Autores - FÁBIO PALÁCIO E CRISTIANO CAPOVILLA - Gonçalves Dias, poeta da nacionalidade

Gonçalves Dias, poeta da nacionalidade - Parte final

Fábio Palácio e Cristiano Capovilla Publicado em 13.02.2014

Não é possível construir um projeto próprio sem um pensamento próprio e uma autoimagem altiva. Isso é tudo o que parece “gritar” aos nossos ouvidos, a cada momento, a poesia de Gonçalves Dias. Uma lição à qual é preciso retornar sempre, considerando que, a respeito dela, sempre poderemos aprender mais e melhor.

IV. Conclusões: Gonçalves Dias e as lutas do povo brasileiro

Qual a importância de reler Gonçalves Dias 190 anos depois de seu nascimento? Nestes tempos em que vivemos, vistos pela maioria dos intelectuais como de anomia nas artes e na cultura, que valores nos evocaria uma releitura do poeta da “Canção do Exílio”? Que novas inspirações nos traria sua obra no momento mesmo em que o universalismo cosmopolita condena os costumes e as práticas genuínas de nosso povo? No momento em que o liberalismo político reformata as instituições nacionais para melhor aplicar o receituário econômico transnacional emanado dos centros dominantes? Que teria a nos dizer Gonçalves Dias, enfim, em um momento no qual tendências “globalitárias” reivindicam a morte dos valores pátrios?

São perguntas que, em si, já trazem implícitas suas próprias respostas. No mundo em que vivemos, o mesmo em que se verifica a persistente recusa — em nome do pragmatismo de mercado — de um objeto complexo como o universo das letras, é missão do trabalho conceitual curvar-se sobre as proposições relativas ao discurso estético, chamando para si a responsabilidade de apontar saídas para os impasses contemporâneos. Aqui, ganham vigor renovado as palavras de Hegel: “Quando as sombras da noite começam a cair é que levanta voo o pássaro de Minerva” (1997, p. 39).

Acreditamos que, antes de mais, o sentido maior da obra de Gonçalves Dias reside naquilo que ela nos aporta em termos de compreensão dos fundamentos da identidade nacional. Que princípios fazem com que, apesar de diversos, sejamos um e mesmo povo? Essa não é uma questão meramente retórica ou diletante: ela tem uma dimensão política incontornável. Relaciona-se ao propósito de unir o povo brasileiro, cada vez mais, em torno de seus genuínos interesses, fazendo com que reconheça como seu e sustente um projeto nacional.

A fim de levar adiante o projeto, de dimensão histórica, de construção e afirmação da cultura brasileira, é de fundamental importância, em primeiro lugar, empreender algo que poderíamos classificar como uma arqueologia da consciência nacional. Trata-se da paciente tarefa de perlustrar a história da formação intelectual de nosso povo em busca dos rastros reveladores de como se deu entre nós, em cada momento, a construção da ideia de brasilidade.

Essa tarefa revela-se ainda mais meritória no momento em que o Brasil, em busca de sua segunda e definitiva independência, iça velas e ruma para o oceano largo do desenvolvimento. A afirmação de um novo projeto nacional encontra na defesa e na renovação da identidade nacional uma sua faceta destacada: a de cunho teórico-ideológico. Esse momento da consecução do projeto nacional — relacionado à defesa da identidade — cresce de importância em um país que adentra o século XXI postulando para si posição de destaque no concerto das nações.

Não é possível para um povo trilhar caminhos autênticos e perscrutar alternativas sem pensar “com a própria cabeça”. Por outro lado, isso jamais poderia acontecer do dia para a noite. É preciso maturação, acúmulo de trajetórias. É preciso que o povo viva sua própria experiência. Só trilhando caminhos próprios pode uma nação aprender a reconhecer seus legítimos interesses. Só trilhando caminhos próprios pode ela aprender a pensar de maneira autônoma, pondo de lado os modelos importados. É nesse processo que se vai configurando um patrimônio em termos de pensamento nacional.

