Especiais - Guerrilha do Araguaia, uma geração de armas nas mãos contra a ditadura

Osvaldão chega aos cinemas como exemplo para juventude estudantil

Cezar Xavier Publicado em 01.12.2015

O documentário sobre a vida do guerrilheiro que lutou pelo fim da ditadura militar na região do Araguaia (PA), Osvaldão, entra em circuito nacional no próximo dia 10 de dezembro, mas nesta segunda-feira (30) houve a concorrida pré-estreia na capital paulista. Nos últimos dias, o filme tem sido exibido nas escolas paulistas ocupadas por estudantes, sob ameaça de fechamento pelo governador.

Osvaldão conta a história de Osvaldo Orlando da Costa, o jovem negro mineiro que entregou sua vida na luta pelo fim da ditadura militar no Brasil. Entre as singularidades da produção deste filme, ele estreia num período em que o Brasil sofre uma profunda crise política, com ofensiva reacionária, aliada a um contexto de ocupações estudantis de escolas no estado de São Paulo, devido à ameaça de fechamento dos equipamentos educacionais.

No esforço de levar o filme até seu público, os diretores – Ana Petta, André Lorenz Michiles, Fábio Bardella e Vandré Fernandes – estão fazendo exibições gratuitas da obra nas escolas ocupadas. Também foi feita uma campanha de financiamento coletivo na internet para que o filme chegasse às salas de cinema, com sucesso em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Fortaleza, entre outras localidades.

Nesta segunda-feira, 30, o filme teve sua pré-estreia no Espaço Itaú de Cinema, onde entrará em cartaz a partir do dia 10 de dezembro. Com sessão disputada, tomada por familiares de Osvaldão, realizadores, artistas e interessados no assunto, assim como contribuintes da campanha virtual de financiamento, o filme foi apresentado e ovacionado em sua versão mais bem acabada. Uma primeira versão já havia sido apresentada durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (ver a videorreportagem abaixo).

Confira o que foi dito após a sessão em São Paulo, na noite desta segunda, 30:

Renato Rabelo, ex-presidente nacional do PCdoB:
O filme
: Dos filmes acerca da resistência do Araguaia, é dos melhores documentários que eu já vi. Uma narrativa belíssima, um roteiro muito bem feito.
Tem também um sentido marcante que busca desde a origem do Osvaldão e vai num crescendo mostrando que um cidadão simples chega onde chegou e tem essa grande capacidade como lutador da liberdade e da democracia. Ele deixou uma grande marca não só para aquele momento, mas para hoje e para o futuro.
Eu estive em Xambioá, quando fomos espargir as cinzas de João Amazonas, e ao conversar com as pessoas, vimos que o Osvaldão é uma lenda, mesmo entre os jovens. Os outros guerrilheiros também. O povo tinha a Dina como uma pessoa de uma solidariedade gigantesca, e tinham ela como uma santa. Assim era o povo da região.
Campanha de financiamento coletivo: Precisamos que a juventude venha assistir filmes como esse porque é a memória que as classes dominantes e as forças armadas, sobretudo, procuraram enterrar, como fizeram em Canudos que não deixaram uma pessoa viva e tentaram tirar todo o rastro possível. Assim foi com o Araguaia.
Precisamos criar as condições para que a memória venha à luz do dia. Se não for assim, não vamos conseguir que a memória sobreviva. Uma nação que não tem memória é uma nação que não tem futuro. As pessoas percebem isso, os setores mais conscientes, de que é preciso resgatar a verdade e a memória. Essa não é qualquer questão, essa é a força de uma nação.
Eu vivi na França cinco anos e vi o enorme esforço que eles fazem para que se resgate a memória de todos os períodos, sobretudo da resistência contra o nazismo, que foi impressionante. Eles marcam até nas ruas onde houve uma prisão ou um pequeno combate. Está tudo registrado, sem falar toda a história que é resgatada. Por que? Isso dá grande força à nação francesa, diziam eles.
É um despertar de que é preciso que as novas gerações conheçam o que foi a história de resistência e luta desse país. O filme indica que se não fossem esses lutadores, nós não teríamos essa liberdade de hoje. A liberdade não se consegue simplesmente no diálogo e na conversa, é luta dura, difícil, com muita gente morrendo, com mártires e heróis. Se não se conhece isso, não se conhece nada.

