Especiais - PAULO FONTELES FILHO, homenagem a 45 anos de luta

João Canuto de Oliveira: “Morro, mas fica a semente”.

Paulo Fonteles Filho e Lélio Costa Publicado em 23.12.2015

O transcurso do 30° ano do assassinato de João Canuto de Oliveira, trucidado por doze tiros, pelas balas do latifúndio e da UDR em 18 de dezembro de 1985 revela o quão atual é a luta pela terra e pela justiça, na Amazônia e no Brasil.

Canuto era presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Rio Maria e dirigente estadual do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Sua morte mediante paga, covarde – como são todos os crimes de pistolagem e encomenda – causou muita comoção naqueles sertões brasileiros e uma multidão acompanhou seu corpo ao túmulo. Em coro, a exigência de justiça, a punição para os assassinos e mandantes e reforma agrária, tudo sob o manto musical do ‘Hino do Lavrador’.

Àquela altura, denúncias assinadas por dezenas de entidades da região do Araguaia, do Pará e do Brasil começavam a circular denunciando o caráter da violência do latifúndio e do Sindicato do Crime, patrocinado pela então famigerada União Democrática Ruralista (UDR) – cuja principal liderança era exercida pelo pecuarista Ronaldo Caiado, hoje senador e um dos mais raivosos dos golpistas de plantão – em conluio com quatro prefeitos da região, além da Polícia Militar do Pará.

A denúncia, do então deputado estadual Paulo Fonteles – que teve a morte reclamada numa reunião da UDR, dias antes, em Xinguara, munícipio recordista de conflitos fundiários e assassinatos no campo em todo Brasil à época e morto menos de dois anos depois de Canuto, em 1987 - indicava que ‘a animosidade dos latifundiários se deve a nossa atuação parlamentar e dos trabalhadores rurais que, através da luta renhida, expulsaram os pelegos dos sindicatos dos trabalhadores rurais e travam o bom combate contra a grilagem das terras, como é o caso de do meu amigo João Canuto em Rio Maria, no Sul do Pará’.

Fonteles, ainda enfatizava que ‘Denuncio e dou nome aos bois, os grileiros que mantêm milícias de jagunços e agora criaram a UDR. É o caso de quatro prefeitos do Sul do Pará – Orlando Mendonça, de Conceição do Araguaia; Arcelides Veronezze, de Redenção; Adilson Laranjeiras, de Rio Maria e Itamar Mendonça, de Xinguara – todos eleitos pelo PMDB, em 1982, mas cooptados em 1983 pelo famigerado Major Curió e atualmente envolvidos com a UDR’, vaticinou o então deputado e defensor dos posseiros no Araguaia.

Na denúncia, ainda, informava que ‘O sargento Pedrosa, da Polícia Militar, que estava em Rio Maria investigando a morte de João Canuto foi sumariamente afastado do caso pelo comando da PM de Conceição do Araguaia e transferido para o garimpo de Ametista, à 100 km, num verdadeiro castigo por suas investigações’. Aos desavisados é importante que saibam que o inquérito policial que apurou o assassinato de João Canuto só fora concluído no início da década de 2000, mais de quinze anos depois do crime. 

O juiz de direito da 2ª Vara da Comarca da Conceição do Araguaia, Enivaldo da Gama Ferreira, apontava em sua decisão, citada pelo deputado Paulo Fonteles em discurso na tribuna da Assembleia Legislativa do Pará em 1986, que ‘O problema é grave, lamentável e triste com relação ao envolvimento dos senhores prefeitos Orlando Mendonça e Itamar Mendonça na fuga de Jurandir, quer direta ou indiretamente. Pois os mesmos, chefes que são dos Poderes Executivos municipais de Xinguara e Conceição do Araguaia, têm a obrigação de zelar pela moralização e ordem públicas, e não compactuar com pessoas acusadas de prática de crime de homicídio, como é o caso de Jurandir, envolvido em dois crimes de homicídio perante esta Comarca.

A comoção causada pelo crime têm suas causas bem definidas. Aquele camponês, dirigente sindical, religioso e comunista, então chegado em fins de 1973 ao Pará, vindo do Goiás, pai de oito filhos – dois deles, José e Paulo, também assassinados em 1990 pelo latifúndio e a PM do Pará – e já avô, embora ainda jovem, se projetara como uma liderança de imenso prestígio entre os posseiros e demais camponeses da região do Sul do Pará. A imprensa de Belém, num misto de respeito e malícia apresentou-o como ‘o último grande líder sindical do Sul do Pará’.

João Canuto, dois anos depois de chegar a Rio Maria, foi despejado de suas posses, teve queimados seus pertences e casa e sua mãe, já idosa, faleceu em consequência desse ato de vandalismo. Mas Canuto, como muitos de sua geração, não esmoreceu, ao contrário.

