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Guerrilha do Araguaia: mitos e realidade

Osvaldo Bertolino Publicado em 26.11.2014

Acaba de vir à luz mais uma obra que se propõe a analisar a Guerrilha do Araguaia. Apesar das lacunas, das interpretações errôneas e das informações falsas, o livro cumpre o importante papel de divulgar acontecimentos relevantes daquela luta armada e denunciar os crimes praticados pela ditadura militar.

Uma leitura agradável. Essa é a primeira constatação sobre o livro “Araguaia — histórias de amor e de guerra”, do jornalista Carlos Amorim, com 504 páginas, publicado pela Editora Record. Profissional experiente e caprichoso na escrita, o autor produziu um texto de excelente qualidade, revelando nuances não só da Guerrilha como de toda a resistência democrática à ditadura militar. O Araguaia aparece como recheio, com ênfase nos relatos de duas testemunhas oculares dos acontecimentos — José Genoino e Micheas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia. Amorim também se apoiou nos relatos de Ângelo Arroyo, um dos líderes daquele movimento armado, e em sua experiência como pesquisador que pisou o chão onde ocorreram os combates.

O livro registra o apoio da população aos guerrilheiros e denuncia as brutalidades da repressão, que utilizou torturas e corrupção para cooptar moradores locais “a granel”. E reforça os argumentos que pedem o fim da impunidade para os atos criminosos cometidos em nome do Estado pelos que assaltaram o poder com o golpe militar de 1964. Outro aspecto relevante da obra é o reconhecimento da bravura e da abnegação dos combatentes, que sacrificaram suas vidas pelo ideal de democracia e liberdade. Com esses ingredientes, Amorim descreve as precárias condições de vida da população local e reafirma a ideia de que a presença dos guerrilheiros na região levou um pouco de justiça às relações entre os camponeses e o despotismo dos grileiros apoiado em jagunços sanguinários.

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A Guerrilha do Araguaia vista pela “imaginação” de Studart

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Guerras e impunidades

Utilizando o método de “cortar” a cena narrada e levar o leitor para outro ambiente, Amorim construiu um texto bem edificado, alicerçado na lógica de que dois campos entraram em choque durante a ditadura: o democrático e o totalitário. Segundo o autor, os guerrilheiros pertenceram a “uma geração que se lançou ao sacrifício” e que “não esperava sobreviver”. “Nunca pensou nisso. A escolha que fez foi a luta a qualquer preço. Uma política de tudo ou nada. Ponto. E foi o que aconteceu. Exemplos de coragem, verdadeiro heroísmo, foram reconhecidos pelo próprio inimigo”, escreve ele, citando uma frase peremptória de Genoino. “Estávamos mais preparados para morrer do que para matar”, dissera o então guerrilheiro “Geraldo”.

Via eleitoral interditada

Apesar dessas notórias qualidades, o livro falha quando se propõe a analisar as causas da Guerrilha. Já na página 24 Amorim escreve que o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) — o organizador da Guerrilha do Araguaia — entendeu que aquela região reunia “as condições objetivas” para a deflagração do movimento guerrilheiro. “A guerrilha pretendia organizar todos os embates isolados em um único e grande movimento. Ledo engano. Essa matemática política de dois mais dois, maniqueísta, não funcionou”, diagnosticou. Ledo ou não, o engano, na verdade, é do autor — a opção pelo caminho da luta armada pelo PCdoB foi um processo de profunda análise que percorreu quase 20 anos de estudos da realidade brasileira.

A rigor, ela começou a ser gestada quando o Partido analisou o Brasil à luz do acirramento dos dois campos que se formaram após a Segunda Guerra Mundial, liderados por Estados Unidos e União Soviética. A ofensiva anticomunista do regime norte-americano na nascente “Guerra Fria”, após a significativa vitória do socialismo sobre o nazi-fascismo, contou com o governo brasileiro — à época liderado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra — para conter a influência das forças democráticas e populares em âmbito mundial. Foi quando os comunistas brasileiros julgaram que estavam em uma posição política errada, após a cassação do seu registro eleitoral e dos seus parlamentares, e decidiram radicalizar sua tática pela esquerda.

