“Nada nos preparou para isso”, anunciou surpreso o professor Thomas (Tom) Patrick Dwyer, do Departamento de Sociologia da Unicamp, ao abrir o 2º Seminário Pesquisar China Contemporânea, primeiro grande evento do ano organizado pelo Grupo de Estudos Brasil-China, agora em 26 e 27 de abril, no auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). “Recebemos quase 50 resumos de trabalho de pesquisadores de 23 instituições de todas as regiões do país. Temos 140 pessoas inscritas para o evento, sendo que contratamos coffee break apenas para 30; espero que não venham todas de uma vez”, brincou.

O seminário reuniu seis conferencistas, com a apresentação de 26 trabalhos sobre meio ambiente, economia, ciências sociais, relações internacionais e humanidades – temas de pesquisa para inúmeros pós-graduandos do Grupo de Estudos Brasil-China, coordenado por Dwyer, que fez da Unicamp pioneira nessa área e já possui três livros publicados. “Nossa missão é levantar a bola da China e os desafios dessa nossa relação, através de seminários e fóruns. Também oferecemos há quatro anos um curso de pós-graduação de Introdução à China Contemporânea”, explicou o professor do IFCH, acrescentando que 400 alunos estudam mandarim na Unicamp.

O professor Thomas Patrick Dwyer, organizador do seminário: livro norteou escolhas
Na conferência de abertura, Tom Dwyer contou como a sociologia brasileira se aproximou dos chineses, até ao ponto de ter avançado nos estudos mais do que outras áreas. “Essa história na verdade começou em 2004, no Congresso Mundial de Sociologia em Pequim, quando nós da delegação brasileira (eu era vice-presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia) tivemos três horas de aula sobre a China e vimos que não sabíamos absolutamente nada sobre o país. E ouvimos de uma personalidade chinesa que todas as áreas da ciência no Brasil tinham que se preocupar com a China, inclusive a sociologia. O silêncio na delegação foi total. Não havia nenhum mapa de como trabalhar com a China.”

Tom Dwyer tratou na palestra sobre “O que aprendemos com 10 anos de cooperação Brasil-China: o caso da sociologia”. “Dei dez anos de pesquisa por causa de um livro publicado em 2007 na França, cujo título em português é ‘A nova sociologia chinesa’, apenas com autores chineses, escrevendo do jeito deles, sem ter que passar por nossas teorias ocidentais – quando publicamos internacionalmente, nos vemos forçados a mudar a própria visão de mundo para dialogar com o ocidente. Eram os melhores sociólogos da China dialogando uns com os outros. Encontramos a partir desse livro um caminho a seguir. Um livro pode mesmo transformar a vida da pessoa.”

Sessão de economia

O Jornal da Unicamp acompanhou integralmente a sessão temática de economia, em que alunos apresentaram seus projetos de pós-graduação sobre temas variados: a expansão da presença da China no Oceano Índico, o uso de novas tecnologias por empresas chinesas para entrega de serviços financeiros (Fintech), os investimentos chineses na compra de terras na América Latina, a internacionalização do Renminbi (ou RMB, moeda oficial da China que tem o yuan como unidade básica) e as empresas estatais chinesas como atores políticos nas relações com o Brasil.

Felipe Gusmão Carioni Fernandes, doutorando da UFRJ, vai estudar a importância estratégica do Oceano Índico para a China sob a ótica da economia política internacional. “As características geográficas, econômicas e políticas tornam o Oceano Índico um tabuleiro geopolítico de disputa bastante acirrada entre Estados nacionais. Meu objetivo é averiguar a importância desse espaço para a China e como isso se encaixa no seu projeto de desenvolvimento.”

 

O doutorando Felipe Gusmão Carioni Fernandes: China busca integração

Fernandes também vai tratar dos projetos do chamado “Colar de Pérolas” no Mar do Sul da China, como a construção e expansão de ilhas artificiais, a ferrovia pan-asiática, o canal de Kra, o oleoduto Myanmar-China e o porto de Gwadar no Paquistão. “Isso tudo para comprovar minha hipótese de que a China tem utilizado sua crescente capacidade militar e econômica para aprofundar as relações com os países e assegurar a defesa de suas linhas de suprimento através da integração e incremento de sua presença na região do Índico.”

Fintech chinesa

“Percepções econômicas e ciberculturais sobre Fintech na China” é o projeto de Paula Coruja (UFRGS) e Janaína Camara Silveira (Vale dos Sinos), ambas jornalistas de formação, que moraram juntas naquele país e trabalharam na Xinhua, a agência de notícias estatal. “Uma das áreas mais vibrantes da China contemporânea é certamente a economia digital e, dentro dela, escolhemos o recorte sobre a Fintech, um serviço financeiro proporcionado por meio da tecnologia – e, no caso, muito ligado ao telefone celular, usado por um em cada cinco chineses que acessam a internet”, explica Paula Coruja.

A pesquisadora informa que os grandes serviços da Fintech da China são os pagamentos sem dinheiro de papel ou de plástico, empréstimos (microcréditos) para indivíduos e pequenas e médias empresas, investimentos, seguros e gestão de patrimônio. “Trouxemos dados recentes do governo chinês registrando 772 milhões de pessoas conectadas (mais do que União Europeia e EUA juntos), sendo que 69% recorrem ao celular para pagamentos – nas grandes cidades já não se usa dinheiro para quase todos os serviços.”

