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O significado da Organização de Cooperação de Xangai no mundo atual

Lejeune Mirhan* Publicado em 30.01.2019

Existem hoje no mundo dois tipos de instituições. As que defendem e fazem de tudo para preservar o sistema atual, capitalista financeiro, militarizado e unipolar. E as outras, que estão no campo que venho chamando de resistência, ou seja, defendem a multipolaridade do mundo, alternativas à hegemonia do dólar como moeda única de comércio internacional e alternativas para a chamada financeirização do capital, ainda que nem todas defendam o socialismo como alternativa a esse sistema. Venho escrevendo sobre isso há tempos. Quero aqui tratar em maiores detalhes o significado e o papel da Organização de Cooperação de Xangai.

Reunião da Organização de Cooperação de Xangai

As origens da OCX

Em 26 de abril de 1996, foi realizada na cidade de Xangai, China, uma reunião na qual participaram cinco países apenas, todos eles da chamada Eurásia: a própria China, anfitriã da reunião, a Rússia, o Cazaquistão, o Quirquistão e o Tadjiquistão. Esses países ficaram conhecidos à época como “Os Cinco de Xangai”. A grande finalidade desse encontro foi a de assinar um tratado de Aprofundamento e Confiança Militar. 

Registre-se que nessa época a Rússia ainda estava em um período de transição do fim do socialismo e ingresso na chamada economia de mercado e quase nada tinha a ver com a Rússia atual, sob o comando de Vladimir Putin. Registre-se ainda que o mundo vivia uma espécie de auge da unipolaridade, em função da vitória dos EUA na primeira agressão ao Iraque e o fim da URSS nesse mesmo ano, portanto há apenas cinco anos. Não havia contraponto à essa potência imperialista. Nesse sentido, essa reunião por si só foi de grande importância.

Um ano depois, em 1997, esses mesmo cinco países decidem assinar um novo tratado, desta vez versando sobre a redução de forças militares na fronteira entre esses países. O significado disso é bastante claro, no sentido de reduzir gastos de energia militar em locais que se fazem fronteiras com países amigos, ou seja, com quem, em tese, não iria invadir nenhum dos signatários do tratado. Assim, os gastos e esforços foram deslocados para outras áreas. Algo parecido com isso foi feito em 1939 no chamado Pacto Ribbentrop-Molotov, que assegurou algum fôlego para a então URSS, sob o comando de Stálin, se preparar melhor para a agressão que se sabia que viria. Neste caso, acho que jamais ocorrerá conflitos entre esses países. 

Três anos depois, em 2000, os mesmos países assinam protocolos e dizem ao mundo para que sigam esse exemplo, que jamais interferirão nos assuntos internos dos países signatários do Tratado de Xangai. Não importa quais fossem os argumentos, é preciso respeitar a soberania dos países (era uma época que se falava muito em “direitos humanos” apenas como pretexto para que algum país fosse agredido militarmente). Falava-se em “intervenções humanitárias” (sic) para se evitar que governos tirânicos massacrassem seus povos. Pura falácia. No ano seguinte os EUA agrediriam o Afeganistão (onde permanecem até os dias atuais) e em 2003, agrediriam o Iraque pela segunda vez (ficaram lá nove anos).  

Objetivos

Por fim, no dia 15 de junho de 2001, também na cidade de Xangai, foi formalizado a constituição do Bloco, que passou a se chamar Organização de Cooperação de Xangai – OCX (na sigla inglesa é SCO, Shangai Cooperation Organization, pois Xangai em inglês se escreve com “S”). atentem ao fato que, cinco meses depois, ocorreram os atentados às torres gêmeas nos EUA. 

Vários e amplos são os objetivos dessa cooperação internacional, com mais ênfase nos aspetos militares e econômicos. Listo a seguir os principais: 1. Cooperação militar com vistas à segurança nas fronteiras dos países membros; 2. Combate ao terrorismo nacional e internacional; 3. Combate ao separatismo e 4. Cooperação econômica.

Este último aspecto diz respeito à uma perspectiva de criação de moeda ou cesta de moedas, alternativas ao dólar para o comércio internacional. Nesse aspecto, o bloco chamado BRICS tem essa perspectiva desde que, em julho de 2014, no Brasil, eles criaram um banco de desenvolvimento e debateram essa mesma temática da moeda alternativa. É preciso ressaltar que a China e a Rússia, com alguns países bilateralmente, já comercializam petróleo em suas próprias moedas, quais seja, o yuan e o rublo. O Irã também tem feito isso.

Quanto à cooperação internacional, vários estudiosos e analistas apontam de forma clara que os objetivos desse bloco, no que diz respeito às questões militares, visa prepararem-se para uma contraposição frontal com a OTAN, a organização militar sediada na Europa e comandada pelos EUA. 

Nessa mesma reunião eles decidem ampliar o bloco que, até então, tinha apenas cinco países. Admitem como membros plenos o Uzbequistão, a Índia e o Paquistão e como membros observadores a Mongólia e o Irã. Isso significa uma imensa faixa de terras em toda a Ásia. Como podemos ver na tabela que publico a seguir, esse bloco de oito países (membros plenos apenas) vai significar 40% de toda a população do Planeta, 25% do PIB do Planeta Terra e 7% de suas terras.

Sobre a questão militar e das forças armadas. Ainda na mesma tabela podemos ver as colunas de soldados na ativa e soldados na reserva em prontidão para serem convocados, ou seja, um conjunto de jovens que já foram soldados e que podem ser convocados a qualquer momento. Os quatro pequenos países praticamente não possuem exércitos. Mas, China, Rússia, Índia e Paquistão possuem quase cinco milhões de soldados ativos e o mesmo número na reserva, de forma que seu contingente militar atinge 9,5 milhões de soldados.

Já os Estados Unidos possuem 1,35 milhão de soldados na ativa e 810 mil na reserva. Isso totaliza 2,1 milhões de soldados em condições de luta. Dessa forma, vê-se que o bloco possui cinco vezes mais soldados do que os EUA. No entanto, sabemos que em termos de capacidade militar, especialmente por mar e pelo ar, a superioridade dos EUA é muito maior. Até por causa do que eles gastam em atividades militares. Enquanto todo o bloco dispende US$350 bilhões de dólares em seus orçamentos militares, os EUA, sozinhos gastam todos os anos U$611 bilhões de dólares, na verdade, a soma de todos os gastos militares de todos os países não atinge o que, sozinho, os Estados Unidos gastam ao ano.

Tenho certeza e convicção de que ainda iremos ouvir falar muito desse bloco militar e econômico chamado OCX. Aguardem. 

* Sociólogo, professor universitário (aposentado), pesquisador, analista internacional e autor de dez livros na área de política internacional e Sociologia. É colaborador das páginas de Internet Brasil 247, Fundação Grabois, Vermelho, Resistência e Duplo Expresso.