MIGUEL, 1998: 25).

Outra tese correlata, consequência da aceitação desta ideia, é a de que as metanarrativas, que se propõem a explicar os problemas e as soluções que afetam a humanidade (as grandes teorias tais como o marxismo e o liberalismo) teriam perdido a sua força explicativa já que não haveria mais a possibilidade de explicar o mundo ou mesmo de entendê-lo e porque as explicações existentes focavam principalmente na organização do trabalho na sociedade humana. Assim as teorias pós-modernas passam a defender a imperspicuidade da realidade (Habermas,1987), a impossibilidade de um conhecimento objetivo (científico) da sociedade, a falibilidade das teses que prometiam a possibilidade de felicidade humana pela revolução social (marxismo), pela liberdade do mercado (liberalismo)[2] ou pela aceitação das leis de deus (cristianismo), a possibilidade de, apenas, compreender, subjetivamente, o espaço vital e o mundo do cotidiano (RORTY, 1988).

Nosso ponto de partida aqui é oposto a estas ideias. Defendemos a possibilidade e a necessidade de reconhecimento das classes sociais, inclusive das classes sociais fundamentais, burguesia e proletariado. Retomamos Thompson (BRUNOW, 2015), para quem classe é uma relação histórica, não é um dado, e que precisa ser compreendida em sua concreticidade[3].

Para este autor a classe ganha identidade na oposição com outra classe, portanto, na luta de classes, tal como se considera no excerto abaixo.

A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus (THOMPSON apud MATTOS, 2015, p.31).

Para este autor, assim, a classe pressupõe condições objetivas (experiências comuns (herdadas ou partilhadas) e condições subjetivas (consciência de classe). Resumindo, o que dá identidade de classe aos trabalhadores é a sua posição nas relações de produção, a sua condição de explorados (a extração da mais valia) e a experiência da luta de classes.

As classes não existem, portanto, como entidades separadas, mas sim num constante processo de luta. Outros autores marxistas enfatizam a dimensão objetiva na definição de classe. Para Poulantzas:

Uma classe social define-se pelo seu lugar no conjunto das práticas sociais, isto é, pelo seu lugar no conjunto da divisão social do trabalho, que compreende as relações políticas e as relações ideológicas, não só relações econômicas, portanto (POULANTZAS apud MIGUEL, 1998, p. 24).

Diferentes autores marxistas concordam, entretanto, que a condição de classe se define pela posição do grupo de indivíduos nas relações de produção e por sua participação na luta de classes (MIGUEL, 2015)[4]. Apesar de se reconhecer as classes sociais a partir do reconhecimento de experiências comuns em função de sua posição na divisão social do trabalho, deve-se reconhecer também que a classe trabalhadora se heterogeneizou considerando qualificações, remuneração condições de trabalho etc, tal como demonstra Offe (1990).

Mesmo assim a classe trabalhadora mantém elementos de homogeneização, em particular o fato de trabalharem, de viverem de seu trabalho e terem parte de sua produção expropriada.[5]

Lenin (2015) resume assim esta questão:

E que são as classes em geral? É o que permite a uma parte da sociedade apropriar-se do trabalho da outra. Se uma parte da sociedade se apropria de toda a terra, há uma classe de proprietários de terra e uma classe de camponeses. Se uma parte da sociedade possui as fábricas, as ações e os capitais, enquanto que a outra trabalha nessas fábricas, temos a classe dos capitalistas e a dos proletários. 

Ou seja, a condição de classe se define na posição que ocupa os sujeitos nas relações de produção e na materialização da luta de classes.

1.1 Juventude e Classe

E a juventude? Pode-se falar em juventude trabalhadora? Compreendemos que os jovens são frutos de varias relações sociais heterogêneas, se organizam em torno da cultura, da religião, da política, do gênero musical, dos esportes, ou seja, não é possível caracterizar a juventude partindo de uma homogeneidade, neste sentido é correto afirmar que existem várias juventudes, porém existe uma característica comum nessas juventudes da classe trabalhadora, justamente sua condição de classe. Assim compreendemos que é possível falar em Juventudes da classe trabalhadora. 