 

As jornalistas Paula Coruja e Janaína Camara Silveira: novos dados

Janaína Silveira adianta que o foco da pesquisa estará na Ant Financial, a maior fintech do mundo e um dos braços do grupo Alibaba (conhecido no Brasil pelo Aliexpress). “Em 2016 a Ant Financial conseguiu levantar 4,5 bilhões de dólares, o que foi um grande acontecimento nesse ecossistema. A empresa já está avaliada em 60 bilhões de dólares, ficando perto do Bradesco. Os bancos estatais chineses faziam empréstimos só para as grandes corporações e, numa população ‘desbancarizada’, o indivíduo e a pequena empresa não tinham acesso ao crédito. A estabilidade econômica e um bilhão de pessoas conectadas fizeram com que a fintech se tornasse muito popular.”

Renminbi internacional

Um movimento da China pensado a partir da crise de 2008, para internacionalização de sua moeda, o Renminbi (RMB), é o que está sendo estudado por Ana Tereza Lopes Marra Souza e William Freitas de Daldegan, os dois do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unicamp, Unesp e PUC-SP). “É um trabalho inicial em que pretendemos discutir a internacionalização do RMB, entender como o governo tem conduzido esse processo e o que isso significa em termos mais amplos para o sistema monetário internacional”, explica Ana Tereza.

A pesquisadora parte do entendimento de que um estado estaria credenciado para emitir uma moeda a ser adotada internacionalmente se esta cumprir três funções: de reserva de valor, de meio de troca e de unidade de conta. “O RMB ainda se encontra em estado muito inicial de internacionalização. A China ainda não pode cumprir todas as condições internas e externas, mas está no caminho, por sua força econômica: é o país com a maior corrente de comércio do mundo, o que traz potencial para que sua moeda passe a ter importância internacional maior. Mas tudo com muito cuidado, porque a China também não quer minar o papel do dólar – ela tem reservas em dólar, títulos da dívida norte-americana e, por isso, é um processo pensado a médio e longo prazo.”

 

Ana Tereza Lopes Marra Souza e William Freitas de Daldegan, do Programa San Tiago Dantas: internacionalização do RMB

Estatais chinesas

Alena Profit, doutoranda na UnB e na Universidade de Darmstadt (Alemanha), estuda os processos de internacionalização de empresas estatais e seu papel enquanto atores políticos. “Meu foco nesta pesquisa são as estatais chinesas que investem no Brasil, especificamente a State Grid, depois de quase dois anos de trabalho de campo no setor elétrico chinês. O que me interessa são as condições e os mecanismos em que essas empresas desenvolvem ações cooperativas políticas. Temos estudos que atribuem a elas um papel bastante proativo na formulação de políticas públicas, enquanto outros estudos apontam que no contexto de investimento no Brasil, por exemplo, seriam um instrumento do governo.”

A pesquisadora analisa o processo de emergência da State Grid e como ela mobiliza seus interesses nos anos 2000, a partir de sua entrada no mercado brasileiro. “Muitas vezes partimos do pressuposto de que essas empresas têm poder para influenciar interesses a seu favor. É possível utilizar diferentes recursos para exercer atividades cooperativas políticas, como relacionamentos de mídia e com pessoas chaves no processo legislativo, ou mesmo campanhas públicas e visitas técnicas à China. Mas análises empíricas mostram que elas manobram de forma bastante indireta. O setor de transmissão no Brasil, por exemplo, é muito regulado, e por isso as entradas que a State Grid possui são bem pontuais.”

 

 

Alena Profit, doutoranda na UnB e na Universidade de Darmstadt: pesquisa analisa estatais

Cooperação ou grilagem?

Por que as empresas chinesas estão comprando terras no exterior, e por que em determinados países e não em outros, é a questão colocada no projeto de tese de Eduardo Matos Oliveira (UFPE): “Cooperação ou grilagem? Uma análise dos investimentos chineses na compra de terras na América Latina”. “A ideia é fazer uma pesquisa comparada entre países do sul global, vendo os pontos da periferia em que a China comprou terras e também aonde não comprou, para entender por que alguns países estão sendo alvo e outros não. A dificuldade central é entender se as empresas chinesas, tanto privadas como estatais, agem de forma coordenada ou se é um movimento aleatório.”

Oliveira explica que segundo a literatura chamada de “land grabbing”, referente à corrida internacional por terras no século 21, a estimativa é que estrangeiros adquiriram mais de 200 milhões de hectares em vários países, apenas entre 2006 e 2011. “As compras estão concentradas em países africanos, o que não significa que ocorreram somente nesse continente; a América Latina resiste em casos de grandes transações de terra. Quando falo em compras pelos chineses, falo em transações que envolvem no mínimo 200 hectares.”

 

Eduardo Matos Oliveira, da UFPE: pesquisa comparada

O professor Célio Hiratuka, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, convidado a atuar como debatedor nesta sessão temática, atentou para a variedade de pesquisas que a ascensão da China vem provocando. “Os trabalhos na área econômica estão florescendo, mas sempre dialogando com outras áreas como ciência política, meio ambiente e relações internacionais, o que é muito bom. Não é possível entender a economia chinesa apenas a partir da área econômica, até por sua característica, que é de forte planejamento. Seja qual for o país, sofrerá grande influência da China – e, no caso do Brasil, falamos do nosso maior parceiro comercial. É fundamental ver o que acontece nesse país muito peculiar e que conhecemos tão pouco.”

O professor Célio Hiratuka, do Instituto de Economia: “Seja qual for o país, sofrerá grande influência da China”
 

Gravações de mesas do 2º Seminário Pesquisar China Contemporânea estão disponíveis no Youtube: