Especiais - Guerrilha do Araguaia, uma geração de armas nas mãos contra a ditadura

Diário do Araguaia – manuscrito 1º dia: 16 de Abril, jovens buscam sua história

UJS Publicado em 22.04.2014

Teve início na noite da quarta-feira, 16 de abril, uma iniciativa ousada da União da Juventude Socialistas (UJS), em parceria com a Fundação Maurício Grabois e o Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ), na busca da história das lutas que construíram o Brasil. Tendo como ponto de partida a cidade de Palmas, capital do Tocantins, o objetivo é que um grupo de cerca de 40 jovens possa conhecer e percorrer trechos pelos quais passaram dois dos principais levantes brasileiros em defesa da democracia e da justiça social: a Coluna Prestes e a Guerrilha do Araguaia.

O Tocantins é um Estado relativamente novo e, por isso mesmo, promissor. Foi emancipado após a Constituição de 1988 e Palmas assumiu a sua função de capital somente em 1º de janeiro de 1990, ou seja, há pouco mais de 24 anos. Antes, a região pertenceu ao norte de Goiás.

Essa região é de extrema relevância estratégica por estar localizada no centro do país, fazer divisa com estados do norte e nordeste, ser banhada pelo rio Tocantins, o segundo maior do país, e ter em sua seiva a luta do povo brasileiro. Por aqui, passou no final de 1925 a maior marcha política-militar já registrada no mundo: a Coluna Prestes, um movimento de tenentes do exército que se revoltaram contra as injustiças sociais do governo do presidente Arthur Bernardes.

Em busca também da sua própria história e da verdade, a UJS organiza agora essa espécie de caravana para entender e não deixar cair no esquecimento esse importante levante que completa 90 anos e percorreu 25 mil quilômetros pelo interior do país com o objetivo de denunciar a situação de pobreza e exploração da população brasileira.

“Estamos lutando nas mesmas águas”

A primeira atividade do projeto ocupou na noite da quarta-feira um simbólico edifício de Palmas, chamado de Palacinho. O auditório foi ocupado por autoridades políticas, lideranças comunitárias e principalmente parte dos jovens que já estavam em Palmas. Um ônibus com um grupo que vai se incorporar à caravana partiu de São Paulo, passou por Minas Gerais e Brasília, mas ainda não havia chegado.

O senador pelo Partido Comunista do Brasil do Ceará, Inácio Arruda, o primeiro comunista eleito para este cargo depois de Luis Carlos Prestes (o comandante da Coluna), foi um dos convidados. Conhecedor e estudiosos da história das lutas populares do Brasil, Arruda desenhou em seu discurso uma linha do tempo desde antes da Coluna Prestes, passando pela Guerrilha do Araguaia e outras revoltas, até chegar à eleição do presidente Lula em 2002. Ele quis mostrar que todos naquela sala são frutos das lutas dos heróis do passado e, por isso, a importância de conhecer e contar a verdadeira história que durante muitos anos as elites do país tentaram deixar passar em branco.

“Aqui esteve a Coluna Prestes e aqui esteve a Guerrilha do Araguaia. Estamos lutando nas mesmas águas, desse mesmo rio, de um leito fabuloso da história do Brasil. A UJS e outras forças políticas com vontade de ver o Brasil avançar estão revisitando, aqui em Palmas, o encontro dessas duas batalhas e revivendo as lutas populares que construíram o Brasil. O sumo dessa caravana é uma juventude socialista preparada para conduzir as principais batalhas do país e projetar, no presente, o futuro que buscamos”, pontuou Arruda.

O presidente da UJS, André Tokarski, fez questão de ressaltar que cada um ali naquela sala era herdeiro dos jovens que dedicaram suas vidas nas lutas da Coluna, do Araguaia e tantas outras. “A maior homenagem que podemos fazer é continuar o movimento para aprofundar a democracia e o desenvolvimento do país. É muito emocionante retomar esses caminhos e conhecer a nossa história refazendo os passos dos nossos heróis. Retomar essas trilhas significa contar a história que a ditadura tentou apagar. Isso deve ser fonte de inspiração para centenas de jovens, que podem agora entender o Brasil por um outro ponto de vista. O de quem sofreu e deu o sangue pela liberdade”, destacou.