Para PRZEWORSKI em torno da classe operária

Há vários grupos de pessoas que não possuem meios de produção, sejam empregados de escritório, trabalhadores intelectuais strictu sensu, executivos de empresas ou desempregados; finalmente, uma borda pequeno burguesa, que ainda detém meios de produção mas que está cada vez mais submetida ao controle do capital e que possui condições de vida próximas da proletária (...) e será a ação  política que irá delimitar as fronteiras do pertencimento de classe. (PRZEWORSKI, apud Miguel, 2015, p. 26).

Nesta fronteira podemos entender a juventude, principalmente os grupos de jovens de origem popular, que se fazem na luta de classes e que têm uma tarefa política frente ao projeto de revolução social.

Ao tratar das tarefas da juventude na União Soviética, em 1920, Lenin (2015) se dirige às uniões da juventude comunista e outras organizações em particular, de caráter revolucionário, portanto. Exclui outras organizações de jovens ou outros jovens (de origem burguesa ou pequena burguesa).

Lenin cita a “juventude operária e camponesa” e afirma que “a nossa moralidade está por completo subordinada aos interesses da luta de classe do proletariado. A nossa tem por ponto de partida os interesses da luta de classe do proletariado.

Na discussão da Moral, recoloca aquilo que é importante, a luta contra a exploração, e não nos valores de pequenos grupos humanos.

Dizemos: é moral tudo aquilo que contribui para destruir a antiga sociedade exploradora e para agrupar todos os trabalhadores em tomo do proletariado, criador da nova sociedade comunista.

A moral comunista é a que serve para esta luta, a que une os trabalhadores contra toda a exploração e contra toda a pequena propriedade, pois a pequena propriedade põe nas mãos de um indivíduo aquilo que foi criado pelo trabalho de toda a sociedade. No nosso país, a terra é considerada propriedade comum (LENIN, 2015)

Indica, a seguir, que uma “massa de explorados”, só pode ser unida se dirigida pelo proletariado:

Só o proletariado pôde criar uma força tão coesa, que é seguida pela classe camponesa dispersa e fragmentada e que foi capaz de resistir a todos os ataques dos exploradores. Só esta classe pode ajudar as massas exploradoras a unir-se, a cerrar fileiras, a fazer triunfar e garantir definitivamente a sociedade comunista, a edificá-la por completo” (LENIN, 2015). 

A exploração (e luta pelo seu fim) unificaria, portanto, esta “massa”, opondo explorados e exploradores. 

2 A CONDIÇÃO DA JUVENTUDE TRABALHADORA BRASILEIRA E PARAENSE

Nossa juventude trabalhadora paraense é constituída por ribeirinhos, quilombolas, assentados, indígenas, agricultores, moradores das periferias das grandes cidades. Em trabalho recente (ARAUJO E ALVES, 2014) afirmavam a situação de precariedade e vulnerabilidade em que vive grande parte da juventude trabalhadora.

São jovens que sofrem com a violência urbana, com o trabalho infanto-juvenil, o trabalho escravo, a inserção precoce no mercado de trabalho, a desescolarização e condições precárias de moradia.

Temos uma população com idade entre 15 a 29 anos de 2.243.780 indivíduos, sendo 69% moradores em área urbana e 76% de pretos ou pardos, destes 40% mora em aglomerados subnormais[6]. São jovens os que mais sofrem com o trabalho escravo (47%) e que morrem de forma violenta em decorrência de baleamento, esfaqueamento e agressões físicas (65% conforme revela o estudo intitulado Índice de homicídios na Adolescência – IHA)[7], divulgado em janeiro de 2015 (ANCED, 2015).

O retrato da violência na região metropolitana de Belém, por exemplo, apresentado pelo estudo do Índice de Homicídio de Adolescentes- IHA nas cidades com mais de 100 mil habitantes, revela que os municípios de Marituba, Ananindeua e Belém estão entre aqueles com maior índice de homicídios de adolescentes e jovens entre 12 a 18 anos (ANCED, 2015). 

ÍNDICE DE VIOLÊNCIA NA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM

 

 

 

 

 


Fonte: http://prvl.org.br/regioes-metropolitanas/belem/

Neste cenário de violência, as mortes esperadas de adolescentes e jovens entre 12 a 18 anos somados os três principais municípios da região metropolitana de Belém, até 2017, são de 1.755. Mas essa violência tem face e os jovens que têm sido exterminados são pobres, negros e sem estudos.

