Entrevistas

O dilema do Partido Republicano para manter base extremista de Donald Trump

Cezar Xavier Publicado em 20.01.2021

Historiador americano analisa o dilema histórico do Partido Republicano diante do apoio de Trump a terroristas, que compõem base importante para sua influência no poder.

O historiador e brasilianista James Naylor Green, especializado em estudos latino americanos na Universidade Brown, comentou as consequências do golpismo de Donald Trump nos EUA, durante live. A ofensiva democrata contra Trump contrasta com a necessidade de apaziguar o país diante de uma pandemia letal. Do mesmo modo, o partido de Trump, os republicanos, vivem um beco sem saída em que perdem parcelas de apoio social, enquanto lutam para manter a base conquistada pelo ex-presidente entre racistas, extremistas, suprematistas brancos e conspiracionistas

A Invasão do Capitólio dos Estados Unidos do dia 6 de janeiro de 2021, depois de partidários do presidente Donald Trump, convocados por ele, se reuniram em Washington, para protestar contra o resultado da eleição presidencial de 2020, isso tudo justamente na data em que a Câmara e o Senado se reuniriam para ratificar a vitória do democrata Joe Biden. O protesto se baseava na alegação falsa de Trump de que houve fraude nas votações. 

No início, os manifestantes se reuniram para o comício “Save America”, onde os participantes ouviram os discursos de aliados. Um dos discursos era do advogado pessoal de Trump, Rudolph Giuliani, que convocava os manifestantes a resolverem a disputa eleitoral num “julgamento por combate”, excitando os ânimos.

Depois houve a invasão que durou boa parte da tarde e continuou até o começo da noite. Na madrugada, as forças policiais conseguiram recuperar o controle do Capitólio, que foi depredado. Cinco pessoas foram mortas (quatro manifestantes e um policial) e dezenas foram presas e estão sendo investigadas.

 

O repúdio eleitoral a Trump

Green considera importante contextualizar os fatos, a partir da terça-feira (5), dia anterior à invasão, em que foram definidos os dois senadores da Georgia, numa eleição especial, que representou uma guinada contra os republicanos. Com uma grande população negra, de 30%, o estado sulista tem uma tradição conservadora. Uma líder negra foi candidata a governadora em 2018 e perdeu por poucos votos. Desta vez, ela fez uma ampla campanha de filiação de eleitores e conseguiu a eleição de um reverendo negro da mesma igreja de Martin Luther King, em Atlanta e de um jovem documentarista judeu e progressista, ambos democratas.

Isto implicou numa maioria democrata no Senado, que contribui para a aprovação de leis do novo governo Biden. A eleição na Georgia teve um valor simbólico para todo o país, para além da derrota de Donald Trump por sete milhões de votos a mais, inclusive com ampla mobilização de eleitores republicanos. Para o historiador, isto representou um grande repúdio a Trump.

“Nesta segunda eleição, eu rezava, mas não imaginava que fosse possível eleger os dois senadores. De novo, isso foi mais um repúdio a Trump”, enfatizou.

No dia da ratificação dos votos de delegados, que Green sempre considera um aspecto antiquado e antidemocrático das eleições americanas, Trump acreditava que seu vice, Mike Pence, poderia anular os resultados de vários estados e declarar listas alternativas para reverter as eleições. Assim, os procedimentos formais começaram a partir desses questionamentos que interrompem a sessão. No entanto, em meio a essas formalidades, o capitólio foi invadido de forma violenta. Green considera que um guarda foi inteligente e hábil em evitar a invasão do Senado, em questão de segundos.

“Parece evidente que eles queriam sequestrar os políticos que estavam acuados numa sala e mantê-los como reféns. Houve gritos de morte a Pence (o vice republicano) e caça à presidente da Câmara, Nancy Pelosi. Literalmente, por um minuto, não conseguiram fazer isso”, acredita ele. Dentro da multidão, haveria esse setor de milícias muito organizadas que teriam conspirado neste sentido.

