Especiais - PAULO FONTELES FILHO, homenagem a 45 anos de luta

Paulo Filho: “Não achavam algemas para meus pulsos de recém-nascido”

Redação Publicado em 07.05.2013

De ontem até sexta-feira, 6 a 10 de maio, a Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva Filho” realizará, na Assembleia Legislativa de São Paulo, o seminário Verdade e infância roubada. Nesses dias, ela coletará cerca de 50 depoimentos de filhos de ex-presos políticos, mortos, desaparecidos e sobreviventes da ditadura militar (1964-1985).

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"O que sofremos é algo invisível. Há uma marca que passa de geração para geração e é difícil entender onde isso me afetou. Não sei como, mas afetou". Dessa forma Cecília Capistrano, neta de Davi Capistrano, militante do PCB e desaparecido em 1974, tentou descrever os efeitos de ter crescido em uma família de militantes políticos presos, torturados e mortos pelo regime militar, no Seminário Verdade e Infância Roubada, realizado dia 6/5 pela Comissão Estadual da Verdade, sob presidência do deputado Adriano Diogo (PT).
Em sua 36ª audiência, a comissão iniciou a reunião com o filme 15 filhos, de autoria de Marta Nehring e Maria Oliveira, com depoimentos colhidos em 1996 de filhos de desaparecidos políticos, alguns dos quais irão participar do seminário, que deve acontecer de 6 a 10/5.

Sequestrados e escondidos nos centros clandestinos de repressão, eles sofreram tortura física e psicológica, foram enquadrados como “subversivos” pela repressão e obrigados a viver com parentes distantes, com nomes e sobrenomes falsos.
Levados aos cárceres da ditadura, foram confrontados com seus pais, nus, machucados, recém-saídos do pau-de-arara ou da cadeira do dragão. Foram encapuzados, intimidados, torturados.
Alguns nasceram em prisões e cativeiros, como Paulo Fonteles Filho, que deu seu depoimento nessa segunda-feira à Comissão da Verdade. Ele é filho do advogado Paulo Fonteles, preso e torturado em Brasília em 1972 junto com sua esposa, Helcídia Fonteles, na época grávida. Paulo Filho nasceu na cadeia (leia a íntegra do depoimento dele, abaixo).
“Devido à sua luta junto aos camponeses do Araguaia, seu pai foi assassinado pela UDR [União Democrática Ruralista] durante os trabalhos da Constituinte, em 1987 ”, afirma Marcelo Zelic, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP. “Há vários anos Paulo Filho participa do Grupo de Trabalho Araguaia e busca, além dos corpos dos guerrilheiros desaparecidos, a verdade sofrida pelas pessoas que viviam e vivem na região.”
Nesta terça-feira às 20h, o Grupo Tortura Nunca Mais-SP lança o documentário Araguaia: campo sagrado, de Paulo Filho e direção de Evandro Medeiros. Traz depoimentos contundentes de camponeses, ex-mateiros e ex-soldados que viveram a guerra realizada no Araguaia nos anos 70.
O Grupo convida quem está em São Paulo para assistir ao documentário na sua sede, à rua Frei Caneca, 986. Após a exibição, haverá debate com o autor. Assista a versão integral do documentário no site viomundo.com.br em lançamento simultâneo, nesta terça (7).

Paulo Fonteles Filho: "Os agentes da repressão atrasaram minha entrega para a família, por horas, porque simplesmente não haviam encontrado algemas que dessem em meus pulsos de recém-nascido"

Mães heroínas

Neta de Davi Capistrano (cuja história já foi relatada na comissão), Cecília Capistrano focou seu depoimento na história de sua mãe, Maria Cristina, filha de Davi, que, como o pai, militava no PCB e esteve presa no DOI-Codi. Cecília contou que participou de vários movimentos com sua mãe, incluindo reuniões sobre desaparecidos políticos e anistia, e que hoje atua na comunicação on-line do deputado Rui Falcão (PT). "Vejo-me muito mais como ouvinte do que como atuante", revelou, afirmando que ainda tem muita dificuldade de compreender tudo o que aconteceu.
As dificuldades enfrentadas pela mãe após o desaparecimento do marido, também foram enfatizadas por Rosana Momente, filha de Orlando Momente, militante do PCdoB e desaparecido em 1973. Rosana contou que só soube a verdade sobre seu pai aos 15 anos. Ele entrou na clandestinidade em 1963, um ano após seu nascimento. Sua mãe, com dificuldades financeiras, precisou trabalhar como empregada doméstica, sendo obrigada a colocar a filha em um internato. "A vida no internato é muito solitária. Aprendi o que é depressão na infância", concluiu.
Filho de Paulo Fontelles e Hecilda Fontelles Veiga, Paulo Fontelles Filho, nascido na prisão, relatou o que sua mãe, grávida, sofreu ao ser presa. Foi levada à Polícia Federal onde, diante de sua recusa em dar informações a respeito do marido, ouviu, sob socos e pontapés, que "filho dessa raça não deve nascer". No dia de seu nascimento, Hecilda foi levada ao hospital onde o médico induziu o parto e fez o corte sem anestesia. "Presto aqui minha homenagem a essa guerreira que nunca se deixou dobrar", disse Paulo.

Presentes defendem revisão da Lei da Anistia

O Seminário Verdade e Infância Roubada prosseguiu na tarde de 6/10. Ao apresentar Carlos Eduardo e Gabriel, filhos do sindicalista José Ibrahim, o presidente da comissão, Adriano Diogo (PT), lamentou sua morte, ocorrida no último dia 2/5, em Osasco.
Carlos Eduardo falou sobre a trajetória política de José Ibrahim, que em 1968, à frente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos, liderou a greve de Osasco, um dos primeiros movimentos de resistência à ditadura militar. Ele foi um dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969.
Segundo Carlos Eduardo, após a troca, José Ibrahim foi para o Chile, onde conheceu Tereza Cristina Denucci Martins, guerrilheira militante do MR-8 (falecida em 2011) que lá também estava refugiada. O casal fugiu no país andino em 1973, quando houve o golpe de Augusto Pinochet, indo para o Panamá, onde Carlos nasceu. Quando ele estava com 40 dias de vida, a família conseguiu ser recebida na Bélgica, onde ficaram até a anistia. Naquele país, Ibrahim coordenou a Casa Latino-Americana, que lutou pela redemocratização no continente.
A família retornou ao Brasil com a anistia. Carlos Eduardo lembrou do assédio da imprensa a sua casa, em Osasco, e disse que a família foi vigiada até o governo Collor. Ele afirmou que só conseguiu a cidadania nata brasileira, aos 23 anos de idade, após acionar o Estado brasileiro. Até então, tinha uma certidão de nascimento provisória, e concedida apenas quando ele tinha 10 anos de idade.
Carlos Eduardo afirmou continuar o trabalho do pai em defesa dos trabalhadores. Para ele, a maior tortura foi a psicológica, que as famílias e os trabalhadores sofreram. "A ditadura militar foi um câncer, mas até hoje não conseguiram curar o tumor, há muita gente que não quer isso. Os subversivos foram os militares, que subverteram a ordem, nós só queríamos o Estado Democrático de Direito". Estava presente outro filho de José Ibrahim, Gabriel, que, por ser jovem, não presenciou o período da ditadura.
Três irmãos desaparecidos

Clóvis Petit, irmão dos militantes do PCdoB desaparecidos no Araguaia Maria Lúcia, Jaime e Lúcio (cujas história já foi tema de relatos na Comissão estadual da Verdade), relembrou a atuação política deles a partir de 1968, quando tinha 12 anos de idade. Falou da incerteza da família sobre o paradeiro dos irmãos, cuja morte só foi divulgada após a anistia, em 1977. O corpo de Maria Lúcia é um dos poucos identificados no Araguaia.
"Fiquei muito revoltado com a morte de Maria Lúcia, mas houve períodos em que havia alguma esperança de que meus dois irmãos ainda estivessem vivos, escondidos", continuou Clóvis. Essa revolta, disse, ainda não acabou, pois há uma "política de dissimulação, de não punição dos torturadores e assassinos, que ainda estão na máquina pública. Esse governo que está aí já devia ter varrido essa camarilha criminosa que está sustentando", finalizou.
Sua irmã Laura, também presente à reunião, disse, que até a condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, os familiares dos desaparecidos não haviam se dado conta de que também eram vítimas indiretas da ditadura. Laura cobrou do Estado brasileiro a devolução dos corpos dos desaparecidos e a divulgação dos nomes dos responsáveis, para que possa haver justiça.
15 Filhos

O documentário retrata o contexto histórico da ditadura militar no Brasil por meio dos filhos de militantes mortos, presos ou desaparecidos, que relatam suas memórias de infância. O documentário é de autoria de Maria Oliveira, que, com apenas um ano de idade foi, presa com sua mãe na Oban; e de Marta Nehring, que morou em Cuba enquanto seu pai treinava para a guerrilha. Ambas depõem no documentário,
Em um dos depoimentos, uma filha afirma que não soube os nomes dos pais por anos, apenas sabia que eram pai e mãe. Em outro relato, o depoente elucida que para ele o resumo de tudo o que acontecia era baseado em um governo ditatorial que entrava nas casas das pessoas e matava todo mundo. Duas irmãs contam que um homem chegou, colocou a arma na cabeça do pai delas e atirou. Já a mãe, quando voltou para casa, estava irreconhecível devido à deformação por conta do espancamento.
Com o intuito de mostrar a ditadura por um ângulo diferente, o documentário 15 Filhos foi filmado em preto e branco e retrata com emoção a história de cada filho, Durante o documentário, os filhos demonstram que quando a inocência de criança é roubada, as consequências que ficam são duradouras.
O documentário está disponível no canal do You Tube no link:

Depoimento de Helcídia Fonteles, mãe de Paulo Filho:

Araguaia Campo Sagrado

O documentário é baseado no relato de camponeses e ex-soldados que estiveram envolvidos Guerrilha do Araguaia. Imagens das ações dos militares no Araguaia e a forma de vida dos camponeses são exibidas para ilustrar os relatos.
Segundo um dos depoentes, o Exército foi treinado não para ser o braço direito do governo, e sim para matar e exterminar os opositores. Muitos moradores, principalmente mulheres, se emocionam ao falar do assunto. Elas contam como tudo aconteceu e como algumas delas perderam seus maridos.
A Guerrilha do Araguaia (1972-1975) aconteceu no sul do Pará, onde se enfrentaram membros do Exército e dissidentes do PCdoB que tentavam derrubar o governo militar a partir das zonas rurais. O acontecido não foi divulgado pela imprensa na época devido à censura.
Com roteiro e direção geral de Evandro Medeiros, o documentário de 2011 narra os acontecimentos da Guerrilha através das lembranças de moradores da região.