Entre os agentes desta violência está o próprio Estado, como se pode observar no relatório da CPI das Milícias no Pará, que investiga a ação de policiais no assassinato de jovens:

Belém viveu uma noite de execuções, terror e medo, na última terça-feira, 4, e madrugada da quarta-feira, 5[8]. [...] Na madrugada, foram mortos Eduardo Felipe Galúcio Chaves, de 16 anos; Bruno Barroso Gemaque, de 20 anos; Alex dos Santos Viana, de 20 anos; Jefferson Cabral dos Reis, de 27 anos; Márcio Santos Rodrigues, de 21 anos; César Augusto Santos da Silva (sem idade divulgada); Marcos Murilo Ferreira Barbosa, de 20 anos; Nadson da Costa Araújo, de 18 anos; e Jean Oscar Ferro dos Santos, de 33 anos. Os crimes ocorreram nos bairros da Terra Firme, Jurunas, Guamá, Marco, Tapanã e Conjunto Sideral. Na quinta-feira, 6, Arlesonvaldo Carvalho Mendes, de 37 anos (ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO PARÁ, 2015, P.8)

Este relato é revelador de que a violência atinge principalmente a juventude oriunda da classe trabalhadora e indica a existência de Milícias e Grupos de Extermínio organizados e atuantes que disputam sobretudo, o controle do tráfico de drogas, subordinando a população pobre ao seu domínio. Os bairros onde aconteceram tais crimes são bairros da periferia, populosos, desprovidos em sua maioria de infraestrutura básica de saneamento, creches, escolas de boa qualidade, praças, quadras de esporte, moradia digna.

O Relatório da CPI das Milícias no Pará revela também o papel devastador da mídia no fortalecimento de uma cultura da violência em detrimento de uma cultura de direitos humanos, cidadania e paz, reforçando nas imagens que veicula a ideia de que “bandido bom é bandido morto” ao mesmo tempo em que exalta figuras de ditos “justiceiros”. Desconsidera-se completamente as relações de exploração subjacentes à essa realidade produtora de violência e desigualdade social.

O relatório[9] elaborado pela Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Anced – Seção DCI Brasil) sobre os Direitos da Criança aponta como duas principais violações no Brasil o encarceramento e o extermínio de jovens e revela ainda que a maior parte da população carcerária é negra, pobre, jovem e sem estudo, apontando o Brasil como o quarto país com a maior população carcerária, atrás somente dos EUA, China e Rússia.

De acordo com o Mapa do Encarceramento: os jovens no Brasil (BRASIL, 2015), das 515.482 mil pessoas encarceradas, 54,8% tem menos de 29 anos, 60,8% é negra, e 90% sequer concluiu o ensino médio.

São mais de 51 milhões de jovens entre 15-29, ou seja 25% da população total do Brasil (IBGE, 2010), um número significativo que necessita de políticas públicas educacionais, culturais e de trabalho que atendam as reais necessidades e demandas desse contingente.

Nesse contexto, surge o debate acerca da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, para o qual deve-se considerar a ausência do Estado na garantia de direitos básicos essenciais para a juventude, tendo como consequência o extermínio, o encarceramento e o abandono da escola, bem como a tentativa de responsabilização da própria juventude sobre a sua condição social.

No que diz respeito ao Trabalho e Educação, apenas 17% dos jovens de 18 a 24 anos só estuda, os demais trabalham, trabalham e estudam, cuidam de afazeres domésticos ou não fazem nenhuma atividade. Dos jovens que trabalham 70% ganham até 1 salário mínimo. Dos jovens que estão estudando no ensino médio apenas 3% fazem um curso técnico de qualificação profissional. Ou seja, nossos jovens começam a trabalhar cedo, sem a qualificação e em condições precárias. Estes são os jovens da classe trabalhadora (ARAUJO e ALVES, 2015).