Ele observa que ficou muito evidente para o país, que se o grupo invasor fosse de negros, haveria um massacre com tiros a queima roupa. A segurança do Congresso teria sido frouxa com a invasão, inclusive com participação de ex-militares e policiais entre os invasores. Houve inclusive colaboração de guardas do capitólio na invasão. Por outro lado, é recente a memória da brutalidade policial e militar contra o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que não tinha intenções terroristas.

Punição necessária

Com a instauração desta crise, os democratas tomaram três atitudes: pedir a renúncia de Trump; invocar a emenda 25 da Constituição (escrita em1967, depois do assassinato de John Kennedy em 1963), em que o vice-presidente declara a incapacidade do presidente de continuar governando; e apresentar uma moção de impeachment no Congresso.

Green também explicou porque é importante tomar algumas dessas medidas drásticas, quando o mandato de Trump está a poucos dias de terminar. Os argumentos democratas são três: não se pode deixar uma insurreição contra o poder legislativo sem implicações para o presidente, que incentivou a violência; Trump insiste na mentira da fraude eleitoral; diferente do Brasil, a votação do impeachment afastaria Trump de imediato e abriria a possibilidade de impedi-lo de disputar nova eleição federal em 2024.

No entanto, Green considera interessante observar que apenas Mitt Romney, entre os senadores republicanos, votaram pelo impeachment de Trump no ano anterior, enquanto nenhum deputado na Câmara. Agora, vários senadores republicanos parecem favoráveis ao impeachment, assim como até doze deputados parecem considerar a necessidade de afastar Trump. “Há uma mudança de conjuntura, em parte, porque esses políticos se viram ameaçados pela multidão. Setores do capital financeiro também se afastaram e não devem apoiar Trump, mais, como revela o rompimento de laços de dois bancos que investiam nas empresas do grupo Trump”.

Desespero pelo auto-perdão 

Para Green, Trump teria uma tarefa única antes de sair: conseguir o perdão de todos os seus crimes federais. Como é inviável se autoperdoar, sua opção seria renunciar para Pence assumir e obter o perdão para ele em nome de uma unidade nacional. Foi assim com Richard Nixon em 1974, pivô do escândalo de Watergate.

Esta aposta do analista não se confirmou, conforme Trump não renunciou, nem Pence garantiu o perdão federal. Com isso, o ex-presidente está num beco sem saída em relação à justiça americana.

Sem os incidentes deste início de ano, Green já acreditava que Trump corria risco de punição por crimes de sonegação fiscal, entre outros. Mesmo conseguindo o perdão federal, portanto, crimes de alçada estadual continuam tramitando na justiça. A implicação dele em tentativa de fraude eleitoral na Georgia, por exemplo, é um deles. Em Nova York, ele também responde por fraude bancária, fraude imobiliária e violação de duas mulheres. Fora da Presidência, ele terá que fornecer DNA para uma investigação de violação sexual, que pode condená-lo. Ele também corre risco devido a um assessor pessoal, Michael Cohen, preso ao pagar para silenciar duas mulheres, durante campanha eleitoral. Aliás, vários assessores de Trump enfrentam problemas com a justiça. 

“Portanto, ele tem muitas vulnerabilidades, por isso tenta desesperadamente manter-se no poder.

Base trumpista consolidada

Sobre a frase muito repetida de que aquilo que o mundo viu acontecer no capitólio não representava os americanos, Green fez uma comparação com o Brasil. Para ele, é possível entender isso observando como os EUA se parecem com o Brasil em muitos aspectos, atualmente. “Nos EUA, como no Brasil, infelizmente, um grande setor da população é muito ignorante e desinformado, e estão apoiando Trump, como apoiam Bolsonaro”.

Para ele, a base atual do Partido Republicano não é natural, por ser um defensor do capital financeiro e do “capitalismo selvagem”. “Trump conseguiu mobilizar uma base branca e racista com questões de ansiedade da realidade americana atual e conseguiu consolidar essa força. O Partido Republicano sabe que precisa dessa base para conseguir se manter no poder e teme perder essa base se romper com Trump”, analisou.

