Especiais - Gilse Westin Cosenza, uma mulher imprescindível (1943-2017)

Luto: Cearenses lamentam morte de Gilse Cosenza

Carolina Campos, de Fortaleza Publicado em 29.05.2017

O sentimento é de tristeza, mas de reafirmação de sua luta e de seu exemplo. Contemporâneos, amigos e até quem não pôde conviver com Gilse Cosenza, lamentaram sua partida. A mineira que adotou o Ceará no coração faleceu no último domingo (28), vítima de complicações de um câncer, doença que nunca tirou lhe sorriso nem a convicção de continuar a luta por um país melhor.

Uma das principais responsáveis pela reorganização do PCdoB no Ceará, Gilse, junto com seu companheiro de quase 20 anos, Abel Rodrigues Avelar (atual secretário estadual de Organização), foram designados por Pedro Pomar para vir para cá e, aqui, ajudar na reestruturação do Partido.

Chegaram em 1976 e, com Benedito Bizerril, iniciaram as tarefas de reconstruir as bases comunistas. O advogado e amigo enalteceu a camarada. “Gilse é uma guerreira, que teve uma vida inteira dedicada à libertação do povo brasileiro e dos oprimidos. Sua participação foi importantíssima na resistência à ditadura militar, desde ainda muito jovem. Foi brutalmente torturada, mas se portou com a bravura de uma heroína, tem forte convicção comunista e é exemplo de luta para todos nós, brasileiros”, afirma.

Benedito recorda a época em quem conheceu Gilse. “Eu era o único nome que ela tinha. Aqui, participamos destes movimentos iniciais de reorganização do Partido, onde fomos, aos poucos, retomando as atividades. Ela certamente foi uma das principais responsáveis pelo o que o PCdoB se transformou e devemos muito à sua capacidade e dedicação. Gilse se vai neste momento de novas ameaças à democracia, mas sua história e legado ficam para sempre como lembrança e exemplo de luta em defesa de um Brasil melhor. Cabe a todos nós continuarmos empunhando sua bandeira”.

Atual membro do Comitê Central do PCdoB, Carlos Augusto Diógenes, o Patinhas, também lamentou a perda da amiga. “Que tristeza nos atinge a notícia do falecimento da guerreira Gilse Cosenza! Minhas condolências ao Rodrigues - seu companheiro durante anos, suas queridas filhas - Juliana e Gilda -, genros, netas e demais familiares. Quando voltei ao Ceará, após a anistia, no início de 1980, um pequeno grupo buscava tenazmente reorganizar o PCdoB. Era liderado por Gilse, que tinha sido ao lado de seu companheiro Rodrigues, deslocada por Pedro Pomar, em 1975, para reorganizar o Partido no Ceará, desarticulado devido sucessivas ondas repressivas. A este núcleo fui anexado. Lembro-me bem das reuniões todas segundas-feiras, às 19h, em sua residência numa pequena vila, próxima a hoje denominada Avenida Jatai. Lá estavam sempre Gilse, Rodrigues e Benedito Bizerril. Logo nos primeiros contatos, chamou-me chamou atenção o caráter de Gilse: não desanimava diante das dificuldades. Foi assim ao enfrentar seus covardes torturadores, no início da década 1970; foi assim que também enfrentou, durante longos anos, a luta contra o câncer. Mesmo com a saúde debilitada, nunca deixou de militar no seu Partido. Dava sua contribuição em Belo Horizonte, onde residia. Lembro-me de uma foto de Gilse numa passeata contra o impechment de Dilma. As vitórias que o PCdoB tem conseguido no Ceará ao longo dos anos devem-se muito ao seu caráter, ao seu exemplo de combatividade e de dedicação no dia a dia com a luta em defesa dos direitos do povo e da causa socialista. Gilse sempre estará presente entre nós!”, ratifica.