São três os momentos da formação da ideia de nacionalidade em nosso país. Do ponto de vista político, podemos denominá-los pensamento colonial, pensamento imperial e pensamento republicano. Do ponto de vista cultural, esses três momentos correspondem, grosso modo, ao pensamento barroco, ao Grão-Romantismo (que inclui pedaços do Arcadismo) e ao Modernismo.

O Barroco é pensamento forjado pelo Estado metropolitano nos marcos do Brasil colonial. É, portanto, pensamento sobre o Brasil, mas não propriamente pensamento brasileiro. Há já, aqui e ali, traços de nativismo. Isso não se dá à toa. Seria impossível mesmo ao Estado metropolitano pensar o Brasil sem minimamente recolher elementos de sua geografia, de sua história, de sua cultura. Em última instância, não há pensamento sobre a nação sem referências, mesmo que mínimas, às suas condições naturais e humanas. Ou, como afirma SODRÉ, “em política, como em cultura, só é nacional o que é popular. [...] Povo e nação não são a mesma coisa, [...] mas esta é uma situação histórica apenas” (1963, p. 17).

Com o Romantismo a solução de compromisso entre o Brasil e os brasileiros dá um passo adiante. A figura mestiça de Gonçalves Dias, como vimos, desempenha papel importante nesse processo. A obra gonçalvina descortina horizontes, descondiciona mentes, revela um Brasil até então desconhecido. O indianismo, ideologia da qual se constitui como um dos principais porta-vozes, representa “a realização mais fecunda do nacionalismo americano” (GRIZOSTE, 2011, p. 47). Com Gonçalves Dias e o círculo romântico tem início uma ideia de Brasil pensada pelos próprios brasileiros. Mas essa luta é travada ainda nos marcos do Estado imperial, o qual apenas realizava as tarefas básicas à manutenção da unidade nacional nos planos econômico, político e ideológico.

Vem a modernidade e, com ela, a construção da brasilidade atinge novo patamar. Esse esforço, conforme já dito, segue nos dias de hoje e entra em etapa por assim dizer decisiva. O povo, mais consciente de seus interesses, assume as rédeas da nação e lança-se ao futuro, empreendendo passos decisivos no rumo da superação de estruturas arcaicas, processo que pode abrir caminho a transformações profundas, de sentido histórico.

É nesse ponto que, ao tempo que olhamos para a frente, é necessário ter em conta a trajetória percorrida. Resgatar a lírica de Gonçalves Dias e sua visão de mundo subjacente contribui para jogar luzes sobre os embates do presente, protagonizados pelo Brasil e por seu povo.

Certamente não terá sido por acaso que, durante o último quarto do século passado, a obra de Gonçalves Dias tenha sido mergulhada em certo ostracismo. Nesse período pontificou entre nós a tese da ausência de alternativas. O Brasil parecia não ter outra saída senão atrelar seu destino aos das nações centrais. O país e seu povo afundaram, então, na perda da autoestima. Investiu-se na completa desmoralização da ideia de um projeto nacional.

Novos tempos, porém, sempre chegam, e eles chegaram. É hora de reler Gonçalves Dias. Não com os olhos do século XIX, nem com a mente no século XX. É preciso reler o poeta buscando as lições renovadas que pode legar, em pleno século XXI, à inteligência brasileira. E a nosso ver essas lições podem ser enumeradas em quatro pontos principais.

a) Inventividade para pensar alternativas

A intelectualidade brasileira sempre cultivou o hábito de enxergar o país a partir de configurações mentais próprias da realidade europeia. Chegava, mesmo, a ver os conflitos ideológicos do país como meras extensões do que ocorria na Europa. Assim como o Romantismo alemão contribuiu para abrir caminhos e descondicionar mentes, também o Romantismo brasileiro teve efeitos semelhantes em nosso país.

Uma das grandes lições da obra de Gonçalves Dias pode ser assim enunciada: não podemos temer a abertura à imaginação. É necessário não ter medo de pensar, de explorar novos caminhos, de inventar alternativas. Mesmo os recessos mais aparentemente absurdos da mente humana podem trazer importantes respostas.

