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Agências de risco são cooptadas por mercados financeiros

Jornal da USP Publicado em 28.02.2018

Segundo a economista Leda Paulani, rebaixamento do grau de investimento brasileiro "serve muito para fazer terrorismo, empurrar reformas que de outra maneira não se conseguiria aprovar". "São os novos oráculos mundiais? Qual a importância efetiva dessas notas?", pergunta ela.

São Paulo – Em entrevista à jornalista Roxane Ré, do Jornal da USP, a professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Leda Paulani questionou os interesses de agências de avaliação de risco como a Standard & Poor’s, que no último dia 11, quinta-feira, rebaixou o grau de investimento do Brasil do nível BB para o BB-.

Ouça a entrevista na íntegra:

 

A Standard & Poor’s rebaixou o grau de investimento do Brasil três níveis abaixo daquele considerado como bom pagador. A agência, em comunicado oficial, explicou que esse corte deve-se, entre outros fatores, à demora na aprovação de reformas fiscais, como a previdenciária. Contudo, o rating soberano foi classificado como estável, o que significa que não estão previstos outros rebaixamentos nos próximos anos.

"Antes de falar das razões, é preciso lembrar o que significam essas agências de rating. São os novos oráculos mundiais? Qual a importância efetiva dessas notas?", pergunta a economista. "A gente não pode esquecer que uma das causas da enorme crise que afundou a economia mundial em 2008/2009 foi o papel dessas agências. Elas são absolutamente cooptadas pelos mercados financeiros mundiais e portanto dizem um samba de uma nota só."

Para Leda, o rebaixamento interessa ao governo Temer, já que seria um elemento a mais para forçar a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287, da "reforma" da Previdência. "Ontem, conversando com um amigo, dizia 'olha, não se surpreenda se daqui a um tempo nós soubermos que houve até um incentivo do governo brasileiro no rebaixamento dessa nota'. Por que isso aumenta a pressão dentro do Brasil para se fazer essa reforma que se julga a panaceia para todos os males, e que está difícil para o governo fazer", afirma. "Serve muito para fazer terrorismo, empurrar reformas que de outra maneira não se conseguiria aprovar."

A economista defende que sejam discutidas modificações no regime previdenciário, mas acredita que essa é uma questão superdimensionada. "Existe uma questão previdenciária porque existe um crescimento da expectativa da população. Com isso, algum ajuste tem que ser feito, qualquer que seja o regime, pode ser o de repartição simples, como é o geral do INSS, ou o de capitalização, como é o dos fundos de pensão. Agora, primeiro, isso não é a panaceia para todos os males. Segundo, a consequência disso a curto prazo é nula para a economia."