Em 1980 já despontava como uma das mais importantes lideranças dos posseiros e no ano seguinte, em 1981, ingressara no então clandestino Partido Comunista do Brasil (PC do B). Nas eleições de 1982 concorreu à prefeitura de Rio Maria. E mesmo ‘pobre, morando em casa de terra batida só perdeu por 200 votos, devido à fraude na apuração’, dizia o deputado Paulo Fonteles.

Em 1983 assumiu a presidência do STR de Rio Maria. Seus companheiros lembram-se da bondade sem limites de Canuto, um homem capaz de levar um hanseniano nas costas, de passar as maiores privações, sem jamais se abater. Era também incorruptível e em vão os latifundiários e grileiros lhe ofereciam terras, gado ou dinheiro para que abandonasse a causa dos posseiros da região.

Nos dias anteriores ao hediondo crime, Canuto realizava a defesa de 45 famílias de lavradores, expulsos por grileiros da Fazenda Canaã. Ele, de fato, estava empenhado na luta daqueles trabalhadores rurais para reaver suas posses. Um mês antes de ser morto estivera em Brasília e denunciara pessoalmente a situação ao ministro Nelson Ribeiro, da Reforma Agrária. Recusara, também, uma oferta de 2 milhões de cruzeiros – uma fortuna à época – da Canaã, para abandonar o caso e a defesa de seus irmão de classe.

A sua consciência de lavrador compreendeu, em fins da década de 1970, travando contato com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) que na base da luta e da disputa pela terra na Amazônia estavam inseridas visões diferenciadas sobre a mais extensa região do Brasil. Acontece que desde fins da década de 1960 a Amazônia vem sendo objeto de uma feroz devastação e insana espoliação dos seus recursos naturais. Observou, como poucos de sua classe, que as terras, griladas, eram cedidas a poderosos consórcios nacionais e estrangeiros.

A ditadura militar (1964/1985) promoveu a expansão da empresa capitalista no campo, episódio em que a terra passa a ser mercadoria e ocorre a transição do predomínio econômico e político do latifúndio ao predomínio econômico da empresa agropecuária. Com a derrota das Forças Guerrilheiras do Araguaia, em 1975, as terras antes largas e prenhes de fartura são inseridas nas relações capitalistas de produção, controladas pelas grandes empresas e o poder dos generais vai favorecer e acelerar o malsinado modelo.

É essa mudança que vai alimentar uma profunda revolta na imensa maioria da massa camponesa pelos sertões do Araguaia e em todo o Sul do Pará. A geração de Canuto – aí inclusos os também assassinados Raimundo Ferreira Lima, Belchior, Padre Josimo, Paulo Fonteles e Expedito Ribeiro de Souza - foi de lavradores, religiosos e advogados que resistiram à instalação de diversos grupos financeiros e econômicos, sempre através da grilagem e da sanha dos pistoleiros, de potentados como a Sul América, Atlântica Boa Vista, Peixoto de Castro, Bradesco, Bamerindus, Atlas, Nixdorf, Volkswagem, King´s Ranch, United Steel Corp. e John Davis.

Diante do túmulo do herói camponês trucidado, Neuton Miranda, em nome do Partido Comunista do Brasil (PC do B) assinalou que ‘Enganam-se os assassinos de Canuto, se pensam que arrefeceremos nossa luta.  Nós faremos de nossas fraquezas, forças. E levantaremos mais alto a bandeira da luta pelas liberdades, pela reforma agrária, independência nacional e pelo socialismo’.

Passados 30 anos de seu assassinato, João Canuto e sua memória de combates continua nos inspirando, sempre como um vento generoso, uma lâmina afiada contra os inimigos do povo que se traduzem nos famigerados golpistas da atualidade.

Canuto Vive!

*Paulo Fonteles Filho é blogueiro e membro da Comissão da Verdade do Pará e Lélio Costa é agrônomo, servidor de carreira do Ministério do Planejamento e deputado estadual do PC do B no Pará.

Arte de Angelina Anjos.

Referências bibliográficas:

Filho, Moacyr de Oliveira. Rio Maria: a terra da morte anunciada. Editora Anita Garibaldi, 1991.

Centro de Documentação e Memória Fundação Maurício Graboishttp://grabois.org.br/admin/arquivos/arquivo_34_1104.pdfe

Fonteles Filho, Paulo. Araguaianas: As histórias que não podem ser esquecidas. Editora Anita, 2013.


A UDR e o terrorismo patronal da redemocratização. Relatório da Comissão Nacional da Verdade - Volume II - Textos Temáticos. Texto 3: Violação dos direitos humanos dos camponeses. http://paulofontelesfilho.blogspot.com.br/2014/12/a-udr-e-o-terrorismo-patronal-na.html