Considerando apenas a população juvenil de 15 a 17 anos, que deveria estar cursando o ensino médio, aproximadamente 100 mil jovens estão fora da escola e 200 mil estão atrasados, cursando o ensino fundamental. Considera-se sobre isso ainda que dos jovens que estão estudando mais de 30% não tem aproveitamento mínimo necessário (ARAUJO e ALVES, 2015). Tais dados revelam que boa parcela de juventude paraense está com o seu presente prejudicado e o seu futuro ameaçado.

Esses dados se agravam quando se considera a juventude do campo, que sofre muito mais com a falta de uma escola com quantidade e qualidade adequada à juventude paraense. Jovens negros e moradores de periferias, também, sentem mais catastroficamente esta situação.

É a juventude trabalhadora, portanto, a principal vítima da violência, da inserção precoce no trabalho, da desqualificação da escola e da ausência de políticas públicas.

No aspecto relativo à cultura existe uma situação de precariedade e vulnerabilidade de nossa juventude, em particular da juventude trabalhadora. A ausência de políticas públicas culturais, de espaços de lazer, de incentivo às iniciativas coletivas de jovens acerca de sua cultura e identidade e a otimização dos eventos de massa constituem outra face da mesma realidade de vulnerabilidade e exploração a que está submetida a juventude amazônida, em particular a paraense.

A cultura que se impõe à juventude trabalhadora é uma cultura que nega a sua identidade de classe. É uma cultura construída sob base capitalista e, portanto, cumpre o papel de legitimação de sua reprodução.

Aqui falamos de cultura, entendendo-a em Bogo (2000, p.8) como “tudo que fazemos para produzir nossa existência”. E essa produção não prescinde do trabalho e este, na compreensão marxista, cria o próprio homem. Portanto numa sociedade onde o trabalho está alienado, gera também um homem alienado.

Nesse contexto, a juventude trabalhadora do campo e da cidade, além de ter uma inserção precária no mercado de trabalho, uma educação básica fragilizada, as suas oportunidades culturais estão subordinadas aos interesses de mercado. 

 

Dados oficiais mostram que cerca de um milhão de belemenses, ou 55% de toda a população da cidade, mora em favelas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: sobre a revolução e as tarefas da juventude

A teoria aqui considerada e os dados aqui informados revelam a possibilidade e a necessidade de se reconhecer a identidades dos grandes grupos sociais, as grandes identidades, como da classe trabalhadora, apesar de sua heterogeneidade.

Também revelam a necessidade de uma pauta que unifique jovens de origem trabalhadora em busca da transformação da realidade que produz esta condição de precariedade.

Como sugestão, lembramos da indicação feita por Marx de que seja necessário, na luta pela transformação social, diferenciar revolução e insurreição, para que compreendamos a primeira e mais difícil tarefa da juventude.

Para Marx revolução e insurreição são coisas diferentes. Marx compara a revolução ao processo de saída dos judeus do Egito, em que estes precisavam, para constituir um “novo mundo”, além de mudar a sua realidade, constituírem-se como “novos homens”, revolucionados.

Sobre a necessidade de revolucionamento do homem diz ainda Marx (2015: p. 01) que “a revolução (...) não é uma revolução de curto fôlego. (...) não tem apenas que conquistar um mundo novo, tem de soçobrar para dar lugar aos homens que estejam à altura de um mundo novo”.

Daí se apreende que a grande tarefa da revolução é formar o homem novo, isso diz respeito, ao que Bogo (2000, p. 62) sinaliza como importante no processo de construção do mundo novo, a revolução cultural que consiste em formar esse homem novo e tem como pilares: a autodeterminação; a inter-relação entre as espécies; a continuidade histórica; a arte de fazer o belo; a linguagem; o conhecimento; a imaginação; a utopia; o cuidado e a luta de classe. “É a revolução dentro da revolução”.

A história nos mostrou várias vezes que a tomada do Estado pelo povo não garante a tomada do poder, portanto, “deve-se fazer revoluções todos os dias” (MANACORDA, 2007).