O deputado federal Chico Lopes também enalteceu o perfil combativo de Gilse. “Ela foi uma grande dirigente comunista, conseguindo reorganizar o PCdoB no Ceará com muita coragem. Aparentemente frágil, mas com grande capacidade de unificar, ela nos dava rumos naquele período tão difícil qual seriam nossos trabalhos. Incansável, não media esforços para lutar por um país melhor, bandeira que ainda continua sendo nosso sonho. Gilse continuará sendo exemplo, ainda mais nesta dura realidade que ainda atravessamos, quando o Brasil vive um dos piores momentos da sua vida política”, avalia.

A vereadora de Fortaleza, Eliana Gomes, lamentou o falecimento da histórica militante da esquerda e do PCdoB. A parlamentar relembrou que, em 2011, teve a “honra de homenagear Gilse em Sessão Solene na Câmara Municipal de Fortaleza”. “Gilse tem uma grande e riquíssima história. Foi um exemplo de mulher que ama seu país, que lutou por soberania e justiça social, sendo capaz de sair da sua terra natal, Minas Gerais, para enfrentar um dos períodos mais cruéis vividos pelo Brasil. Gilse Cosenza faz parte da história do Ceará e consolidou a nossa luta no Estado. Nossa grande Gilse Westin Cosenza deixa a vida e entra, definitivamente, para a história. Sigamos seu exemplo, nos inspiremos na sua garra e vivamos sua resistência”.

Sobre a homenagem prestada na Câmara Municipal, a socióloga Nagyla Drumond recorda. “Conseguimos homenageá-la em vida, aqui no Ceará. Lembro como se fosse agora: eu e Flávio Arruda, à época assessores do mandato da Eliana, no auditório do Comitê Estadual ligando para Gilse e a convidando para vir ao Ceará, para ser homenageada na CMFOR e na Conferência Estadual do PCdoB. Uma mulher imprescindível. Transformou todas as dores de sua vida em ímpeto para continuar lutando. Nunca esmoreceu, nunca”, enaltece.

A secretária estadual de comunicação do PCdoB-CE, Andrea Oliveira, também falou sobre a referência para os militantes do Ceará que é Gilse. “Entrei no Partido no ano em que Gilse estava saindo do Ceará e assim não pude conviver com ela aqui no dia a dia como dirigente partidária. Mas tínhamos e a temos como grande referência do PCdoB no Ceará. Em atos nacionais, quando a encontrávamos, éramos sempre festejadas com carinho. Ela amava essa terra, nossa cultura e foi uma grande construtora da luta feminista no Estado. Em 2011, fui uma das homenageadas pela passagem do Dia Internacional da Mulher pela Câmara dos Vereadores, fiquei lisonjeada por ter sido lembrada, mas lembro que na época meu maior orgulho mesmo era estar sendo homenageada no mesmo evento em que se homenageava Gilse. Era ousada e autêntica e muito, muito carinhosa”, recorda com afeto.

O publicitário Flávio Arruda lamentou a partida da comunista, militante e mulher de quem tanto gostava. “Jamais esquecerei sua ternura, sua atenção, sua enorme combatividade. Jamais esquecerei as madrugadas que passamos a ouvir seus relatos, suas opiniões. Ela que nos tratava como que filhos dela e sempre tinha um sorriso, um beijo e um abraço guardados em sua camaradagem. Se vai uma de nossas heroínas. Heroínas das lutas das mulheres, da juventude e do povo. Gilse morreu. Viva, Gilse!”

O também publicitário Sousa Júnior recorda o momento marcante em que conviveu com Gilse Cosenza. “Foi seu relato de vida e da tortura sofrida no tempo da ditadura, gravado por mim na casa de Lula Morais, para um documentário. Foi tão triste ouvir aquele relato quanto saber da morte dessa grande guerreira e militante comunista. Gilse sobreviverá para sempre nos corações e mentes de todos e de todas que a conheceram e terá seu nome inscrito definitivamente na história por ter dedicado toda sua vida à construção de um mundo melhor e por um Brasil sem explorados e sem exploradores, um Brasil socialista! Gilse, sempre presente!”.

Publicado no Vermelho