Tokarski ressaltou ainda que a caravana é um ato político pela luta da revisão da Lei de Anistia de 1979. O objetivo dessa nova caminhada não é só questionar onde estão os restos mortais dos guerrilheiros comunistas, mas também cobrar uma punição severa a todos aqueles que cometeram atrocidades em nome do país.

Próxima parada

A caravana do projeto “Lutas que construíram o Brasil” continua nesta quinta-feira (17/4), durante todo o dia, em Palmas. A programação será no Palacinho e haverá duas mesas sobre a vida de Luis Carlos Prestes. No fim da tarde, os jovens visitarão o Memorial da Coluna Prestes, uma obra do arquiteto Oscar Niemeyer localizada na Praça dos Girassóis, a principal da cidade. À noite, a caravana segue para a Vila Santa Cruz dos Martírios, no Pará.

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Araguaianas – Notas de uma viagem

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1. Sobre Palmas – A pedra fundamental de Palmas foi lançada em maio de 1989, dando início à construção da última cidade planejada do século. A capital definitiva do Estado de Tocantins foi instalada no primeiro dia de janeiro de 1990 e os poderes construídos foram transferidos da capital provisória, Miracema, para o plano diretor da nova cidade. O próprio nome Palmas egressa do sentimento combativo desse povo. O verde bonito das palmeiras, espécie nativa da região, foi um dos fatores que influenciaram na escolha do nome. Em apenas 14 anos de existência, a última cidade planejada do século, conta com mais de 240 mil habitantes. Palmas desfruta de uma posição privilegiada, funcionando como um elo entre a região Norte e o restante do País. Sob as sombras de palmeiras e buritis, a cidade é localizada no coração do Brasil e é cercada pelas serras do Carmo, Lajeado e pela imensidão do rio Tocantins.

2. Palacinho – Charmoso complexo cultural que recebeu a juventude para a abertura oficial da caravana, foi a primeira edificação construída em Palmas, no ano de 1989. A proposta inicial era utilizá-lo apenas para abrigar autoridades durante visitas às obras de construção da cidade, mas, com a antecipação da transferência da Capital provisória de Miracema do Tocantins para Palmas, o Palacinho foi adaptado para sediar a administração do Governo Estadual até que as obras do Palácio do Araguaia estivessem concluídas.

A construção foi sede do Poder Executivo por um ano. Abrigou ainda a Casa Civil e a Casa Militar, as secretarias do Interior, da Comunicação e da Agricultura. Também serviu, por pouco tempo, de residência oficial do Governador. Foi tombado pelo Governo do Estado pela Lei nº 431 de 28 de julho de 1992 e transformado em museu em março de 2002.

3. Ônibus saiu de São Paulo – Um grupo de jovens saiu na terça-feira (15/4) de ônibus rumo a Palmas, no Tocantins, para participar da caravana. Pegaram pelo caminho outros jovens em Minas Gerais e Brasília. É a juventude em movimento para buscar a sua história e lembrar os verdadeiros heróis do passado.

4. Presenças – O lançamento do projeto “Lutas que construíram o Brasil” contou com representantes de partidos políticos, além de lideranças estudantis e comunitárias da região. Participaram Euzébio Jorge (CEMJ), Fernando Garcia (Fundação Maurício Grabois), Thiago Andrino (Ex-secretário municipal de governo), Donizete Nogueira (PT), José Roberto (deputado estadual PT-TO), Luciano Arruda (presidente PCdoB-TO), Manuela Braga (Ex-presidente da UBES), Paulo Fernandes (professor UFT), Carlinhos (UJS-TO), André Vitral (Secretário-executivo municipal de Educação).

De Palmas (TO), Patrícia Blumberg e Rafael Minoro