Prosa@Poesia

Da outra estação

Aidenor Aires Publicado em 28.01.2016

"O mais importante no poeta Aidenor Aires é sua lucidez. A sua constante vivacidade em traduzir o fato-homem em íntima relação com o acidente-vida", Hugo Zorzette. "Os recursos metafóricos saltam-lhe dos sentimentos com prodigalidade e ele busca símbolos, figurações originais que se irmanam de forma segura para efetivar o que pretende", Nelly de Almeida. "Aires é um fortíssimo inventor de metáforas, isto sim", Gabriel Nascente.

I

Menino apenas afeito à poesia
saiu para a visão dos muros
com seus olhos verdes
de um arrozal em crescimento
para o delírio das aves.
Seus grandes olhos verdes
postos no umbral da infância
tardia irrepetida.
Pleno impossível, sobre os olhos,
vê: estão cantando as tuas mãos cortadas.

 

II

Eternizar a primavera insólita
                           das mãos
na queda suicida das *pandorgas
abaladas da tarde para o azul
                de um céu quebrado.

 

III

A infância na morte das pandorgas
tem a tristeza de uma ausência eterna.

 

Sentirá talvez o cadaverzinho do sonho
que ainda o sigo pelos calvos caminhos
                                    da tarde;
e ainda ponho nos seus olhos verdes
minha dor madura
refeita sobre a morte das estradas?

 

IV

Entre o agora
E o cadáver da infância submersa
a distância sem paz dos desencontros.
E a alma geme e sofre como um rio
onde todos os peixes morreram,
apodreceram todas as pedras,
e emigraram amargas de crepúsculo
as alegrias de todas as aves.

 

V

A infância flui com suas mãos cortadas
do fundo verde dos olhos,
por sobre a calma dos muros
que a noite edificou
nas suas bruscas estradas.

 

VI

No umbral da hora futura, ave branca,
cal aérea de enorme solidão,
serei um poeta suave,
vossas mãos florindo em minha boca
Eu vim no tempo de réquiem
(requiescant sed non in pacem)
eu vim no tempo do pranto,
um carrossel de sofrimento
gera em meus pés,

 

                       com um delírio,
humano contigência de chorar:
a morte da nossa vida,
a vida dos nossos mortos

 

VII

A primeira repentina há de envolver a terra
     rolando dos olhos verdes,
    tombando como as pandorgas
    na espiga morna da tarde.
A noite plena de ausência onde me amargo
    e me encontro,
    menino farto de vento,
   pequeno, frágil, tão verde,
   curvando de dor madura.

 

Chegando do exílio, do outro lado do mundo,
    ave branca de um país insondável,
    resta oculta substância do meu riso,
    meu riso inexplicável.     


Livro: Na Estação das Aves
Autor: Aidenor Aires
1ª Edição- 1973
Distribuição da Livraria e Editora Cultura Goiana

*regionalismo para o brinquedo aéreo conhecido como papagaio ou pipa.