É assim que, ao compor sua arte, o poeta lançou mão de invulgar esforço criativo para relacionar distintas premissas teóricas e chegar a uma conclusão singular: a nação brasileira, através de sua arte, possui originalidade. Ela tem algo de novo a dizer ao mundo.

b) Visão íntegra do ser humano

O ser humano é uno. Não há um ser humano que conhece, outro que representa, outro que sente e mais um que age. Nossa educação e nossa cultura precisam valorizar esse pressuposto anti-iluminista, com certeza o mais adequado ao povo brasileiro. Afinal, somos um povo profundamente prático, mas também dotado de uma sede insaciável de valores e beleza. Buscamos o sentido da criação original e a efusividade que em tantas coisas comparecem em nossa terra — das paisagens magníficas ao exotismo da beleza feminina. Não sabemos conviver com a vitória medíocre, alcançada sem méritos. Não nos basta chegar ao objetivo — é preciso alcançá-lo do jeito mais belo e criativo.

Foi como agiu Gonçalves Dias na construção de sua poética, a ponto de um SODRÉ afirmar que no poeta maranhense conjugam-se “os motivos e a capacidade de transfigurá-los e de transmiti-los. [...] Perfeição formal, poética rica, variada e clara, inspiração forte e profunda, foram elementos que, raramente juntos, Gonçalves Dias possuía no mais alto grau” (1988, p. 283).

A arte, ao contrário do que parece supor o criticismo iluminista, é uma esfera dentro do mundo e da vida, esfera igualmente vinculada à historicidade das relações humanas e ao seu contexto produtivo, existindo de maneira conjugada com as outras dimensões. Danem-se, neste ponto, as estreitas divisões capitalistas do trabalho! É essa busca criativa pela autonomia no modo de viver, sentir, produzir e pensar que torna Gonçalves Dias contemporâneo dos conflitos que vivemos. Ele próprio o explica no prólogo da primeira edição dos Primeiros Cantos:

“Casar assim o pensamento com o sentimento — o coração com o entendimento — a ideia com a paixão — colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia — a Poesia grande e santa — a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.” (in DIAS, 1998, p. 103)

c) Valorização do caráter heroico e combativo do povo brasileiro

“A vida é combate”, diz-nos a poética gonçalvina. Uma lição que o povo brasileiro teve de aprender desde cedo — desde muito antes que ela pudesse ser enunciada literariamente. Ao contrário do que postula a herança ocidental europeia, com seu “cogito” e seus excessos racionalistas, o ser humano é antes de tudo o que nos revelam suas práticas — o ser humano é a vida em comunidade. A verdade da humanidade reside, assim, na sua vida prática. Reside na capacidade de transformar o mundo, tornando-o mais humano.

Esse pensamento reside, em Gonçalves Dias, não apenas nas palavras vistas como unidades semânticas; reside nas palavras como unidades rítmicas. Reside “no crescendo de tambores, na música do combate” (SODRÉ, 1988, p. 283) que ecoam da poesia gonçalvina, como que a dizer: o povo brasileiro é de luta!

d) Afirmação da nação e de seu projeto próprio


Conforme já sugerido, não é possível construir um projeto próprio sem um pensamento próprio e uma autoimagem altiva. Isso é tudo o que parece “gritar” aos nossos ouvidos, a cada momento, a poesia de Gonçalves Dias. Uma lição à qual é preciso retornar sempre, considerando que, a respeito dela, sempre poderemos aprender mais e melhor.

A potência da lírica de Gonçalves Dias é fonte fundamental de conhecimento daquilo que somos, temos sido e podemos ser ainda mais. Trata-se de um códice dotado de eternidade. Estará ele sempre lá, apontando para a necessidade de permanente reflexão sobre nossos horizontes futuros, dentro dos quais alcançaremos patamares mais e mais elevados no que respeita à verdadeira independência e à afirmação deste projeto em aberto chamado Brasil.

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