Trump soube manter essa base ao sinalizar gestos racistas que dialogavam com esses setores. Também homenageava e perdoava crimes de lideres importantes desses grupos. A QAnon dissemina uma conspiração de que os democratas são pedófilos e que Trump luta contra isso, algo que milhões acreditam e fazem a realidade se encaixar nesse delírio.

Por outro lado, o Partido vai sendo cada vez mais associado com a violência que se testemunhou naquele dia. As investigações sobre os incidentes e os envolvidos vão revelar muito sobre as milícias de direita e seu caráter terrorista, assim como a possível participação do Partido na coordenação dos crimes, o que deve afastar muitas pessoas do Partido Republicano. Trump defendeu essas pessoas, mandando beijos e abraços aos invasores. “É muito interessante a dimensão da crise dentro do Partido Republicano”.

A unidade nacional

Os democratas, por sua vez, também são cobrados para garantir uma unidade nacional diante dos tensionamentos criados. Até o momento, insistem no impeachment que deve ser obstruído no Senado pelo atual presidente republicano da Casa. 

Biden tem um grande problema emergencial para solucionar, que é a baixa vacinação deixada por Trump, apesar das promessas. O presidente deixou menos de 10 milhões de vacinados, quando prometia 20 milhões, enquanto Biden promete vacinar 100 milhões nos primeiros cem dias de governo. “Biden teme perder o foco na vacinação para se dedicar ao processo de impeachment”, afirma Green.

O professor diz que é preciso observar nos próximos dias se os republicanos vão ficar na defensiva ou vão pra ofensiva, sendo minoria no legislativo.

Pandemia e pandemônio 

Ele voltou a comparar com o Brasil, o clima entre os americanos pela coincidência do agravamento da crise sanitária com o acirramento da crise política. Como no Brasil, alguns lugares são mais conscientes que outros da gravidade da doença e do contágio, com a população cansada da quarentena e disposta a visitar familiares entre o Natal e o Ano Novo, o que explodiu em contágios no início do ano.

Trump acreditou que falar em vacinação ia ajudar com sua popularidade,  observa ele, mas não tinha qualquer plano logístico de vacinação. Então muitos estados não estão preparados e nem capacidade de imunização. Biden tem ideias para envolver grandes espaços e o Exército no plano de imunização.

República de bananas

Green se incomoda com as referências que democratas fizeram ao dizer que o que aconteceu no capitólio faz os Eua parecerem uma “república de bananas”.

Ele considera o país muito contraditório em suas instituições, como no caso da fundação de sua democracia baseada na escravidão. “Foi uma longa tradição de luta para ampliar essa democracia parcial”, afirma.

A partir do século XIX, com os EUA se tornando uma potencial mundial e imperialista, havia a compreensão de que a América Latina era seu quintal que podia sofrer ingerências de todos os tipos, sem que fosse do interesse americano. Ele mencionou o investimento de 5 milhões de dólares pela CIA nas eleições brasileiras de 1962, em que os EUA foram derrotados por João Goulart, deposto em golpe militar, depois. A participação do governo americano na Lava Jato também é mencionada. “Assim, há um discurso interno sobre democracia que não se realiza, e um discurso externo de intervenções por todo o mundo”, denuncia.

“Para mim que sou crítico aos EUA, é uma prepotência falar em melhor país do mundo se tornando uma república de bananas, quando sabemos que as eleições brasileiras são mais eficientes”, declarou. Ele relatou sua candidatura ao Senado na Califórnia com votação de 5%, que, no sistema eleitoral de seu país, não significa nada, mas no Brasil teria eleito uma voz minoritária a deputado federal.

Este discurso tem sido desmascarado nos últimos anos, de acordo com Green. “Pessoas que não são de esquerda passam a perceber que os EUA são um império enfraquecido, um país com muitos problemas, muita hipocrisia, setores muito perigosos com força política, um presidente maluco no poder sem controle do partido”.