Adalberto Monteiro, presidente da Fundação Maurício Grabois:
Através desse milagre que o cinema é capaz de operar, a gente dá visibilidade e, porque não dizer, dá vida a um personagem importante da história brasileira e também a uma página épica da luta de resistência à ditadura militar. Dar vida ao Osvaldão é jogar luz à guerrilha do Araguaia.
No ano passado, por ocasião dos 50 anos do golpe militar, a gente revisitou que a ditadura, por vários métodos pretendeu ocultar de todas as formas a luta dessa brava gente brasileira, seja pelo assassinato de opositores, ou os métodos de ocultamento dos restos mortais desses heróis e heroínas do povo brasileiro.
A lógica era que as novas gerações não tivessem conhecimento de quantas vidas e quantas lutas custou a liberdade que respiramos e que se encontra novamente ameaçada na atualidade.

Vandré Fernandes, diretor:
Campanha de financiamento coletivo:
Tem uma vontade do povo recontar sua própria história. São quatro diretores, a gente passou uma vaquinha nos movimentos sociais, sindical e estudantil e todo mundo ajudou, primeiro pra produzir o filme, e depois o financiamento coletivo no catarse para levar para o cinema comercial em São Paulo, no Rio, em Minas, na Bahia, Maranhão, Rio Grande do Sul.
Vê-lo chegar ao cinema deixa a sensação de trabalho concluído. Sair do cinema e ver as pessoas sorrindo, chorando e se abraçando, acho que a gente atingiu o objetivo.
Período recente da atual conjuntura brasileira, as pessoas têm revelado uma intolerância muito grande de não conviver com o próximo só porque pensa diferente, porque torce por um time diferente e por uma religião. Todo mundo muito aflorado. Este é um filme sobre o homem que agregava pessoas diferentes por um objetivo comum que era lutar por uma unidade do povo. Acho que isso encanta e sensibiliza todo mundo.

Fabio Bardella, diretor:
A campanha de financiamento coletivo:
O Osvaldão é uma história que precisa ser contada e eu fico muito feliz que as pessoas tenham se sensibilizado com isso e tenham contribuído para que o filme ganhasse as salas de cinema. Temos uma dívida com esses heróis e histórias que foram apagadas.
As pessoas estão sacando que tem muita coisa boa e muita gente com potencial sem espaço pra distribuir no mainstream. A gente não ganhou um edital de um milhão pra fazer esse filme. Sempre foi feito de forma independente coletando recursos em diversos espaços, desde o primeiro financiamento da Fundação Maurício Grabois.
Varios indivíduos juntos estão conseguindo fazer com que essas temáticas ganhem as telas.
É uma obrigação que esse filme ganhe até mais lugares do que já ganhou. Fico até triste porque eu queria que ele passasse nos 27 estados, e não apenas em seis. Acho que é só o início de uma batalha. O Osvaldão tem que passar nas escolas, tem que ter um link disponível na internet.
Escolas ocupadas: Estive nas duas exibições e montei as telas. Embora tímida, a primeira exibição foi heroica, uma sala antiga com projeção na parede, e sentimos o clima mudar dentro da sala, porque estávamos mostrando um espírito de luta para jovens lutadores. Falei: passamos o filme para que vocês encontrem o Osvaldão dentro de vocês.
A segunda exibição foi externa, mais integrada com a escola, num final de domingo único com os alunos sentados numa escadaria, atentos. Aplaudiram muito e quiseram falar sobre o filme. De alguma forma, o Osvaldão esteve ali.

Ana Petta, diretora:
Atualidade
: Contar essa história é muito importante num momento como esse, porque tem muita gente que ainda defende a volta da ditadura militar e o filme ficou tristemente atual. Então a gente ainda tem que falar sobre esse assunto e falar dessas histórias, especialmente sobre a Guerrilha do Araguaia que é tão pouco estudada nas escolas.
Campanha de financiamento coletivo: Foi fundamental! Sem a contribuição dessa vaquinha virtual no Catarse nós não teríamos conseguido. Documentário de baixíssimo orçamento, feito na raça.
É muito legal terminar a sessão com todos os nomes de quem contribuiu. É um jeito de fazer cinema muito bonito.
Espero que a gente consiga fazer um pouco do que conseguimos fazer aqui, em São Paulo, trazer as pessoas para o cinema, sensibilizar, contar e continuar nas escolas depois que ele sair de cartaz.
Escolas ocupadas: Os jovens têm muita identidade com o Osvaldão, porque o filme conta a história dele como estudante, no grêmio, fazendo movimento. Quem está nas escolas fazendo o movimento de ocupação são também jovens Osvaldões.
Este é o nosso sonho para o filme, e ele não poderia estar em melhor lugar do que nas escolas ocupadas pelos estudantes.

Flávio Renegado, músico:
Atualidade
: Um momento mais do que importante para a história do Brasil. Eu que fui um negro na escola que sempre vi minha raça subjugada nos livros de história, e esse país que não reconhece Zumbi dos Palmares, hoje a gente está tendo a oportunidade. O que os livros de história não contam está sendo exibida aqui, hoje.