Segue o depoimento de Paulo Fonteles Filho à Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva”:
Senhor Presidente, Deputado Adriano Diogo,
Senhoras e Senhores,
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a oportunidade, histórica, de participar deste importante evento da Comissão da Verdade “Rubens Paiva” de São Paulo que lança luz sobre as brutalidades e violências perpetradas pelos lobos febrentos que assaltaram o poder em 1964 e que, seguramente, também elegeram a infância como inimiga da segurança nacional e dos generais facínoras, responsáveis pela tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados.
Em segundo lugar, registro um abraço afetuoso, aos que, como eu, conheceram todo o barbarismo dos verdugos e aqui rendo minhas homenagens à memória de meu pai, Paulo Fonteles, advogado de posseiros no Sul do Pará, assassinado pelo latifúndio em 1987 e a minha mãe, Hecilda Veiga, a pessoa mais íntegra que conheço nesta vida e que, com o destemor de ter me feito nascer, em meio ao Pelotão de Investigações Criminais, em fevereiro de 1972, revelou inexorável bravura ao ponto de um agente da repressão política, dentro da Polícia Federal, cunhar a frase: “Filho dessa raça não deve nascer”,
Em Segunda Anunciação, poema escrito anos depois dos cárceres, meu pai denunciava o discurso e a prática do tirano:
“Teu filho
teu filho
teu filho
não nascerá.
Teu filho
filho dessa raça
filho dessa raça
não deve nascer.
Não deve nascer
não deve nascer.
Filho dessa raça
não deve nascer.
Teu filho
filho dessa raça
filho dessa raça
não deve nascer
não deve nascer”.
Aqui, antes de mais nada, devo por convicção e altiva consciência, denunciar locais e os verdugos que atuaram severamente para por fim em nossas vidas, seja no Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército, e no DOI-CODI instalado dentro do próprio Ministério do Exército, em Brasília, seja no Rio de Janeiro, no Centro Científico de Torturas, na terrível Barão de Mesquita, também da Polícia do Exército. Meus pais também ficaram presos em Belém, na Gaspar Viana, onde meu irmão Ronaldo foi gerado, e no antigo Presídio São José. Nesta fase eu já havia nascido, portanto, estava em segurança familiar.
Mas vamos aos torturadores, e como ensina Wadih Damous, Presidente da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, recém-instalada, em discurso na Assembleia Legislativa do Estado do Pará quando da devolução simbólica dos mandatos em março deste ano de 2013, dentre eles do ex-governador Aurélio do Carmo, único vivo entre os governadores cassados em 1964 que, “os torturadores têm medo da luz do sol”.
Aqui haveremos de colocar holofotes sobre as bestas-feras!
Segundo denúncia de meus pais, publicada no Jornal Resistência, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, no final da década de 1970, fomos seviciados e torturados pelo general Antônio Bandeira, coronel Azambuja, major Paulo Horta, major Andrade Neto, major Othon Rego Monteiro, capitão Magalhães, capitão Menezes, “doutor” Cláudio, o delegado da Polícia Federal Deusdeth, tenente Burger, o sargento Vasconcelos, o sargento Arthur, o sargento Ribeiro, o cabo Edson Torrezan, o cabo Jamiro ou Jamito, o cabo Nazareno, o cabo Martins, o cabo Calegari, e os soldados Ismael, Almir, Osmael e Admir.
Estes famigerados, especialistas na Santa Inquisição e que diziam que os métodos da Gestapo estavam ultrapassados, atuaram para liquidar-nos, tanto em Brasília como no Rio de Janeiro. Numa das passagens do depoimento ao Resistência, meu pai denunciava que, “através de um vidro, mostravam-me a Hecilda, apanhando no rosto e nas pernas, grávida de cinco meses”.
No dia de meu nascimento, em 20 de fevereiro de 1972, minha mãe asseverou ao insurgente jornal dos paraenses que:
“(…) levaram-me ao Hospital da Guarnição em Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Foi uma experiência muito difícil, mas fiquei firme e não chorei (…)”.
Minha mãe, Hecilda, afirma ainda que o tal médico disse-lhe que ela não gostava do filho, simplesmente porque não sofria. Minha mãe, que peitou o general Bandeira, ia dar o braço a torcer? Nunca, jamais.
Uma das lembranças mais antigas que tenho sobre mim mesmo está no fato de ter nascido na prisão e de ser filho de comunistas. Minha avó, Cordolina Fonteles de Lima, contava que os agentes da repressão atrasaram minha entrega para a família, por horas, porque simplesmente não haviam encontrado algemas que dessem em meus pulsos de recém-nascido, eles deviam me achar bastante perigoso!
No curso dos anos tenho refletido sobre tais atos de “terrorismo”, numa pérfida lei de um dos ideólogos mais importantes daqueles tempos sinistros, o coronel Jarbas Gonçalves Passarinho, que definha como o pústula que é e parece estar bem próximo do Satanás.
Não tenho dúvidas que herdamos de nossos pais, seus destemores e convicções. A canção de Belchior, cantada pela mais bela voz feminina em todos os tempos de civilização brasileira, a de Elis Regina, está prenhe de verdade quando afirma que “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Neste caso, Paulo e Hecilda, por seus valores fraternais devem sempre ser seguidos pelos filhos, o que nos dá a régua e o compasso.
