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Faltou assunto pra Bolsonaro em Davos

Ana Prestes Publicado em 22.01.2019

O Fórum Econômico Mundial de Davos, em sua edição de 2019, não está muito concorrido por chefes de Estado e Governo. Faltaram Putin, Trump, Xi Jinping, Macron, Theresa May e outros.

Bolsonaro poderia ter sido, portanto, uma grande estrela da festa. Ainda vão mais alguns dias de encontro até 25 de janeiro e ele pode surpreender (será?), mas o que tudo indica é que ficaremos mesmo na exposição de mostruário que ele adotou como tom de participação no encontro: “aqui está Sérgio Moro”, vejam que Ministro qualificado nós temos para por fim à corrupção, e “aqui está Paulo Guedes”, o homem que vai abrir o Brasil para ser um grande player do comércio internacional e destino de vultosos investimentos.
 
Inicialmente foi oferecido a Bolsonaro um latifúndio de tempo, 45 minutos, para pronunciamento e respostas às questões. Talvez a pedido de sua assessoria, grata pela gentileza, mas não vendo como preencher tantos minutos, diminuíram para 30 minutos. A montanha pariu um rato e JB falou 8 minutos! na principal plenária do encontro. Somados mais uns míseros 7 minutos entre as perguntas feitas por Klaus Schwab, chairman do Fórum, e as lacônicas respostas de Bolsonaro, obteve-se os suados 15 minutos de holofotes dirigidos ao novo presidente do Brasil no maior encontro econômico anual realizado há quase 40 anos na Suíça.
 
Algumas coisas ficaram evidentes na fala. “Menos é mais” foi o tom adotado. Já estamos sendo muito apedrejados, devem ter pensado os que ajudaram a preparar o discurso, para continuar nos oferecendo facilmente para o sacrifício. Mal a cúpula saiu do Brasil e o Embaixador da Alemanha já foi procurar Mourão para reclamar do que será feito com o Fundo Amazônia, se o Brasil realmente romper com o Tratado de Paris e outras pautas ambientais. Portanto, não se falou em sair do Acordo do Cambio Climático, silêncio absoluto sobre a pauta migratória, nem pra bater na Venezuela! foi usada a temática da migração. Pra que falar de embaixada em Israel, por exemplo? Da desestabilização da Venezuela? Direitos humanos? Saída do pacto global de migração? Armamento civil? O comedimento presidiu. Deixemos os vexames da porta de casa pra dentro, resolveram.
 
Sabe quando a gente decora uns dados e dá vontade de usar toda hora? Foi assim com Bolsonaro ao dizer que a agricultura ocupa 9% do território do país e a pecuária 20%. Disse no pronunciamento, repetiu na resposta ao questionamento sobre compromissos com o meio ambiente, ao citar que o Brasil tem 30% de seu território ocupado por florestas (dado errado são 59%) e só 9%…. Não repetiu mais uma porque não encontrou como. Outra ideia que não saiu da ponta língua foi: vamos tirar a ideologia de tudo. Do comércio internacional, da montagem do governo, da lida com os parlamentares, das relações exteriores, onde puder estamos “deseologizando”, mas não vamos deixar a esquerda ressurgir na América Latina, isso não! Com os bolivarianos não negociamos e não temos relações de integração e regionalização, disse ao ser perguntado sobre papel do Brasil na região. Ideológicos são os outros, “nós não”, quis transmitir. Fico pensando, sinceramente, se a audiência não riu da inutilidade da demarcação bolsonariana.
 
As respostas aos questionamentos generosos, sem nenhuma casca de banana, de Schwab, foram tão mal aproveitadas que deu dó. Juro. Tratadas mais como batatas quentes, a impressão que se tinha era que o JB adoraria poder jogar no colo de Guedes ou Moro as explanações. Perguntado sobre “quais os passos concretos” (referindo-se às reformas), passos concretos, presidente! Ficou nas generalidades da reforma tributária e do “tirar peso” de quem investe (tirar direitos trabalhistas).
 
Sobre corrupção, aquele tipo de infração da qual está se escondendo o primogênito, disse que o Moro vai resolver tudo. A resposta à pergunta sobre o meio ambiente surpreendeu. Disse com todas as letras, para todo o mundo ouvir, que “queremos estar sintonizados” com o resto do mundo no que tange à diminuição da emissão de CO2 e à preservação ambiental. Quanto à América Latina, última e derradeira pergunta, disse apenas que ele, Macri, Marito e Piñera, o clube do bolinha anti-bolivariano, não vão deixar a esquerda voltar ao poder e que o Mercosul, ah o Mercosul deve ter “algumas mudanças”. Bastante tímido para quem estava querendo desativar o bloco.
 
Por fim, o discurso teve ares de propaganda turística mesmo. Venham visitar “nossa Amazônia, nossas praias, nossas cidades, nosso Pantanal”. Vejam como o Brasil é um paraíso, o país que mais preserva o meio ambiente, que agora vai cuidar da segurança (só não mencionou que vai armar a população) e melhorar o ambiente de negócios, com flexibilização das normas (tirando direitos dos trabalhadores) e ajudando na reforma da OMC. Vamos educar nossa juventude para a 4ª Revolução Industrial (só não disse como reativar o setor industrial e aumentar o investimento em educação, ciência e tecnologia). Vamos nos espelhar na OCDE, só não disse exatamente em quê e como (há mesmo um fetiche com a OCDE, visível e risível). Estamos de braços abertos e com “Deus acima de Tudo”, concluiu.


 Ana Prestes é cientista política, membro da direção do PCdoB/DF e do Comitê Central do PCdoB.