Lenin (2015) compreendeu bem esta questão ao afirmar que 

Não nos foi difícil desembaraçarmo-nos do Tsar: bastaram para isso alguns dias. Não nos foi difícil derrubar os proprietários de terras: conseguimos fazê-lo nalguns meses. Tão-pouco foi muito difícil derrubar os capitalistas. Mas suprimir as classes é incomparavelmente mais difícil;

Conclui sobre isso que

É necessário que o proletariado transforme, reeduque uma parte dos camponeses e atraia para o seu lado os camponeses trabalhadores, a fim de quebrar a resistência dos camponeses ricos, que lucram com a miséria dos demais. Por conseguinte, a tarefa da luta do proletariado não terminou com o derrubamento do Tsar e a expulsão dos proprietários de terras e capitalistas; levá-la ao termo é, precisamente, a missão do regime que denominamos ditadura do proletariado (LENIN, 2015).

A principal tarefa da juventude comunista, conclui Lenin, é aprender, aprender o comunismo (teórica e praticamente), a ciência acumulada pela humanidade (sólida base dos conhecimentos humanos adquiridos sob o capitalismo), o espírito crítico e a moral comunista. Assim ela pode revolucionar o mundo, revolucionando-se!

 

Referências:

ARAUJO. Ronaldo M. L; ALVES, J.P. Juventude, Trabalho e educação: questões de diversidade e classe das juventudes na Amazônia.

ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO PARÁ. Relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito - CPI das Milícias, 2015.

Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Anced – Seção DCI Brasil). II Relatório Alternativo sobre os Direitos da Criança – disponível em  http://www.anced.org.br/, acessado em 20 de julho de 2015.

Brasil. Presidência da República. Secretaria Geral. Mapa do Encarceramento: os jovens no Brasil. 2015. Disponível em http://www.pnud.org.br/arquivos/encarceramento_WEB .pdf,  acessado em 20 de julho de 2015.

______. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IBGE, 2010. http://www.ibge.gov.br/ acessado  em 15 de janeiro de 2015.

BRUNOW, Vanessa de Oliveira. Thompson, Classe Social, trabalhadores, movimentos sociais e filantropia: Um estudo sobre o uso conceitual nas experiências dos trabalhadores no Brasil nas décadas de 1970, 1980 e 1990. In:  http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0281.pdf. Acessado em 27/01/2015.

BOGO, Ademar. O MST e a Cultura. Caderno de formação, nº 34. 2ª Edição, São Paulo, 2000.

FUKUYAMA, F. O fim da História e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

FRIGOTTO, Gaudêncio. Juventude, trabalho e educação no Brasil: perplexidades, desafios e perspectivas. In: NOVAES, Regina; Vannuchi,Paulo (org.) Juventude e Sociedade.Trabalho,Educação,Cultura e Participação.São Paulo; Fundação Perseu Abramo,2004.

GORZ, André. Adeus ao Proletariado: para além do socialismo. Rio de Janeiro: Forense, 1982.

HABERMAS, Jurgen. A Nova Intransparência: A Crise do Estado do Bem estar e o Esgotamento das Energias Utópicas. In: Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, 1987, Nº18.
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MIGUEL, Luiz Felipe. Do que falam os marxistas quando falam em classes? Revista mediações. V. 3, n. 1. 1998. In: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/viewFile/9315/8010. Acessado em 28/01/2015.

MARX, Karl. As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850. In: http://www.marxists.org/portugues/marx/1850/11/lutas_class/cap03.htm. Acessado em 28/01/2015.

MATTOS, Marcelo Badaró. A Formação da Classe Operária Inglesa: História e Intervenção. In: http://www.uff.br/trabalhonecessario/images/TN_18_-_artigo_do_dossi_-_Marcelo_Badar.pdf. Acessado em 28/01/2015.

MANACORDA, Mário A. Aos educadores brasileiros. Entrevista concedida a Paolo Nosella. Campinas: HISTEDBR, 2007.

MÉSZÁROS, Istvan. A teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006.

OFFE, Claus. Trabalho: A Categoria Sociológica Chave? In: Capitalismo Desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1994.

RORTY, Richard. A Filosofia e o Espelho da Natureza. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988.

SCHAFF, Adam. A Sociedade Informática. São Paulo: Editora Unesp, 1995.

 

Notas 

[1] O aspecto racial é especialmente relevante, como se observa em pesquisa recente que revela que jovens negros sofrem três vezes mais risco de homicídio que brancos, assim como os homens têm 11 vezes mais chances de serem assassinados (Cf Unicef. IHA - Índice de Homicídios na Adolescência, 2015).

