Artigos

A contra ofensiva do Exército sírio

João Quartim de Moraes Publicado em 11.05.2018

Assim como o ataque colonialista de abril de 2017 não impediu o Exército nacional de prosseguir seu avanço em Idlib, o recente bombardeio ordenado pelo Eixo Trump/May/ Macron não atrasou a conclusão vitoriosa, em 14 de abril, das operações militares em Ghuta. Pela primeira vez desde o início da ofensiva de recolonização planetária nos anos 1990, fracassava a tentativa de arruinar um Estado que resistia ao imperialismo hegemônico e a seus satélites.

Em 17 de janeiro deste ano, o jornal francês Le Canard Enchaîné (= “O Pato Acorrentado”, título intencionalmente irônico, mas que cairia bem para designar os paneleiros da Fiesp) publicou pequeno artigo a respeito dos “soldados turcos que entraram na Síria com Al-Qaida”.

No outono boreal de 2017, com efeito, tropas turcas penetraram na província síria de Idlib tendo “como escolta” os “combatentes do Tahrir al-Cham, movimento terrorista mais conhecido por seu antigo nome: a Frente Al-Nosra, filial da Al-Qaida”.

O jornal, que é satírico, não tinha outra pretensão além de ironizar a bem calibrada hipocrisia dos jornais franceses mais representativos da respeitabilidade burguesa (Le Monde e Le Figaro), assinalando que os dois usaram o verbo “escoltar” para descrever a intervenção do exército turco na obra sombria de desestabilização da Síria.

Idlib é uma província agrícola pobre do norte da Síria, de população majoritariamente sunita, portanto sob influência religiosa do tenebroso regime da Arábia Saudita. Esteve entre as primeiras regiões que caíram sob controle dos fundamentalistas que prosperaram na primavera de sangue de 2011. As forças do governo mantiveram apenas alguns bolsões de resistência, notadamente na base aérea de Abu al-Duhur, no sudeste da província, cercada desde setembro de 2012 pelos “jihadistas” (=fanáticos da “guerra santa”) da Frente Al-Nosra e do Partido islâmico do Turquestão. No dia 9 de setembro de 2015, os atacantes desfecharam arrasadora ofensiva final, tomando o que restava da base. A Frente Al-Nosra encarregou-se de executar sumariamente pelo menos setenta soldados sírios.

Dois anos mais tarde, as forças do Exército nacional, que tinham logrado contrabalançar, com o apoio material e diplomático da Rússia, a agressão do cartel da Otan e dos petroleiros feudais da Arábia, passaram à contra ofensiva em Idlib. Travando encarniçados combates, de que também participaram os guerrilheiros do Hezbollah, elas finalmente retomaram dos terroristas a base de Abu al-Duhur em 20 de janeiro passado.

Essa vitória de alcance estratégico foi seguida pela retomada da região de Ghuta, vasto subúrbio agrícola a leste de Damasco, que desde o início da guerra, em 2011, vinha sendo um bastião da oposição a Assad. Em 2012-2013, os “jihadistas” chegaram a ocupar alguns bairros de Damasco. Mas a capital, defendida com tenacidade, não caiu e a linha de fogo estabilizou-se por quatro anos. Em fevereiro de 2018, o Exército nacional passou à contra ofensiva; no início de abril a maior parte do enclave já havia sido retomada. A luta contra os cerca de 15.000 “jihadistas” do movimento religioso Jaysh al-Islam, que ocupavam o distrito de Duma, foi particularmente dura. Mas a determinação e a superioridade de fogo das forças governamentais foram suficientes para garantir a vitória.

Alarmado com o provável fracasso de sete anos de intervenções bélicas devastadoras do cartel Otan/feudalismo petroleiro, Trump entendeu-se com seus dois principais acólitos, a inglesa May e o francês Macron, para desfechar na noite de 13 de abril um tríplice bombardeio sobre a Síria. Como sempre, o pretexto era mentiroso: as forças do governo teriam recorrido a armas químicas no bombardeio do distrito de Duma. Deixando a manipulação dos argumentos “humanitários” à hipocrisia crônica das “democracias” liberal-imperialistas, ponderamos apenas que não tem cabimento supor que exatamente quando tinha logrado passar da defensiva para a ofensiva, o governo sírio iria deliberadamente lançar contra uma pequena cidade gases tóxicos mortais, cujo uso é internacionalmente condenado. Exatamente um ano e uma semana antes, na noite de 6 de abril de 2017, o inquilino atual da Casa Branca já tinha recorrido à mesma mentira (ataque químico contra a cidade de Khan Sheikhun, na região de Idlib), para despejar sua costumeira chuva de mísseis.

Assim como o ataque colonialista de abril de 2017 não impediu o Exército nacional de prosseguir seu avanço em Idlib, o recente bombardeio ordenado pelo Eixo Trump/May/ Macron não atrasou a conclusão vitoriosa, em 14 de abril, das operações militares em Ghuta. Pela primeira vez desde o início da ofensiva de recolonização planetária nos anos 1990, fracassava a tentativa de arruinar um Estado que resistia ao imperialismo hegemônico e a seus satélites.

Infelizmente, os inimigos da Síria independente dispõem de colossais reservas financeiras e materiais para continuar sangrando o povo e o Estado sírios. É o que sugere a atitude reverencial do francês Macron em sua visita oficial ao presidente estadunidense, logo em seguida ao bombardeio, oferecendo um constrangedor espetáculo de subserviência, que contrasta não somente com o sentido de independência e dignidade nacional da política externa francesa, sob o governo burguês, mas patriótico do general De Gaulle, mas até mesmo com o do duvidoso Jacques Chirac, que recusou-se, em 2003, a apoiar a guerra criminosa movida contra o Iraque pela dupla de celerados Busch/Blair.