Especiais - Che Guevara, 1928-1967

Che Guevara e a guerra contra o dogmatismo

Maria do Carmo Luiz Caldas Leite Publicado em 08.10.2012

Memórias, artigos, tratados e biografias, quarenta e cinco anos depois da morte de Che, guardam muito da fascinação que a imagem do guerrilheiro conserva. O debate sobre a teoria do foco, as viagens pela América Latina, as lutas no Congo e a captura na Bolívia contribuem para a estreita relação entre o comandante rebelde e o internacionalista em armas.

                    

Junto a tudo isso, o pensamento político de Ernesto Guevara, como guia de combate contra a exploração e a miséria, se converteu em bandeira de luta para milhões de trabalhadores, camponeses sem terra, estudantes e todos aqueles que sonham com o nascimento do “homem novo”.

Entretanto, com o perdão dos autores que podem sentir-se ofendidos, estou entre os que pensam que a biografia integral, abarcadora e com toda a objetividade histórica do exato legado de Che, ainda está por ser escrita. Há facetas do Guerrilheiro, pouco conhecidas, entre elas o seu pensamento sempre renovado no que tange à guerra contra o o dogmatismo, desenvolvidos no campo científico mundial.

Para ele, a leitura mecanicista do marxismo constituía um dos piores defeitos dos movimentos de esquerda, incluídas neste bojo a sacralização dos escritos, em substituição à análise dos fatos presentes, e a pretensão de usar o mundo para provar a omnisciência dos clássicos. Ou seja, segundo Guevara, um marxista jamais pode opor os textos à realidade, nunca pode desmentir a prática sob qualquer pretexto dogmático, porque os princípios não estão petrificados e alheios aos problemas de cada época. Como afirmou Che:

... “nos há falhado a prática, pois os conceitos às vezes são um pouco teóricos. Falta o ponto de conhecimento real do problema, que se vai abordar(...), não é tudo como dizem os livros, uma vez que muitos deles não podem representar a realidade, porque foram escritos para outros meios ou como sistema geral de conhecimentos”.

Ninguém melhor do que Guevara, em diversos momentos, prognosticou o futuro desenlace do chamado "campo socialista” limitado em suas concepções acerca da transição. Da magia dos tempos de Sierra Maestra, surgiu o socialismo na concepção de Che, apoiado em Marx, no seu caráter de oposição às teses cristalizadas, concebidas como verdades absolutas e imóveis.

A obsessão de pretender a existência de leis gerais, para construir sobre esta base uma economia política imaginária, a interpretação fechada do marxismo e o anseio de uma teoria acabada vem, muitas vezes, bloqueando a compreensão de que uma nova sociedade é produto da consciência e somente se conquista passo a passo. O pensamento de Che emerge no século XXI mais denso e vitorioso do que nunca, impondo suas ideias revolucionárias acima dos reveses, dos derrubamentos e das frustrações.

*Maria do Carmo Luiz Caldas Leite, professora de Física, Mestre em Educação e membro da direção do PCdoB de Santos.