[2] Mas aceita-se, ao fim, o liberalismo como ideologia hegemônica do Estado.

[3] Thompson (1987) define classe sob uma perspectiva histórica (o que implica numa relação concreta e demonstrável): “a classe é definida pelos homes enquanto vivem a sua própria história e, ao final, esta é sua única definição”. Esta visão contraria aquela corrente sociológica que via a classe como uma coisa, uma estrutura. A classe é uma relação histórica, presente em pessoas e contextos reais.

[4] Este autor evidencia similitudes e diferenças na forma como autores marxistas definem as classes sociais, ora enfatizando a dimensão objetiva (posição nas relações sociais) e ora a dimensão subjetiva (aspectos culturais e a consciência de classe).

[5] Para Thompson “no caso do operariado inglês, não havia classes trabalhadoras”, então não se pode falar em “juventudes trabalhadoras”?

[6]  Segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística aglomerados subnormais são domicílios ocupados em favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, mocambos, palafitas, entre outros assentamentos irregulares para o conjunto do País, Grandes Regiões, Unidades da Federação e municípios (http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/aglomerados_subnormais/default_aglomerados_subnormais.shtm).

[7] Estudo realizado em parceria pela Secretaria de Direitos Humanos da República (SDH/PR), o fundo das Nações Unida para a Infância (UNICEF), o Observatório de Favelas e o laboratório de análise da Violência da universidade do estado do Rio de janeiro (LAV-UERJ).

 

Sobre os autores

Ronaldo Marcos de Lima Araujo

Professor da Universidade Federal do Pará, onde leciona na graduação e na pós-graduação. Doutor em Educação pela UFMG. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Educação – GEPTE. Pesquisador do CNPq. E-mail: rlima@ufpa.br.

Benedita Alcidema C.S Magalhães

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPA. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Trabalho e Educação. alcidema@ufpa.br.

Rodrigo Moraes 

Professor da Universidade do Estado do Pará, Mestre em Educação pela UFPA. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Trabalho e Educação. rodrigoune@hotmail.com

 

Notas

[1] O aspecto racial é especialmente relevante, como se observa em pesquisa recente que revela que jovens negros sofrem três vezes mais risco de homicídio que brancos, assim como os homens têm 11 vezes mais chances de serem assassinados (Cf Unicef. IHA - Índice de Homicídios na Adolescência, 2015).
[2] Mas aceita-se, ao fim, o liberalismo como ideologia hegemônica do Estado.
[3] Thompson (1987) define classe sob uma perspectiva histórica (o que implica numa relação concreta e demonstrável): “a classe é definida pelos homes enquanto vivem a sua própria história e, ao final, esta é sua única definição”. Esta visão contraria aquela corrente sociológica que via a classe como uma coisa, uma estrutura. A classe é uma relação histórica, presente em pessoas e contextos reais.
[4] Este autor evidencia similitudes e diferenças na forma como autores marxistas definem as classes sociais, ora enfatizando a dimensão objetiva (posição nas relações sociais) e ora a dimensão subjetiva (aspectos culturais e a consciência de classe).
[5] Para Thompson “no caso do operariado inglês, não havia classes trabalhadoras”, então não se pode falar em “juventudes trabalhadoras”?
[6]  Segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística aglomerados subnormais são domicílios ocupados em favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, mocambos, palafitas, entre outros assentamentos irregulares para o conjunto do País, Grandes Regiões, Unidades da Federação e municípios (http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/aglomerados_subnormais/default_aglomerados_subnormais.shtm).
[7] Estudo realizado em parceria pela Secretaria de Direitos Humanos da República (SDH/PR), o fundo das Nações Unida para a Infância (UNICEF), o Observatório de Favelas e o laboratório de análise da Violência da universidade do estado do Rio de janeiro (LAV-UERJ).
[8] Refere-se a chacina ocorrida nos dias 04 e 05 de novembro de 2014, conhecida como “Chacina de novembro”.
[9]  A elaboração do relatório contou com a parceria da Fundação Abrinq / Save the Children, Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual de Crianças e Adolescentes, Ecpat Brasil, Fórum Nacional DCA, Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, Ação Educativa e Campanha Nacional pelo Direito à Educação.