Se este é meu depoimento, vou falar de um tempo em que, menino, testemunhei a retomada de meus pais na luta do povo, meu pai no campo e minha mãe na cidade. Poderiam ter se acomodado, poderiam ter cuidado de suas próprias vidas, o que seria justo diante das memórias do cárcere. Mas não, retomaram às posições de combate!
E ali estávamos nós, crescendo como crescem as árvores. As histórias da carochinha contadas eram sempre de guerrilheiras tartaruguinhas contra um jacaré de fardas que viviam no Araguaia.
Foi por aqueles tempos em que meu pai, formado em direito, resolveu advogar para a Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região do Araguaia. Muito de sua decisão têm as digitais na luta guerrilheira do Araguaia e o fato de ter travado conhecimento com os primeiros presos da insurgência nas matas paraenses, dentre eles estava José Genoíno Neto. Outro fator importante para se destinar à defesa dos posseiros foi o incentivo que teve do poeta e intelectual Ruy Paranatinga Barata no conflito da Fazenda Capaz, em 1977, de propriedade do coronel estadunidense John Davis.
Debruçado na defesa dos camponeses pobres e procurando reunir informações sobre a heroica luta rebelde araguaiana, meu pai, Paulo Fonteles, mais uma vez passou a sofrer a carga da reação, de famigerados como o Major Curió, do Centro de Inteligência do Exército (CIE) e do grande latifúndio, aliados incontestes na espoliação da Amazônia, sempre em benefício dos poderosos, sejam eles nacionais ou estrangeiros.
Moramos em Conceição do Araguaia e tínhamos o imenso rio dos karajá em nosso quintal. Por aqueles dias já convivíamos com os lavradores e os filhos destes, como é o caso dos filhos de Amaro Lins e de Neuza, Vladimir, Carlos e Mauricio, além de Helenira, amigos para todo o sempre.
Por conta de uma atuação radicalmente vinculada à luta dos lavradores conheceu, mais uma vez, as ameaças contra sua própria vida e a vileza dos donos do poder de então. Foi eleito deputado estadual em 1982 sob a consigna de “Terra, Trabalho, Liberdade e Independência Nacional”.
Derrotado nas urnas em 1986, não conseguiu êxito na campanha para a Assembleia Nacional Constituinte e, menos de um ano depois, foi assassinado à mando da União Democrática Ruralista (UDR), quando se votava o Capítulo da Terra. O intermediário de tamanha covardia foi James Sylvio de Vita Lopes, da OBAN e do SNI, que, nos auspícios do regime moribundo, foi organizar milícias da grande propriedade rural na Amazônia.
Naqueles dias eu tinha 15 anos e para não enlouquecer decidi ingressar nas fileiras do Partido Comunista do Brasil. Era minha saída e a forma de me organizar para enfrentar o futuro.
Quando, enfim, tivemos a notícia do falecimento de Carlos Alexandre Azevedo é que muita coisa veio à tona e meus sentimentos se voltaram para minha própria história. Em artigo escrito numa longa e dura madrugada asseverei: “Mas o que fazer diante destes testemunhos, de tua segunda morte?
Sinto amigo, que em tempos de Comissão Nacional da Verdade (CNV) devemos cobrar que estejam embutidos, no relatório que será apresentado aos brasileiros em maio de 2014, os acontecimentos criminosos que foram perpetrados, por questões políticas, contra a infância deste imenso país dos trópicos.
Tua segunda morte carrega o legado de que, mais do que nunca, devemos cuidar da tenra idade contra os infanticidas, dos de ontem como, também, na atualidade.
Com ousadia, sem procuração alguma, a não ser pela memória da carne violada, tomamos para nós, por tais testemunhos, a exigência de que quem nos torturou, no ventre ou fora dele, responda pelos crimes de inexorável covardia, contra aqueles que devem ser protegidos desde a fecundação.
Assim cumprimos com a civilizatória missão de proteger os filhos do povo brasileiro”.
Neste sentido é preciso que as Comissões de Verdade façam as ligações na perspectiva de traçar um paralelo comum entre essas vivências de filhos de presos políticos e dos inúmeros centros de detenção de menores, criados durante a ditadura como a FEBEM e que na vida democrática não mudou seus métodos e, como é o caso de São Paulo, onde a tortura se esconde travestida pelo pomposo nome de “Fundação Casa”.
Apenas agora nos debruçamos sobre a infância na ditadura militar e há um caminho extenso a percorrer. Tal caminho seguramente irá nos levar aos filhos de camponeses e crianças indígenas, além dos casos de filhos de militantes políticos, já bastante relatados.
Há dois anos conheci o Sebastião, ex-motorista do Incra durante a Guerrilha do Araguaia, na cidade de Marabá. Tal pessoa relatou-me sua revolta em lembrar, de que na Base da Bacaba, que havia uma ala de tortura apenas para crianças e jovens, filhos dos sertões naquele país profundo e desigual. Naquelas condições é que as filhas de Adalgisa e Alfredo, amigos dos combatentes, de São Domingos do Araguaia, foram seguidamente estupradas quando trabalhavam em regime de escravidão naquela terrível base militar. Isso sem falar na mocidade indígena, aikewara, que apenas agora começa a relatar as barbaridades sofridas. Todos eles têm direito a reparações.
Aqui termino com o registro poético de meu pai que assim relatou meu nascimento em Força e Arte:
“A criança nasceu.
A mãe passa bem.
Apesar de todas as proibições
bebamos vinhos até a embriaguês!
Quem é que pode com povo?”
Paulo Fonteles Filho