A primeira definição dessa nova posição política foi o “Manifesto de Janeiro”, de 1948, reforçada pelo “Manifesto de Agosto”, de 1950. Os comunistas diziam que o povo estava aprendendo que o caminho eleitoral não resolveria o problema da paz, da terra e da liberdade. O caminho seria o revolucionário. Somente a revolução democrático-popular seria capaz de responder às demandas do país. A via eleitoral estava interditada em toda a América Latina. No Chile o presidente Gabriel González Videla havia se curvado à lógica da "Guerra Fria" e, por pressão norte-americana, demitido os comunistas que participavam do seu governo. Depois, o registro do partido e os mandatos comunistas seriam cassados — um processo semelhante ao que ocorreu no Brasil. Em seguida, iniciou-se na região a era dos golpes armados; o primeiro deles aconteceu na Guatemala, quando os Estados Unidos patrocinaram a derrubada do governo do presidente Jacobo Arbenz Guzmán, em 19 de maio de 1954, alegando que ele adotava medidas de “tendências comunistas”.

Diagnóstico precário

O Partido Comunista do Brasil (à época com a sigla PCB) logo faria autocrítica sobre essa posição por não perceber que o jogo precisava ser jogado levando em conta a formação de um campo político mais amplo, alertado pela conjuntura que conduziu o presidente Getúlio Vargas ao suicídio. No debate que se travou no processo do V Congresso, realizado em 1960, os comunistas que reorganizariam o Partido em 1962 debateram a fundo o conceito de luta armada, enfatizando que a opção por aquela via dependia dos métodos que seriam adotados pelos seus oponentes. 

Quando os comunistas optaram pelo caminho da luta armada, portanto, o assunto já estava bem destrinchado. Não foi “ledo engano”, tampouco uma “matemática política de dois mais dois, maniqueísta”. O diagnóstico de Amorim fica ainda mais precário quando se leva em conta que, com as condições impostas pelo golpe, o PCdoB aprimorou o estudo do tema. As experiências cubana, chinesa e vietnamita passaram a ser cuidadosamente analisadas para extrair delas ensinamentos que seriam aplicados à realidade brasileira. E um deles foi o de espalhar militantes pelo país com o objetivo de estudar pontos nos quais poderiam ser implantados núcleos de preparação da guerra popular. 

Pedro Pomar

Não corresponde aos fatos, como se vê, a afirmação do autor de que o Araguaia reunia as tais “condições objetivas”. Ele também caracteriza a “ação guerrilheira” como “simplismo” e os combatentes como idealistas que imaginavam tudo muito simples e fácil. Eram de uma ingenuidade quase constrangedora, segundo palavras de Amorim, um grupo formado basicamente por jovens que, a julgar pelas reiteradas lembranças desse suposto despreparo, se orientavam pelo conto filosófico de Voltaire intitulado “Cândido” e se espelhavam no personagem Pangloss, que acreditava em um mundo perfeito. Os guerrilheiros seriam tão ingênuos que sequer compreendiam as dificuldades de serem aceitos pelos moradores do local, chamado por ele carinhosamente de “povinho”.

Há, ainda, equívocos de menor intensidade, como confusões sobre a reorganização do Partido e o pensamento estratégico dos comunistas. As fontes pesquisadas incluem o Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois e a biografia de Maurício Grabois, o comandante militar da Guerrilha do Araguaia, escrita por este que vos fala, o que torna estranha a omissão de informações relevantes — como dados do debate no Comitê Central do PCdoB sobre aquela experiência guerrilheira. Uma delas é a posição de Pedro Pomar, histórico dirigente do Partido e responsável por um dos núcleos de preparação da guerra popular, no Vale do Ribeira, no estado de São Paulo.

Carta crítica

Amorim optou por reproduzir falsas informações dando conta de que Pomar fora afastado do comando do PCdoB por discordâncias com os demais dirigentes. Mesmo suas opiniões na avaliação da experiência do Araguaia estão deturpadas — a biografia de Pomar, também de minha autoria, publicada em maio de 2013, no qual este assunto está bem esclarecido, estranhamente não é citada. O autor diz, por exemplo, que a carta crítica de Pedro Pomar apreendida na “Chacina da Lapa”, quando ele foi assassinado pela repressão, era uma resposta a um editorial do jornal do PCdoB “A Classe Operária”, intitulado “Gloriosa jornada de Lutas”. Na verdade, todos os dirigentes escreveram sobre o tema e o que seria editorial trata-se de um documento aprovado pela direção Executiva do Partido, com voto favorável de Pomar.

A Guerrilha do Araguaia continua sendo tema de pesquisas, de interpretações e de análises. Há ainda muita coisa a ser revelada. Mas, do que se sabe, é possível concluir que para retratá-la precisa-se de muita pesquisa, estudo e rigor com os fatos. O livro de Amorim cumpre importante papel na divulgação daqueles acontecimentos, mas poderia ser melhor referenciado no farto material disponível — inclusive no CDM da Fundação Maurício Grabois. Além de lacunas importantes, a obra divulga conclusões subjetivas e informações já devidamente comprovadas como falsas. Uma pena.